Sensualismo alimentar

Sopa Camões

A primeira vez que li Gilberto Freyre me encantei com o texto fluente, saboroso,  que subvertia a idéia de que ensaios sociológicos deveriam ser pesados, acadêmicos, destituídos de qualquer concessão ao prazer. Casa Grande & Senzala é cheio de descrições eróticas, engraçadas, musicais, apaixonadas. Freyre termina seu fabuloso ensaio falando de comida, e quase sentimos o cheiro das tapiocas, dos doces, das quitandas das pretas quituteiras, dos “mocotós, vatapás, mingaus, pamonhas, canjicas, acaçás, abarás, arroz-de-coco, feijão-de-coco, angus, pão-de-ló de arroz, pão-de-ló de milho, rolete de cana, queimados, isto é, rebuçados, etc.”

Toda vez que arrumo minhas prateleiras e sopeso o alentado volume (uma edição comemorativa dos 80 anos do autor, de 1980, com poemas de Drummond, Bandeira e João Cabral, desenhos de Santa Rosa, Cícero Dias e Poty), releio alguns trechos, fruindo o delicioso estilo do pernambucano.

Ontem ganhei um inusitado presente, que me remeteu a Freyre: um opúsculo editado em 1952 pelo Ministério da Educação e Saúde do Brasil. O título: “O Sensualismo Alimentar em Portugal e no Brasil”. O autor, Dante Costa.

Confesso que nunca tinha ouvido falar do cara. Uma consulta à Estante Virtual mostra que escreveu outros títulos relacionados à alimentação, além de livros de viagem e até um  “O Socialismo”.

A tese de Costa é a de que os portugueses têm uma relação de amor com a comida, e os brasileiros, desdém. Lá pelas tantas cita Freyre, claro, mas seu método de pesquisa é baseado na literatura, não em andanças pelos tabuleiros das baianas. Começa por Camões, de onde pinça versos do canto IX dos Lusíadas:

Mil árvores estão ao céu subindo
Como pomos odoríferos e belos:
A laranjeira tem no fruto lindo
A cor que tinha Daphne nos cabelos.
Encontra-se no chão, que está caindo,
A cidreira c’os pesos amarelos;
Os formosos limões, ali cheirando
Estão virgíneas tetas imitando.”

E Camões também fala de “amoras, que o nome tem de amores” entre outras saliências, que mostram a forte relação dos portugueses com a comida desde os primórdios da língua. Nosso Dante cita Fialho D’Almeida, Eça de Queiroz (“o caráter de uma raça pode ser deduzido simplesmente do seu método de assar a carne”) e Ramalho Ortigão (“torrentes de ovos de fio brotam de rochedos de nogada, cobertos de chalets de massa, sobre tanques de torrão de Alicante, em que se abeberam pombas de rebuçado e boizinhos de pão-de-ló com chavelhas de açúcar e entranhas de creme.”).

Para ele, escritor brasileiro só fala de fome, não de comida. “A pobreza mutila-lhe muito da alegria. Com as outras, vai-se a alegria de comer”. Segundo Dante Costa, as descrições de jantares e acepipes ”são raras na literatura, porque são raras na vida mediana do povo.” Citando uma conferência de Joaquim Ribeiro, diz que “a fome, no Brasil, começou com a civilização”.

O livrinho foi publicado em 1952. Dante escreveria isso hoje? Se vivesse numa grande cidade brasileira, provavelmente não. Mas se passeasse pelo sertão mais árido, comprovaria a validade de sua tese. O que não significa que nos rincões mais desprovidos de Portugal a miséria alimentar também não exista. Afinal, Eça e seus colegas de ofício viviam na cidade, não nos campos.

Onde o sexo é só reprodução, não há sensualidade. Onde o ato de comer é somente uma questão de sobrevivência, não há como ser uma refinada fonte de prazer.

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4 Responses to “Sensualismo alimentar”


  1. 1 Bergamo 08/06/2009 às 12:24 pm

    Irei atrás desse livro. Achei interessante esse paralelo Comida no Brasil (ou a falta dela) x Comida em Portugal (sensualidade). Apesar de datado, vale a pena.
    Abraços,
    Bergamo

  2. 2 Mario Abramo 08/06/2009 às 1:06 pm

    Ops….
    Ok, tirando João Ubaldo e o manual de antropofagia e a moqueca de baiacu do “Viva o Povo Brasileiro”, acho que na literatura tem pouca coisa sim (Pedro Nava, talvez?).
    Mas e na música? Essa tese de relacionar sensualidade com “riqueza” não fica meio furada?
    []s

  3. 3 Daniel Brazil 08/06/2009 às 2:01 pm

    Lembro-me de um volume da Civilização Brasileira, dos anos 60, em que escritores foram convidados para escrever sobre os 7 pecados capitais. Recordo vagamente que o Cony falava sobre luxúria, e o autor sobre a gula fazia uma extraordinária descrição de banquetes romanos na Palestina. Só não lembro o nome do cara…
    Essa idéia foi retomada recentemente, portanto algum autor moderno compulsoriamente escreveu sobre o tema. E o Veríssimo tem uma longa série de crônicas sobre o tema, que até viraram livro (A Mesa Voadora).
    Na música a tese não funciona, caro Mário. O forró, a roda de samba e o batuque na cozinha são atividades intimamente ligadas à sensualidade, ao namoro, ao casamento. Talvez seja o único lugar onde as camadas mais pobres podem expressar sua sensualidade. Isso talvez explique a quantidade de letras insinuantes ou picantes ligadas à música mais popular, ou “brega”.

  4. 4 Daniel Brazil 10/06/2009 às 1:19 pm

    Descobri! O autor do capítulo “Gula”, no livro Os 7 Pecados Capitais, é Guilherme Figueiredo. Irmão do general, por sinal…


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