Diploma de jornalista?

Esta semana foi marcada pelo polêmico fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. Vários amigos estão debatendo a questão, e um incauto até arriscou me perguntar o que achava.

Talvez não devesse entrar nessa discussão, por não ser jornalista. Mas estudei numa faculdade de comunicação, tive e tenho muitos colegas jornalistas, e até sou confundido com eles.

Estudei Cinema na USP. Concluí o curso direitinho, em 4 anos. Nunca fui buscar o diploma, não me serve pra nada. Sou contra o diploma para cineasta…

Sempre achei absurda a quantidade de “colegas” do curso de jornalismo que não participavam sequer do jornalzinho do Centro Acadêmico, na minha época.  Também achava um absurdo o curso de jornalismo não ter aulas de português. E não têm até hoje, em muitos lugares! Vi muito aluno de jornalismo escrever gato com jota e sapato com cê, pra você ver!

Vi de perto que o monte de generalidades que é ensinado nas faculdades de jornalismo (sociologia, psicologia, antropologia, filosofia, todas “da comunicação”) não torna o aluno melhor que um sociólogo, psi, etc., de verdade. A regra é se tornar um generalista raso.

Como os mais argutos já perceberam, não defendo o curso “superior” de jornalismo. No meu jornal “ideal”, um médico escreveria sobre medicina, um urbanista sobre questões urbanas, um cientista político sobre política, um músico sobre música, um economista sobre a Bolsa de Valores, um profissional de turismo falando de viagens, um engenheiro sobre o Airbus da Air France. Mas teriam de escrever bem. Como?

O curso de jornalismo deveria ser oferecido como extensão acadêmica, com no máximo dois semestres, onde o sujeito aprenderia algumas técnicas básicas de redação, editoração e pesquisa. E com um exame rigoroso de português para ingresso, pois para escrever num meio de comunicação deve dominar o idioma.

Simples. E complicado, devido ao corporativismo dos “colegas”. Na área da comunicação onde atuo com mais frequência (televisão), muitos jornalistas ficariam indignados se lhes fosse exigido o diploma de “rádio e TV” ou “audiovisual”. Felizmente, é uma área menos conservadora, menos acadêmica. Tem outros pecados, claro.

Repare: Quando um repórter vai fazer uma matéria sobre um assunto qualquer, seja economia, física nuclear ou futebol de salão, ele entrevista jornalistas da área? Não, ele procura profissionais da área. O jornalista sabe que o público quer ouvir/ ler a opinião de especialistas, não generalistas. Assim sendo, porque preciso de um jornalista? Pra que o intermediário do conhecimento? Não seria melhor um jornal falado/ escrito por aqueles especialistas?

Creio que em todas as profissões existem os dotados de espírito investigativo, soma de curiosidade inata e conhecimento técnico adquirido na pesquisa. Esse cara deve passar por um treino pra escrever bem e voilá! teremos um ótimo jornalista especializado!

Num artigo, o (bom) jornalista Leandro Fortes teme que, com o fim do diploma, as “redações dos pequenos jornais do interior do Brasil, (…) sejam infestados por jagunços, capangas, cabos eleitorais e familiares”. Convenhamos, está desatualizado.  Isso já acontece, com diploma ou não.

Por que diabos uma redação de sociólogos, pedagogos, artistas de circo, economistas, etc, seria mais subserviente aos patrões que jornalistas? Há algum indício de que jornalistas sejam mais éticos ou inflexíveis que o resto dos mortais?

Isso é que soa estranho na maioria dos argumentos. Falam do fim do diploma como se acabasse o último bastião da moralidade. Não bate com o que vemos por aí, nas Vejas e jornalões da vida.

Em resumo: sou contra o diploma, mas a favor de bons cursos de jornalismo. E se fosse dono de jornal, pode crer que contrataria redatores e repórteres com diploma ou certificado do tal curso. Existe gente boa e ruim no jornalismo, como em qualquer outra profissão, mas isso não vem indicado em nenhum diploma…

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10 Responses to “Diploma de jornalista?”


  1. 1 dalila teles veras 21/06/2009 às 12:22 am

    caro Daniel,
    Saio de “alma lavada” da leitura deste seu texto. Com uma lucidez e um cabedal de serenos argumentos, você acabo pondo um ponto final nessa histérica discussão sobre o fim da exigência do diploma de jornalista para o exercício da profissão, como se isso significasse a própria extinção da profissão.
    Se me dá licença, permita-me subscrever o seu texto, palavra por palavra. Por pouco não resisti à tentação de falar sobre o assunto no meu blog, mas ainda bem que não o fiz, pois não o faria melhor nem com a sua competência. Parabéns. É isso.
    forte abraço e admiração da
    dalila teles veras

  2. 2 Daniel Brazil 21/06/2009 às 12:45 am

    Ao ler teu comentário, Dalila, me ocorreu outra analogia: já pensou se para escrever poesia (ou escrever um romance) precisássemos de diploma do curso de Letras?
    aliás, teu blog continua excelente. É bom ler quem escreve bem!

  3. 3 Fábio Mendes 23/06/2009 às 4:02 pm

    O fim da obrigatoriedade, caro Daniel, só vai contribuir para o achatamento de salários no jornalismo. Pra resumir. Nem vou falar do pouco prestígio que temos, mesmo sendo qualificados, e o que acontecerá com quem não tiver diploma e for trabalhar em uma redação…

  4. 4 Daniel Brazil 23/06/2009 às 4:33 pm

    Devemos lutar, Fábio, pela regulamentação da profissão. Tornar efetivo o CNJ, com poderes normativos e fiscalizadores.
    Algo como uma OAB ou os Conselhos Regionais de médicos ou engenheiros.
    Vários profissionais da área avaliam que isso vai valorizar as boas faculdades e diminuir os “fabricantes de diplomas” de fundo de quintal. O apaniguado do dono do jornal fazia um curso de fim-de-semana em Xiririca da Serra e tirava o tal diploma de jornalista, sem as mínimas condições. Tá cheio disso no interior! O advento do diploma não melhorou a qualidade da imprensa, infelizmente.
    Lembre-se de que bancários, metalúrgicos, petroleiros, eletricitários ou químicos garantem seu piso salarial com organização e mobilização, não com diploma.

  5. 5 akio 24/06/2009 às 10:10 pm

    Realmente, o diploma é apenas um enfeite para alguns cursos, principalmente o meu(de 300 anos AC), e que não faço questão de pendurar na parede(considero-me um paraquedista). Mas para a medicina, engenharia e física, considero o diploma obrigatório. São profissões de extrema responsabilidade. Não é fácil entrar numa dessas faculdades e sair sem sacrifícios(depende da faculdade).
    Na advocacia, sem comentários. A OAB não dá moleza!
    Para o jornalismo, acredito que a própria empresa deva ter os seus cursos de especialização e processo rigoroso de selecão. Não há o que temer. Se tiver o diploma, melhor, é só mostrar que é bom. Se não tiver e for competente, bom também. Se tiver os dois, ótimo!
    Obs.: Creio que a própria pessoa deva avaliar a sua condição. Acho que dá para saber. Experiência própria.
    Abraço
    Akio

  6. 6 Daniel Brazil 24/06/2009 às 10:20 pm

    Mais ou menos como a OAB, Akio, um CNJ (Conselho Nacional de Jornalismo) forte pode colocar regras claras no mercado de trabalho. É nisso que eu empenharia meus esforços, se fosse jornalista!
    Abraço,

  7. 7 Carmen 25/06/2009 às 1:45 am

    Akio, sou física, e queria dizer que a profissão de físico NÃO é regulamentada! Em um concurso aberto na USP, no Instituto de Física, numa determinada área (dinâmica molecular) tem mais de um químico inscrito. Vai-se avaliar a competência (o que inclui conhecimento na área do concurso), se um deles se destacar, leva!
    A profissão de professor sim é regulamentada (um matemático pode dar aulas de física e vice-versa, desde que tenham as licenciaturas – um complemento comum aos cursos de professores, exatas ou humanas); até um geógrafo, por exemplo, poderia dar aula de física, mas sinceramente, que diretora de escola vai contratar um geógrafo para dar aulas de física? Só porque vai pagar mais barato? Se os jornalistas acreditam que, de fato, aprendem algo útil na escola, não seria de se esperar que os donos de meios de comunicação percebessem isso e a cobrassem para todos os cargos onde essa formação fosse importante? O fim da OBRIGATORIEDADE do diploma não significa o fim do diploma e nem que uma empresa não possa colocar como exigência para candidatos a certo cargo “curso superior de jornalismo”! Nós físicos acreditamos no curso que fazemos, e não no canudo recebido no final. Se um funcionário de um escritório de patentes, (como Einstein fez…) mandar um artigo revolucionário sobre algum assunto para uma revista especializada e ele for aprovado pelos pares, será publicado, independente do diploma que o cidadão possua.
    A meu ver tem duas discussões importantes misturadas: (a) sem dúvida será preciso remodelar a organização sindical da categoria; vai-se viver uma reacomodação, sem dúvida, mas não é impossível; (b) precisa-se pensar em como fiscalizar a ética, o compromisso com a verdade, no jornalismo. Infelizmente, não é o diploma que garante isso!

  8. 8 Fábio Mendes 25/06/2009 às 3:58 pm

    Caro Daniel, a profissão já é regulamentada. O que falta é fiscalização, seriedade e, sim, algumas mudanças, mas não essa.

    O fim da obrigatoriedade do diploma faz exatamente o contrário do que você pregou: ele ajuda a desregulamentar a profissão.

    E discordo que quem avalia que o fim da obrigatoriedade vai valorizar as boas faculdades e diminuir os “fabricantes de diplomas” de fundo de quintal. Agora, quem quiser entrar na Folha, por exemplo, terá de se submeter aos cursos de trainee, que nada mais é do que um cursinho corporativo para transformar postulantes a jornalistas em executivos da notícia.

    E sim: bancários e metalúrgicos garantem seu piso salarial com organização e mobilização e não com diploma. Mas você há de convir que não são profissões de curso superior. Sem desmerecer estas profissões e profissionais, a comparação tem de ser feita com quem precisa (ou precisava) de um curso superior.

  9. 9 Fábio Dias Moreira 26/06/2009 às 7:00 pm

    Irretocável a sua observação sobre a formação de jornalistas especializados. Sua observação sobre ter cientistas escrevendo artigos jornalísticos me lembra a tragédia que foi a estréia da versão traduzida da Scientific American aqui no Brasil.

    Além de traduções toscas (e.g. “átomos de silicone”), em uma das primeiras edições, a SciAm Brasil publicou um artigo que eu só posso descrever como spam jornalístico: http://www.lotorainbow.com.br/po/sciam.htm

    Já se vão vários anos desde a publicação deste artigo, e não é totalmente claro para mim se o comitê editorial da revista mudou desde então, mas pelo que consta o diretor-geral deles é formado em jornalismo e arquitetura.

    Não tenho nada contra os jornalistas ou os arquitetos, mas eu gostaria de acreditar que alguém com um mínimo de formação científica não teria deixado uma baboseira dessas ser publicada em uma revista que se denomina “Scientific”.

    (Em contraste, o redator-chefe da Scientific American, er, americana, é formado em Biologia.)

  10. 10 Margareth Bravo 20/07/2009 às 6:12 am

    Caro Daniel!
    Esse tema levanta tantas polêmicas, eu por exemplo questino o diploma em todas as categorias, pelo menos no Brasil, que hoje se tornou uma indústria que fabrica e vende diplomas e paralelo a isso, um academiscismo tôsco paira no ar, em qualquer situação, vem aquela perguntinha: – qual a sua formação? Como se as pessoas se reduzissem a uma formação, como se não existissem livres pensadores, autodidatas, pessoas que criam, descobrem, inventam, à margem das instituições universitárias. E discordo da amiga Carmem, aqui no Brasil, não há espaço para livres pensadores, infelizmente. Um forte exemplo disso, foi o Boal, que espaço a mídia e as instituições autorizadas deram a esse grande revolucionário? Enquanto isso, consumimos o lixo legitimado por aqueles que diplomados, sem o mínimo senso de relevância.
    O que necessitamos mesmo, é do rigor da e aplicabilidade das leis, com ou sem diploma, mas para isso é preciso uma grande reforma no Sistema Jurídico/legislativo do país! Uma revolução não acha?
    Parabéns amigo, pela condução do tema!


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