Arquivo de julho \16\UTC 2009

Pelos caminhos do mundo…

A ausência de notícias, esta semana, se deve ao longo percurso que vou fazer pelas estradas da Itália, com uma esticada a Paris. Palermo, Erice, Siracusa, Florença  e o que mais topar no caminho. Muitos quilômetros a rodar, muitas veredas a cruzar, e as histórias ficam pra volta. Até breve, no início de agosto!

Pelos caminhos do sertão…

A ausência de notícias, esta semana, se deve ao longo percurso que estou fazendo pelas estradas do Ceará e Paraíba. Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, Milagres, Barro, Cachoeira dos Índios, Cajazeiras, Sousa (a terra dos dinossauros).  Muitos quilômetros a rodar, muitas veredas a cruzar, e as histórias ficam pra volta. Até breve!

Pelas estradas de Minas…

A ausência de notícias, esta semana, se deve ao longo percurso que estou fazendo pelas estradas de Minas. Teófilo Otoni, Ponte Nova, Passos, Divinópolis…Muitos quilômetros a  rodar, muitas veredas a cruzar, e as histórias ficam pra volta. Até breve!

Caninha Trepadeira

Faz tempo que não conto um causo aqui no Fósforo. E porque hoje é sábado, vou relembrar um da semana passada.

Estava em Atibaia, onde passei quatro dias num velho hotel-fazenda meio decadente, acompanhando um congresso de trabalhadores da saúde. No segundo dia, fui até o centro da cidade para sacar dinheiro. Depois de rodar umas cinco vezes o quarteirão do banco, não achei lugar pra estacionar. Ruas apertadas e cheias, típicas das cidades que não foram feitas para suportar a atual frota circulante. Como na maioria das cidades, aliás…

Tentei novamente no domingo, certo de que o centro estaria vazio. Só não contava com encontrar uma feira no meio da cidade. Parei o carro bem longe, atravessei a feira, saquei meus trocados. Na volta, não resisti e entrei no mercado municipal.

Adoro mercados. É onde tomo contato com a cultura local. Não observo apenas as comidas típicas, artesanatos e badulaques, mas também os costumes, os modos de conversar, de barganhar, de dar risadas. Seja Atibaia, São José do Egito, Manaus ou Montevidéu, visitar o mercado é de lei.

O de Atibaia é pequeno, mas simpático. Safra de morangos no início, pintando as bancas de frutas de vermelho. Muitos japoneses, presença forte na região. Lembrei de comprar uma cachaça local para o Paulo W, colecionador que costuma recepcionar as garrafas recebidas com generosos churrascos.

A única que encontrei não era de Atibaia, mas da vizinha Nazaré Paulista. O japonês-caipira que me vendeu disse que era forte, e que o fabricante era prefeito de Nazaré. Bem, um sujeito que fabrica uma caninha chamada Trepadeira deve ter muito voto, certamente.

Acabo de conferir na página da cidade, e o nome do atual alcaide não é o que está no rótulo. O japonês me enganou ou enganaram o japonês. Mas descobri que o prefeito estava perdendo a reeleição em 2008 e, com a contagem chegando ao fim, a oposição já comemorava no centro da cidade. Na última urna a votação virou, e ele ganhou por 2 votos. Dois! O pau comeu, claro, e a polícia teve de intervir.

Taí: uma cidade onde se faz uma caninha Trepadeira e eleição termina desse jeito merece ser visitada. Preciso conhecer Nazaré Paulista!

Caninha Trepadeira

Atualização, 12 horas depois: O japonês estava certo! O prefeito Nenê Pinheiro é mesmo o dono do alambique. É que ele assina a cachaça com o nome de batismo, por ser coisa séria. O apelido é para a política…

As paisagens silenciosas de Lucila

Foto Lucila

A fotógrafa (e amiga querida) Lucila Wroblewski desenha com a luz. Pinta cenários oníricos onde o olhar passeia por muito tempo, procurando decifrar a magia que se esconde/revela através  das cores.

São fotos feitas no crepúsculo ou à noite, iluminadas com lanterna, e ampliadas manualmente em grande formato, sem nenhuma interferência de computador (nada de Photoshop!).

Lucila está com uma exposição de fotos (pinturas de luz!) na Caixa Cultural, na Praça da Sé, 111, em São Paulo. Vai até 9 de agosto, de terça a domingo, das 9 às 21 h. No programa, dois workshops mostrando a técnica do light painting. Pra quem gosta de fotografia de invenção, é uma grande pedida!

Lucila 2

Lucila 1

Sarney, o incomum

Sarneydiscursa

(Às vezes leio algo tão bem escrito que dá até raiva. Por que não consigo escrever assim?  O jornalista Leandro Fortes disse tudo neste artigo!)

Sarney, o homem incomum
Há anos, nem me lembro mais quantos, os principais colunistas e
repórteres de política do Brasil, sobretudo os de Brasília, reputam ao
senador José Sarney uma aura divinal de grande articulador político,
uma espécie de gênio da raça dotado do dom da ponderação, da mediação
e do diálogo. Na selva de preservação de fontes que é o Congresso
Nacional, estabeleceu-se entre os repórteres ali lotados que gente
como Sarney – ou como Antonio Carlos Magalhães, em tempos não tão idos
– não precisa ser olhada pelas raízes, mas apenas pelas folhagens.
Esse expediente é, no fim das contas, a razão desse descolamento
absurdo do jornalismo brasiliense da realidade política brasileira e,
ato contínuo, da desenvoltura criminosa com que deputados e senadores
passeiam por certos setores da mídia.
Olhassem Sarney como ele é, um coronel arcaico, chefe de um clã
político que há quatro décadas domina a ferro e fogo o Maranhão,
estado mais miserável da nação, os jornalistas brasileiros poderiam
inaugurar um novo tipo de cobertura política no Brasil. Começariam por
ignorar as mentiras do senador (maranhense, mas eleito pelo Amapá), o
que reduziria a exposição de Sarney em mais de 90% no noticiário
nacional. No Maranhão, a família Sarney montou um feudo de cores
patéticas por onde desfilam parentes e aliados assentados em cargos
públicos, cada qual com uma cópia da chave do tesouro estadual, ao
qual recorrem com constância e avidez. O aparato de segurança é
utilizado para perseguir a população pobre e, não raras vezes, para
trucidar opositores. A influência política de Sarney foi forte o
bastante para garantir a derrubada do governador Jackson Lago, no
início do ano, para que a filha, Roseana, fosse reentronizada no cargo
que, por direito, imaginam os Sarney, cabem a eles, os donatários do
lugar.
José Sarney é uma vergonha para o Brasil desde sempre. Desde antes da
Nova República, quando era um político subordinado à ditadura militar
e um representante mais do que típico da elite brasileira eleita pelos
generais para arruinar o projeto de nação – rico e popular – que se
anunciava nos anos 1960. Conservador, patrimonialista e cheio dessa
falsa erudição tão típica aos escritores de quinta, José Sarney foi o
último pesadelo coletivo a nós impingido pela ditadura, a mesma que
ele, Sarney, vergonhosamente abandonou e renegou quando dela não podia
mais se locupletar. Talvez essa peculiaridade, a de adesista
profissional, seja o que de mais temerário e repulsivo o senador José
Sarney carregue na trouxa política que carrega Brasil afora, desde que
um mau destino o colocou na Presidência da República, em março de
1985, após a morte de Tancredo Neves.
Ainda assim, ao longo desses tantos anos, repórteres e colunistas
brasileiros insistiram na imagem brasiliense do Sarney cordial,
erudito e mestre em articulação política. É preciso percorrer o
interior do Maranhão, como já fiz em algumas oportunidades, para
estabelecer a dimensão exata dessa visão perversa e inaceitável do
jornalismo político nacional, alegremente autorizado por uma cobertura
movida pelos interesses de uns e pelo puxa-saquismo de outros. Ao
olhar para Sarney, os repórteres do Congresso Nacional deveriam
visualizar as casas imundas de taipa e palha do sertão maranhense, as
pústulas dos olhos das crianças subnutridas daquele estado, várias
gerações marcadas pela verminose crônica e pela subnutrição idem. Aí,
saberiam o que perguntar ao senador, ao invés de elogiar-lhe e,
desgraçadamente, conceder-lhe salvo conduto para, apesar de ser o
desastre que sempre foi, voltar à presidência do Senado Federal.
Tem razão o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao afirmar, embora
pela lógica do absurdo, que José Sarney não pode ser julgado como um
homem comum. É verdade. O homem comum, esse que acorda cedo para
trabalhar, que parte da perspectiva diária da labuta incerta pelo
alimento e pelo sucesso, esse homem, que perde horas no transporte
coletivo e nas muitas filas da vida para, no fim do mês, decidir-se
pelo descanso ou pelas contas, esse homem comum é, basicamente,
honesto e solidário. Sarney é o homem incomum. No futuro, Lula não
será julgado pela História somente por essa declaração infeliz e
injusta, mas por ter se submetido tão confortavelmente às chantagens
políticas de José Sarney, a ponto de achá-lo intocável e especial. Em
nome da governabilidade, esse conceito em forma de gosma fisiológica e
imoral da qual se alimenta a escória da política brasileira, Lula,
como seus antecessores, achou a justificativa prática para se aliar a
gente como os Sarney, os Magalhães e os Jucá.
Pelo apoio de José Sarney, o presidente entregou à própria sorte as
mais de seis milhões de almas do Maranhão, às quais, desde que assumiu
a Presidência, em janeiro de 2003, só foi visitar esse ano, quando das
enchentes de outono, mesmo assim, depois que Jackson Lago foi apeado
do poder. Teria feito melhor e engrandecido a própria biografia se
tivesse descido em São Luís para visitar o juiz Jorge Moreno.
Ex-titular da comarca de Santa Quitéria, no sertão maranhense, Moreno
ficou conhecido mundialmente por ter conseguido erradicar daquele
município e de regiões próximas o sub-registro civil crônico, uma das
máculas das seguidas administrações da família Sarney no estado. Ao
conceder certidão de nascimento e carteira de identidade para 100%
daquela população, o juiz contaminou de cidadania uma massa de gente
tratada, até então, como gado sarneyzista. Por conta disso, Jorge
Moreno foi homenageado pelas Nações Unidas e, no Brasil, viu o nome de
Santa Quitéria virar nome de categoria do Prêmio Direitos Humanos,
concedido anualmente pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da
Presidência da República a, justamente, aqueles que lutam contra o
sub-registro civil no País.
Em seguida, Jorge Moreno denunciou o uso eleitoral das verbas federais
do Programa Luz Para Todos pelos aliados de Sarney, sob o comando,
então, do ministro das Minas e Energia Silas Rondeau – este um
empregado da família colocado como ministro-títere dentro do governo
Lula, mas de lá defenestrado sob a acusação, da Polícia Federal, de
comandar uma quadrilha especializada em fraudar licitações públicas.
Foi o bastante para o magistrado nunca mais poder respirar no
Maranhão. Em 2006, o Tribunal de Justiça do Maranhão, infestado de
aliados e parentes dos Sarney, afastou Moreno das funções de juiz de
Santa Quitéria, sob a acusação de que ele, ao denunciar as falcatruas
do clã, estava desenvolvendo uma ação político-partidária. Em abril
passado, ele foi aposentado, compulsoriamente, aos 42 anos de idade.
Uma dos algozes do juiz, a corregedora (?) do TRE maranhense, é a
desembargadora Nelma Sarney, casada com Ronaldo Sarney, irmão de José
Sarney.
Há poucos dias, vi a cara do senador José Sarney na tribuna do Senado.
Trêmulo, pálido e murcho, tentava desmentir o indesmentível. Pego com
a boca na botija, o tribuno brilhante, erudito e ponderado, a raposa
velha indispensável aos planos de governabilidade do Brasil virou, de
um dia para a noite, o mascate dos atos secretos do Senado. Ao
terminar de falar, havia se reduzido a uma massa subnutrida de
dignidade, famélica, anêmica pela falta da proteína da verdade. Era um
personagem bizarro enfiado, a socos de pilão, em um jaquetão coberto
de goma.
Na mesma hora, pensei no povo do Maranhão.
Fonte: Brasília, eu vi – Blog de Leandro Fortes

Sarney