Mulé rendeira

Como estou em fase latino-americana, não resisto em contar um causo relatado por meu velho amigo Vidotto, lá de Washington, DC.

Conversando com uma amiga americana sobre a música do continente, teve a surpresa de ouvir Juaneco e su Combo cantando Mujer Hilandera. Grande sucesso da música peruana nos anos 70/80, até hoje deixa alguns patriotas exaltados quando alguém diz que é um plágio da Mulé Rendeira  imortalizada no filme O Cangaceiro, de Lima Barreto,  premiado em Cannes em 1953.

O engraçado é assistir esta gravação de auditório, dos anos 80, e ler os comentários indignados dos hermanos andinos ofendidos com a acusação de que não é uma canção original. Tem um que afirma ter morado 4 anos no Nordeste e nunca ouviu Mulé Rendeira por aquelas bandas…

Bem, se ele passou por lá nos últimos 20 anos, é bem provável que não tenha mesmo ouvido. Nos quiosques nordestinos à beira mar só se ouve breganejo e tecnoforró, com algumas exceções pop. Esta trilha sonora faz parte da nossa riqueza/miséria cultural. É provável que a grande maioria dos jovens nordestinos não saiba mais cantar as estrofes de Mulé Rendeira. Rimos dos peruanos ou choramos juntos?

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1 Response to “Mulé rendeira”


  1. 1 Daniel Brazil 10/10/2009 às 12:26 am

    Outro prezado amigo, Alberto Cavalcanti, de Brasília, me envia um e-mail com uma verdadeira aula sobre a Mulé Rendêra. Não resisto:Informação só é boa quando circula! Aproveitem!

    “A historia de Mulher Rendeira, Daniel, é, ao menos até onde alcanço a coisa, a seguinte.
    Era cantada pelo bando de Lampião, do qual Volta Seca fez parte, nos últimos anos. Aliás, aparentemente, o papel de Volta Seca no grupo talvez fosse mais artístico do que propriamente guerreiro.
    Volta Seca não foi morto no confronto final. Não é uma daquelas cabeças celebrizadas em foto. Cumpriu pena, foi solto e teve alguma carreira artística.
    Nos anos 50, Paulo Roberto, o médico-radialista, gravou um disco de 10 polegadas, “Cantigas de Lampeão”, tendo Volta Seca por personagem central, inclusive cantando nas faixas. O ano parece ter sido 1957 e o selo era o Todamérica, subsidiário da Continental, dirigido por Braguinha. O disco foi relançado em cedê e vc. pode comprá-lo aqui:

    http://www.americanas.com.br/AcomProd/580/172375

    Eis aqui a capa do lançamento original:

    http://www.forroemvinil.com/?p=7394

    [Aproveito para registrar uma nota pessoal: pra quem foi menino no Rio nos anos 50, a voz de Paulo Roberto é mais que familiar, é quase uma “voz de dentro”, que a gente carrega na alma.]
    Parece que foi realmente Volta Seca (Antonio dos Santos) quem divulgou Mulher Rendeira fora do universo restrito do bando de Lampião.
    Quatro das faixas cantadas por Volta Seca no disco produzido por Paulo Roberto foram aproveitadas no elepê A Música do Cangaço, lançado em 1984 pelo selo Eldorado, com produção, salvo engano, de Aluízio Falcão.
    Zé do Norte era compositor e intérprete. Quanto de suas composições é realmente invenção própria, quanto é apropriação/adaptação de criações coletivas, mais ou menos folclóricas, é coisa que não sei dizer. Mas foi,formalmente, o responsável pela trilha sonora do filme de Lima Barreto. Ou
    seja, foi o responsável pela fixação, na pauta, da versão de Mulher Rendeira que se tornou mais conhecida (e que, salvo engano, não é exatamente coincidente com a que vc. ouve no disco de Volta Seca & Paulo Roberto, indicado acima).
    Daí, funcionando como uma espécie de gatekeeper, fez o que costumam fazer muitos gatekeepers: acrescentou o próprio nome como co-autor. Luiz Gonzaga também fez isso, segundo já li. E assim vários outros, mais ou menos reverenciados, desde Catulo da Paixão Cearense, pelo menos. Que tal?”

    Perfeito, Alberto. Só não posto a tal foto das cabeças aqui porque ela assombrou minha infância, na Bahia. Saponificação. Nunca esqueci esta palavra, que nunca mais li ou ouvi em qualquer lugar…
    E viva Zé do Norte!


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