O banho-maria do Paschoa

Estou há algumas semanas curtindo um novo livro de engarrafamento (cultivo o perigoso hábito de ler durante os congestionamentos paulistanos – não façam isso, crianças! -). O pluriforme livrinho de Airton Paschoa, Banho-maria (Nankin Editorial, 2009) oferece um cardápio de pequenas delícias proso-poéticas, às vezes micro-contos, às vezes epigramas, embebidos em partes desiguais de doçura e amargura, de riso e risco, de dor e odor. (ele gosta de aliterações,  ecos e rimas toantes).

Páscoa (como os amigos o chamam) não é fruto da internet, como a moda e o parágrafo acima fazem supor. Já publicou romances, contos e artigos indefinidos, mas em papel, capa e prateleira. Não tem blog. Seus textos são curtos porque são. Nem mais, nem menos. Quaseprosa ou quaseverso, nunca quasímodo.

Banho-maria é um fascinante amontoado de palavras. Por menos homogênea que possa parecer sua escritura, basta ler para sentir que tem corpo, alma, estrutura e sentido.  E sob a capa do sarcasmo, do poema-piada, do quase-cinismo, há pinceladas de lirismo desencantado e provocador, capaz de sínteses como esta:

BANHO-MARIA

O chiado não cessa. Mas basta controlar a pressão. Um suspiro e iria tudo pelos ares. Muito sábia a senhora minha avó. Viveu de chaleira na mão e um dia evaporou. Que Deus a tenha! que a chaleira está entre nós.

Capa-banho-maria

Não é um trecho, é tudo. E isso é tudo!

5 Responses to “O banho-maria do Paschoa”


  1. 1 neuzza pinhero 18/10/2009 às 2:25 am

    Impressionante. Tenho muito q aprender.
    abç!

  2. 2 Daniel Brazil 18/10/2009 às 4:45 pm

    Gente que escreve coisas como essa não só vivem aprendendo, como também ensinando:

    “Dizes como morres, e te direi…”

    Não é fácil morrer dignamente nestes dias
    carregados de pequenos
    envenenamentos cotidianos
    de desejo insano
    de raiva corrosiva

    dias sem nenhuma causa a defender…

    (Neuzza Pinhero)

  3. 3 dalila teles veras 19/10/2009 às 12:56 am

    Daniel,
    Você não está sozinho. Apesar de evitar engarrafamentos (quase sempre posso escolher meus horários e fujo de horários de pico)também tenho sempre um livro no banco da direita para eventualidades. Não só, máquina fotográfica também (as cenas da metrópole são irresistíveis). Mas também tenho sempre um livrinho em outros lugares inusitados (como todo leitor inveterado), como na cozinha (enquanto aguardo a fervura), na bolsa (para enfrentamento de filas, espera de atendimento médico – as revistas dos consultórios são horríveis e defasadas), enfim. O livro é sempre uma boa (e sempre arriscada) companhia. Quanto ao Paschoa, parabéns pelo olhar clínico de leitor exigente. Sou leitora dele também e tempos atrás, até escrevi uma resenha de um de seus livros (se não me engano, o primeiro).
    abraços da leitora
    dalila teles veras

  4. 4 Daniel Brazil 19/10/2009 às 3:08 am

    Viu só, Paschoa? Você também tem leitores de respeito!

  5. 5 Airton Paschoa 23/10/2009 às 10:08 pm

    De respeito?! É porque não leram ainda a “Dárlin”…
    Abraço amigo
    do Paschoa


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