Arquivo para novembro \25\UTC 2009

Cinema na Rua, o vídeo

Está na rede o vídeo da estréia do Cinema na Rua, no Campo da Erundina (M’Boi Mirim), no dia 07/11/2009 . Dá uma boa idéia da montagem, da estrutura, da sala de projeção, da recepção do público.

As sessões estão agendadas até janeiro, em vários locais da Zona Sul de São Paulo. A vontade de arrumar patrocínio para continuar o projeto é muita. Façam figa!

O retorno de Woody Allen

Na semana passada tive o prazer de assistir o último filme de Woody Allen, apresentado na abertura da mostra que apresenta toda sua obra em retrospectiva, no CCBB de São Paulo.

Depois de um giro pela Europa nos últimos anos, onde o lado Zelig do cineasta fez com que realizasse obras hitchcoquianas em Londres e almodovarianas em Barcelona, o retorno a Nova York não poderia ser mais previsível.

Temos um velho ranzinza e neurótico, cheio de observações corrosivas sobre tudo, que se envolve com uma jovem burrinha, recém chegada à cidade (Imagino a pergunta ecoando no teu cérebro nesse momento: “Ah, não, de novo?”). Como Woody já passou dos 70, convocou outro ator para encarná-lo. Também velho, judeu e neurastênico: Larry David.

O que há de novo, então? Humor rasgado, cínico, inteligente, em situações que beiram o absurdo. Há muito tempo WA não fazia um filme tão engraçado. Reforça as provocações comportamentais constantes em sua obra, sobre casamentos, opções sexuais, religião e laços familiares. O lugar comum é tratado a pontapés, e regado por doses de sarcasmo.

Só há um chavão: o final feliz, aliás já indicado pelo título brasileiro: Tudo Pode Dar Certo. Mesmo que o físico doidão vivido por David lá pelas tantas tente o suicídio, é um filme que termina pra cima, com alto astral, numa utópica confraternização de contrários.

Sei lá, acho que aí há alguma ironia que não percebi. Mas adorei o filme. Bem vindo a NY, Woody. E nunca mais saia daí!

PS: O filme entra em cartaz em janeiro de 2010. Este aí em cima é o cartaz francês, menos egocêntrico que o original americano, onde só aparece o ator. Retrata o momento em que Boris tenta explicar física quântica para a jovem apaixonada. Carmen, minha doutora em física particular, riu muito!

Filme brasileiro tem público?

Nós, do CINEMA NA RUA, temos a resposta pronta e testada nas ruas: sim! É incrível como a atenção do público por uma boa história ainda dispensa os milhões em efeitos especiais, tiros, perseguições de automóveis e outros clichês do cinemão comercial.

Após 12 sessões, onde o menor público rolou numa noite de temporal (e mesmo assim encheu mais da metade da sala), temos certeza de que uma narrativa bem amarrada é tudo. Filmes feitos com poucos recursos, mas contando com o talento de atores e diretores empenhados em contar uma história envolvente, demonstraram sua eficácia. De Passagem (Ricardo Elias), filmado na periferia de São Paulo, agradou de cara ao público do M’boi Mirim e Capão Redondo. Chega de Saudade (Lais Bodanzky) envolve pela música e pela temática: conquistou o público de mais idade. Narradores de Javé (Eliane Caffé) diverte, mesmo que algumas frases e trocadilhos proferidos pelo ótimo José Dumont não sejam percebidos pelo público. O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (Cao Hamburguer), não é exatamente um filme infantil, mas polarizou a atenção de uma meninada inquieta, que acabara de assistir Tainá 2 (Mauro Lima) na primeira sessão.

Tainá 2, aliás, é um sucesso absoluto. Não é fácil achar filmes brasileiros de qualidade voltados para o público infanto-juvenil. Durante a montagem da tenda, as crianças perguntavam com insistência o que ia ser exibido. Ao ouvir “Tainá”, as reações eram de surpresa e alegria. “Oba, já vi três vezes, quero ver de novo” ou “nunca vi no cinema!”.

Pequenas Histórias (Helvécio Ratton) propõe um ritmo mais lento de narrativa. Seus episódios misturam humor, suspense e observações sobre o cotidiano do mundo rural. Sem empolgar tanto quanto Tainá, mantém a atenção dos mais jovens. Fica evidente que é preciso estimular a produção e veiculação de produções destinadas ao público infanto-juvenil. Neste campo, o Brasil tem perdido terreno há décadas para a produção estrangeira, com exceções pontuais. E na faixa etária que mais cresce no país!

Nesta semana, no Campo Limpo, estrearemos novos títulos: O Milagre de Santa Luzia (Sérgio Roizenblit), documentário sobre a sanfona e os sanfoneiros, Os 12 Trabalhos (Ricardo Elias), a dura vida de um motoboy iniciante, Uma Onda no Ar (Helvécio Ratton), sobre as dificuldades de uma rádio comunitária na favela, e o premiado Estômago (Marcos Jorge), que enfoca um nordestino que vem para o Sul trabalhar como cozinheiro. Pra completar, o documentário Fiel, sobre a torcida corintiana, terá a presença da diretora Andréa Pasquini e do diretor de fotografia Luiz Miyasaka, para um bate-papo com o público do Campo Limpo. É só conferir!

Conferência de comunicação

Participei, no último sábado, da Conferência Municipal de Comunicação. Mais de 300 pessoas, representando diversas entidades, na Câmara Municipal de SP, prepararam a pauta para as conferências estaduais e nacional.

Qual a importância disto? Toda. Nunca se fez no país uma discussão organizada, com participação aberta a todos os segmentos, do sistema de comunicação brasileiro. As concessões (e uso político) de rádio e TV, as outorgas, os monopólios, os mecanismos regulatórios, as novas mídias.

Por que a grande imprensa não tem noticiado algo tão importante? Medo, lógico. Querem abafar, diminuir o impacto, tornar inócuo. As bases sobre as quais foram construídos impérios midiáticos correm risco. Os métodos obscuros de criação e ampliação de jornais e redes de TV serão discutidos à luz do dia. Não é à toa que empresários do setor tentam esvaziar ou instrumentalizar os grupos de discussão.

Na abertura da Conferência, na sexta à noite, uma pessoa se destacou: Luiza Erundina. Narrou sua batalha quase solitária na Comissão de Comunicações da Câmara Federal. Falou do enfrentamento com os monopólios e com Hélio Costa, ex-funcionário da rede Globo (alguns dizem que ainda está na folha de pagamento…), colocado vergonhosamente à frente do Ministério das Comunicações pelo atual governo.

Aos 74 anos, a guerreira parece incansável. Enérgica, corajosa, destemida. Foi aplaudida várias vezes, de forma emocionante. Ainda mais depois da condenação ridícula que sofreu, esta semana, tendo seu único bem, o apartamento onde vive há anos, penhorado. Na terra de Maluf e Pitta, Luiza Erundina é condenada por ter apoiado uma greve geral contra o descalabro do governo Collor. Como o Judiciário quer ser levado a sério, agindo desta forma? Pune-se a honestidade e premia-se o ladrão, se for influente e poderoso.

Uma frase de Luiza Erundina causou impacto:

“Vinda do sertão, onde nasci e enfrentei minhas primeiras lutas, talvez vocês se surpreendam com o que vou dizer agora. Para mim, a reforma do sistema de comunicação é hoje mais importante que a reforma agrária.”

É pra pensar…

A Guerreira

Afinal, pra que perguntar pro Caetano?

Li a entrevista que Caetano deu ao Estadão, na última semana. Como de hábito, discute o capitalismo, o governo Lula, a indústria cultural, o desmatamento na Amazônia, o fim da história e a morte da bezerra.

Me divirto com o Caetano. Admiro sua inteligência musical, até mesmo a verve literária. Sei que a inspiração anda lhe faltando nos últimos tempos, como acontece com todos de sua geração. Também Chico, Milton ou Gil não têm criado grandes canções na última década. É normal o esgotamento, depois de brilharem por tanto tempo.

Mas, dentre os citados, Caetano é sempre o mais provocador, o que causa urticária na direita e na esquerda. Irrita os petistas por não ser petista. É visto com desconfiança pelos direitistas por nunca ter sido um deles. É acusado de ter feito pactos com ACM, mas a acusação parte de quem faz pactos com  Sarney.

O que me espanta é que ninguém perceba o papel da imprensa nesse mito construído, nesse Caetano supra-real, cujos contornos se confundem com o do poeta-compositor. O que se passa na cabeça dos editores e jornalistas quando vão entrevistar o cara? Mitificação ou malandragem? Sim, porque sabem que o velho leão não deixa pergunta sem resposta, por educação ou temperamento.

Querem levantar uma polêmica? Perguntem pro Caetano o que ele acha do xxxxxx (preencha como quiser: O papa, Lula, Getúlio Vargas, camisinha, Madonna, Cristina Kirchner, o ex-muro de Berlim, Obama, Levi Strauss…)

Não ocorre a ninguém fazer uma pergunta política ou comportamental a Jorge Benjor, Luiz Melodia, Francis Hime ou Guinga. Estes compositores – tão bons quanto Caetano – só devem falar de música, estão condenados a falar apenas disso. Talvez emitissem opiniões mais polêmicas que o baiano, mas quem se importa? A imprensa se acomoda e cutuca sempre o mesmo leão, porque o rugido é garantido.

O mais curioso é que vejo muito neguinho pontificar em boteco sobre qualquer assunto, mas não admitir que Caetano faça o mesmo. Eu, você e o taxista podemos falar de qualquer assunto, mas Caetano? Ah, não, isso é um absurdo! Ouvi literalmente de um amigo (argentino, por sinal): “Ele não pode falar sobre tudo!”

Ué, porque não? Eu posso, mesmo sabendo que falarei besteira sobre quase tudo. Você pode, ele pode, nós podemos. É proibido proibir, lembram? Não, não foi Caetano que disse isso. É uma célebre pixação dos muros de Paris, nas barricadas de 68.

Se as falas de Caetano são provocativas, ótimo. Se estão lá apenas pra vender jornal, péssimo. Sinal de que a capacidade dos jornalistas de distinguir quem realmente pode dar respostas relevantes anda abaixo da crítica. Estes energúmenos diplomados em generalidades parecem incapazes de fazer uma pergunta pertinente ao universo da criação lírica-musical do filho de dona Canô. Por exemplo:

– Você não acha uma regressão estética fazer roquinho de garagem como um adolescente retardado tardio, depois de ter criado tantas obras-primas de madura sensibilidade?

Aí veríamos o verdadeiro Caetano, falando com propriedade sobre o assunto que mais domina. Mas cadê jornalista pra isso, na imprensa brasileira?

Cinema brasileiro nas quebradas

Log Cinema na Rua

Tenho trabalhado pra cachorro (faz tempo que não uso essa expressão!), por conta de um circuito alternativo de cinema que a turma da Via Cultural resolveu montar. Cadê tempo pra escrever no Fósforo? Veja aqui como a coisa é séria!

A estréia é amanhã, sábado. Semana que vem faço um relato, com algumas fotos. Rumo à periferia, rapaziada!

PS de 09/11:

A estréia surpreendeu! Veja como foi: www.cinemanarua.wordpress.com.

Citação e recitação

No meio de uma conversa em torno da polêmica travada entre Caetano Veloso e Paulo Vanzolini, acerca da canção Sampa, surgiu um comentário meio depreciativo, dizendo que o baiano é o cara que mais copia na música popular brasileira.

Como sabemos, Caetano cita um verso e uma frase melódica de Ronda: ”Cena de sangue num bar da Avenida São João” vira “Só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João”.  Vanzolini odiou, resmungou que era um plágio, Caetano argumentou que era uma homenagem a duas coisas que ele identificava como essencialmente paulistanas: a famosa esquina e a canção Ronda. Na verdade, o paulista já declarou em entrevistas que não gosta desta música, considera obra de juventude, melodramática em excesso. Talvez preferisse ser lembrado por outras cancões…

A lei caracteriza o plágio pelo número de compassos idênticos, mas existem inúmeras citações, homenagens, referências, ecos de outras canções dentro das canções de nossos maiores compositores. Villa-Lobos adorava trabalhar em cima de temas populares, cirandas, cantigas de ninar. Tom Jobim foi acusado de vários “plágios”, inclusive em Chega de Saudade.

Caetano, nas suas primeiras composições, já citava sambas de roda do Recôncavo baiano: “É de manhã, vou buscar minha fulô” (É de Manhã). E fez isso a vida inteira, misturando alta poesia (Navegar é preciso…) com versos anônimos do povo. Procedimento coerente com a estética desenvolvida pelos tropicalistas, cevada por grandes poetas como Ezra Pound, que influenciou toda a arte moderna. A grande poesia é feita de referências, escreveu ele. Porque a grande música não seria?

“Tropeçavas nos livros, desastrada”, escreve Caetano, lembrando um dos mais famosos versos de nosso cancioneiro: Tu pisavas nos astros, distraída, de Orestes Barbosa. As consonâncias e ressonâncias do novo verso criam rimas internas em nossa memória, e ficamos a ruminar sílabas e aliterações. Tropeçando nesta floresta de citações que é a MPB, por vezes nos sentimos desnorteados ao ouvir um verso conhecido ou uma seqüência de notas que, como o sabor das madeleines proustianas, nos remete a outras canções, filhas e netas de remotas chiquitas bacanas.

Numa canção do Milton Nascimento emerge uma frase musical idêntica à de uma peça renascentista anônima. Intencional ou não? Terá o mineiro ouvido em alguma igreja barroca, na infância, e ali ficou adormecida por muitos anos até aflorar numa canção brasileira, sem que ele percebesse?

Chico parte de canções populares para criar suas Terezinhas, Maninhas e outras preciosidades. Claro, tem muita gente que prefere implicar com o Caetano, não com o Chico. E quando este cita a quadrilha do Drummond, como é que fica? Fica lindo, claro! Carlos amava Dora que amava Pedro… Não é à toa que o primeiro nome citado é o do poeta. Vinicius revive pontos de candomblé e chama Baden pra roda, e este convoca o garoto Paulo César Pinheiro pra lembrar o Besouro Cordão de Ouro, zum-zum-zum, zum-zum-zum, capoeira cita um!

Luiz Gonzaga deixou o rastro das alpercatas na música de muita gente. Dos reverentes nordestinos, como Alceu, Fagner ou Chico César, até um paulista como Miguel Wisnick, que cria um Assum Branco surpreendente no  CD Pérolas aos Poucos. Aliás, o trocadilho também pode entendido como citação, neste caso recriação de uma expressão popular.

Para o bem e para o mal, estamos condenados a ouvir cada vez mais repetições e citações nas canções que ouvimos. Multiplicação de repertório, acúmulo de informação, vivência de ouvinte. Saber distinguir cópia de homenagem, plágio de recriação, é um exercício de sensibilidade e cultura musical. E isso vale tanto para o compositor quanto para o ouvinte.

(Este artigo foi publicado na Officina do Pensamento, revista virtual da poeta Ana Peluso, em 2004. Estava esquecido, até que o assunto retornou no último fim de semana, num almoço com amigos. O eterno retorno de certos assuntos…).