Avatar

Fui ver Avatar. Saí maravilhado, impressão que normalmente dura por algum tempo e vai se dissipando quando a poeira digital abaixa.

Me parece definitivo que é uma experiência inovadora para a história do cinema. Nada será como antes, depois de Avatar. Quem se conformará em ver um filme de FC (ou de fantasia) em 2D? Até Harry Potter e o Senhor dos Anéis parecerão miseráveis, depois de Avatar.

Dito isso, vamos aos clarões de sobriedade. O filme é uma fábula previsível, cheia de referências conhecidas e coisas parecidas com… outros filmes. A floresta e seus sustos lembram descaradamente Jurassic Park. O romance inter-racial (ou entre espécies, no caso) é puro Pocahontas. A batalha final é Apocalipse Now. O soldado meio tosco que ganha consciência e resolve ficar do lado dos bons é… vixe, são muitos!

Mas isso não é ruim, é legal. O filme é uma fábula, e o roteiro se assenta nestes arquétipos, nessas estruturas narrativas tão conhecidas e estudadas. Nada de novo. E tudo, de novo!

O visual é impressionante. A imaginação gráfica é admirável, e o 3D nos faz ficar de boca aberta pelo, digamos, realismo (o mais correto seria dizer surrealismo. Até as montanhas flutuantes de Magritte estão lá, lindíssimas, com cachoeiras e pterodáctilos voando como se estivessem em capas de álbuns do Yes, nos anos 70).

O filme mistura todas estas referências e o resultado é fantástico. Atenção: Fantástico no sentido da fantasia, não no sentido empobrecedor criado pela Globo nas noites de domingo.

Saí do filme conversando com a Carmen (física) e a Renata (produtora de vídeo). Uma, apaixonada por ficção científica. Outra, por cinema. E lembrei de filmes que foram marcos do cinema de FC.

Metrópolis, lá atrás. 2001, Uma Odisséia no Espaço, de 68, marco absoluto, um dos maiores filmes de todos os tempos. Blade Runner, nos anos 80, enterrando de vez a imagem limpinha e asséptica do futuro no planeta. Star Wars, com seu vertiginoso fliperama visual. Jurassic Park. E agora, Avatar.

O que chama a atenção nessa linhagem é a regressão intelectual. Havia idéias políticas, desafios intelectuais, conflitos adultos. A coisa vai ficando rala, até virar uma fábula de bonzinho contra malvado, cada vez mais simplória, para encantar o maior número de pessoas possível.

Avatar aposta na infantilização crescente dos jovens, que são 90% do público mundial de cinema. Investe na preguiça em pensar, no previsível, na equação fácil. Kubrick seria um fracasso hoje, nem conseguiria filmar algo como 2001. “Que porra é essa, que ninguém consegue entender?”, diria o big boss da produtora. E os jovens de hoje – perante 2001 – dizem a mesma coisa, num vocabulário ainda mais pobre. Nos anos 60, nos encantávamos com o desafio, com o obscuro, com o indecifrável… hoje, se a história não for entregue bem mastigadinha, é fracasso na certa. Ou vira uma xaropada pretensamente intelectual como Matrix, cheia de furos.

Consciente da decadência mental que Avatar representa, volto a dizer que é um marco na história do cinema. Não sei o que virá depois, ladeira abaixo, mas é um magnífico exemplar da submissão da inteligência criativa à técnica que recicla e liquidifica todos os conceitos anteriores. É maravilhoso. De maneira perversa, vai tornar menores todos os filmes que ousem especular sobre o futuro em um obsoleto 2D. E nem teremos noção do que vamos perder com isso, deslumbrados que estaremos com as paisagens new age do planeta Pandora.

(As ilustrações que abrem e fecham este post são de Roger Dean, ilustrador inglês, dos anos 70. A do meio é do belga René Magritte – morto em 1967).

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12 Responses to “Avatar”


  1. 1 Carmen 14/01/2010 às 12:33 am

    Concordo com tudo, mas acho que faltou um comentário. Na verdade, a meu ver, mais um elogio: James Cameron se esforça muuuito para ser, digamos, “politicamente correto” (embora novamente sem grandes inovações). O filme resgata valores humanistas, é, digamos, um filme “verde”, ecologicamente correto numa época de preocupações com o aquecimento global, e faz uma crítica (superficial, mas talvez isso seja o máximo possível a um típico representante do sistema) à visão de que o que importa é o desenvolvimento econômico a qualquer preço, ao colonialismo cultural, aos Rambos da vida. Tá bom, exagerei, talvez ele tente fazer tudo isso. O resultado final no entanto ajuda a valorizar o filme. Eu adorei. Quero ver de novo!

  2. 2 Daniel Brazil 14/01/2010 às 12:52 am

    Quero ver de novo também, Carmen. O filme é lindo. Com todas as limitações intelectuais, é “do bem”, defende o fraco, o oprimido, o diferente.
    O grande senão ideológico é que os bonzinhos não se viram sozinhos, precisam de um WASP (white anglo-saxon protestant) que lhes aponte o caminho da salvação. O chefe dos “azuis” oprimidos parece um estúpido, incapaz de pensar por conta própria.
    Em nenhum momento o diretor faz a opção belicista. Ele é apenas ingênuo, como roteirista. E centenas de vezes mais esperto que eu, quando se trata de ganhar dinheiro.

  3. 3 Ines 17/01/2010 às 7:56 am

    Avatar é uma metáfora do que pode acontecer quando decidirmos explorar outros planetas com fins economicistas. é interessante o esforço para comunicar com os indígenas e muito me surpreendeu a decisão da guerra no fim, tornando o filme definitivamente previsivel. Mas a verdade é que a mensagem de que a guerra ambiental se fará definitamente por vias não diplomáticas é talvez realista. O filme perdeu uma oportunidade para apontar uma nova solução. Mas os filmes também servem para vender.

  4. 4 Daniel Brazil 17/01/2010 às 10:34 am

    Certo, Ines. E o modelo é o mesmo, desde os impérios da Antiguidade. Gregos, romanos, espanhóis, portugueses, holandeses, ingleses, franceses, americanos, brasileiros… Povos dominadores e massacradores de outras culturas, movidos por interesses econômicos. Em todos os casos há algumas “boas almas” que estudaram o “inimigo”, aprenderam sua língua, documentaram seus costumes. Mas em absolutamente todos os casos, o poder das armas foi mais forte.

  5. 5 Ruggero 20/01/2010 às 3:48 pm

    Acho que uma boa visão de “a que vem este filme” está em:
    http://blogdolumiere.blogspot.com/
    coluna da Carta Capital.
    Dê uma olhada e me conte. Abraços

  6. 6 Daniel Brazil 20/01/2010 às 4:22 pm

    Sou fã dos blogs do Além, da Carta Capital. Mais uma vez, ri bastante, Ruggero! Crítica sutil e certeira.

    • 7 ROSÂNGELA 29/04/2010 às 12:59 am

      Olá Daniel,
      Por favor me ajude!!!
      Estou desesperadamente querendo assistir o documentário: Além de trabalhador, negro, para ilustrar um trabalho da faculdade.
      Onde posso acha-lo? Já fiz várias pesquisas e não obtive resultados satisfatórios até encontrar esse blog.
      Moro em Jundiaí, interior de S.P. e por aqui minhas buscas foram em vão.
      Grata
      ROSÂNGELA

  7. 8 Daniel Brazil 29/04/2010 às 11:11 am

    Vou te escrever, Rosângela.

  8. 9 DARLAN MORAIS 27/06/2010 às 8:42 pm

    ACERTASTE NA MOSCA COM O SEU COMENTÁRIO,AINDA NÃO VÍ O FILME,METRÓPOLIS AINDA ME FASCINA, 2001 ME LEVA OS MEUS PENSAMENTOS ALÉM E BLADE RUNNER, COM A CENA DO REPLICANTE,DIZENDO -TIME TO DIE.SÓ RESTA ENXUGAR AS LAGRÍMAS.

  9. 10 Daniel Brazil 27/06/2010 às 9:55 pm

    Na mosca azul, Darlan!

  10. 11 lucas pereira da silva 02/10/2011 às 10:45 pm

    Desculpe o atraso de mais de um ano, mas confesso que gostei bastante de Avatar. Tentaram rebaixar o filme com aquele Alice no país das maravilhas, mas na minha opinião Avatar é o filme do ano 2010. A trama é boa, mas um tanto quanto resumida. Poderia haver muito mais assunto.
    Acho que as tomadas que fizeram com os ikrans, aqueles dragões coloridos, prenderam mais a atenção do público. Só que, depois de olhar o filme mais de uma vez, ele enjoa.

  11. 12 Daniel Brazil 02/10/2011 às 11:14 pm

    Vou ver de novo, Lucas, um dia desses. Vamos ver se realmente enjoa!


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