O esplendor de Florença

Diz um velho ditado que não se deve ir a Roma sem ver o Papa. Não cumpri esta indicação, embora tenha visto belas obras de arte no Vaticano. Mas cumpri prazerosamente um outro conselho, de inspiração mais elevada: Não se deve ir a Florença sem ver a Galeria Degli Uffizi.

Passei vários dias embriagado pela superexposição a tantos tesouros do  Renascimento (e posteriores). Os florentinos abusaram do direito de acumular belezas. Às vezes não tinham este direito, claro! Guerras, roubos e traições fizeram parte dos afazeres habituais de Medicis, Borgias, Sforzas et caterva.

O percurso na Galeria segue uma orientação cronológica. A reverente arte sacra dos séculos XIII e XIV exibe seus dourados. Giotto, Lippi, Piero Della Francesca, as batalhas de Ucello… Tudo é sólido, solene, compenetrado. De repente, entramos numa grande sala onde a luz que vem dos quadros emana leveza e transparência. Tudo parece voar, os pés mal tocam o chão. É Boticelli.

O coração descompassou ao ver a Primavera e, sobretudo, a Vênus de cabelos soprados pelos zéfiros. Mais linda que sua irmã brasileira, aquela que nos recebeu no aeroporto de Roma…

E tem Rafael, Caravaggio, da Vinci, Tiziano, Dürer. E os inefáveis anjinhos de Rosso Fiorentino, tocando alaúde ou espiando sobre um muro, reproduzidos em camisetas, cartões, cartazes, chaveiros, calcinhas e bolsas bregas em todo o mundo, inclusive nas barracas de camelôs tupiniquins.

Flanei também pelo Palazzo Pitti, enorme e cheio de mármores e óleos (a galeria Palatino tem outros Rafaéis, Rubens, Tizianos, Caravaggios…), só parando após a iminência de uma trombose nas pernas.

Obras conhecidas, quase familiares. Estão em livros, revistas, pôsteres, agendas, fascículos. Mas vê-las ao vivo, de perto, é pura emoção estética. Eu disse ao vivo? Sim, não foi um lapso. Elas respiram, e te acompanham com os olhos até que você saia da sala. Até o fim da vida. Até que você vire também um retrato na parede.

Ou uma estátua…

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2 Responses to “O esplendor de Florença”


  1. 1 dalila teles veras 24/01/2010 às 9:39 pm

    Daniel,
    Sabia que Florença (e a Uffizi)lhe renderiam crônicas, belas e sensíveis como esta. Sim, ver a arte viva, vista a vida inteira reproduzida em livros e revistas não é a mesma coisa. É ficar impactado e impregnado dela até o fim dos tempos. Parabéns. Aguardo mais
    dalila

  2. 2 Daniel Brazil 24/01/2010 às 11:37 pm

    Ainda falarei do por do sol, Dalila!


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