O crepúsculo de Florença

É curioso como uma das lembranças mais persistentes das pessoas que conhecem ou viveram em Florença é o por do sol. Seria normal, se estivéssemos falando de uma pequena ilha selvagem, onde o maior espetáculo fosse o crepúsculo. Ou de uma cidade portuária qualquer, virada para o Oeste, onde o mar incendiado dos fins de tarde aquecesse a alma das pessoas. Ou de um sertão (ou deserto) onde o alaranjado que anuncia a noite pinta o céu de nuances quase surreais.

Mas é Florença, depositária dos maiores tesouros artísticos da Europa. Cidade de palácios e castelos, de esculturas e pinturas, de torres e igrejas, de pontes e vielas cheias de história. Não tem mar, nem praia. De onde vem esse mistério?

Primeiro, do rio Arno, que se transforma em sol líquido cortando a cidade. Segundo, da ponte Vecchio (séc. XIV), velha senhora cuja beleza encanta várias gerações. Por fim, da moldura de montanhas, que delineia o cenário.

Nada disso seria devidamente apreciado se não houvesse um lugar perfeito para tal. Sobre uma colina, próximo à Piazzale Michelangelo, o Belvedere se transforma, todo fim de tarde, no ponto de encontro de turistas, estetas, apaixonados, jovens de todas as idades.

Eles guardam para sempre a visão do rio Arno dourado sob a Ponte Vecchio. Dezenas de pessoas levam garrafas de vinho e taças (ou cerveja, em pleno verão) e assistem ao espetáculo dantesco sentadas nos degraus da escadaria. Lindo! E não aplaudem o último raio de sol, como se faz em algumas praias. Erguem um brinde, e se embriagam de luz.

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5 Responses to “O crepúsculo de Florença”


  1. 1 dalila teles veras 30/01/2010 às 11:04 am

    Caro Daniel,
    Diante da poesia da paisagem, o cronista é revelado também como poeta, que realmente o é. Senão vejamos: uma imagem como esta “Primeiro, do rio Arno, que se transforma em sol líquido cortando a cidade” (sol líquido cortando a cidade!!!) bem que merecia virar verso e constar de um poema.
    Esta sua crônica é emocionante e emociona. Parabéns, você viaja e vê e, assim como um Odisseu da modernidade, volta a Ítaca para contar (bem) aquilo que viu/viveu.
    abraço
    dalila

  2. 2 Daniel Brazil 01/02/2010 às 2:50 pm

    Acho que o por do sol em Florença deixa qualquer um com este espírito, Dalila!

  3. 3 gerson 17/02/2010 às 3:07 pm

    Os tesouros não são do Risorgimento, mas do Renascimento. São momentos muito diferentes.

  4. 4 Daniel Brazil 17/02/2010 às 3:40 pm

    Você está certo em parte, Gerson. De fato, grande parte das obras de arte de Florença são do Renascimento. No entanto, há uma boa coleção de peças do Risorgimento, esteticamente identificadas com o Romantismo do século XIX.
    Obrigado pelo toque!


  1. 1 Um crepúsculo de domingo « FÓSFORO Trackback em 22/03/2010 às 12:46 am

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