Arquivo para fevereiro \27\UTC 2010

Perfume de Mulher

Certa vez, quando eu era um jovem como você e amava os Beatles e os Rolling Stones, alguém me disse que era bom não entender as letras das canções que eu curtia, pois iria me poupar de muitas decepções.

Depois de algum tempo, quando passei a entender alguma coisa da língua de Shakespeare, percebi o quanto aquela afirmação arrogante – que odiei, na época! – tinha lá sua dose de razão. Virei o leme do meu gosto musical para a MPB, com seus geniais letristas. Claro, não deixei de ouvir Mozart, Monk e Pixinguinha, mas a questão da letra me pega firme, quando se trata de canção. Por causa disso, um compositor de melodias medíocres como Bob Dylan se alça à genialidade: o cara é bom com as palavras. E sujeitos como Cole Porter ou Georges Brassens pairam acima do universo, um pouco abaixo de Chico Buarque, Caetano, Gil, Noel, Lamartine, Cartola, Vanzolini, etc.

Mas poucas decepções foram tão viscerais quanto a que tive ontem, ao baixar um velho tango. Na terça-feira de Carnaval, conversando com um velho sábio (meu sogro), descobrimos mais uma paixão em comum (além da filha dele): o filme Perfume de Mulher, tanto no original italiano, Profumo di Donna, com Vittorio Gassman (que foi premiado em Cannes, em 1975, por sua atuação genial), quanto na versão americana com Al Pacino, que devia derreter o Oscar que levou e entregar metade ao italiano.

Claro que Agostina Belli é muito mais charmosa e teve carreira mais digna que Gabrielle Anwar, que desapareceu. Mas nossa questão era a música, não a musa. Voltemos a ela, pois.

Os produtores americanos aproveitaram o fato de que os direitos autorais do tango Por Uma Cabeza (Gardel/ Le Pera) haviam vencido e tascaram no filme. Sem letra, claro. Por que?

O tango fala de corrida de cavalos! Gardel chora porque perdeu uma bela grana “por una cabeza”, e compara isso com sua paixão pelas mulheres. Lá se foi o romantismo… Uma das mais belas melodias da história do tango, com uma letra boçal!

Bem, num país onde todos cantam Mamãe, Eu Quero Mamar, isso não faz muita diferença. Mas, sei lá, perdeu um pouco do clima, pra mim. Corrida de cavalos?!?

Tá aqui a versão original, para quem quiser conferir:

Pra piorar, Alfredo Le Pera, o parceiro de Gardel, letrista de Por Una Cabeza, era brasileiro…

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O pensador radical

Releio, com perverso prazer e certo frio na espinha, as seguintes afirmações:

“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação.”

(Estará o autor falando de um desfile de moda?)

“O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens.”

(Do Big Brother, talvez?)

“O espetáculo é ao mesmo tempo parte da sociedade, a própria sociedade e seu instrumento de unificação. Enquanto parte da sociedade, o espetáculo concentra todo o olhar e toda a consciência. Por ser algo separado, ele é o foco do olhar iludido e da falsa consciência; a unificação que realiza não é outra coisa senão a linguagem oficial da separação generalizada.”

(Da abertura das Olimpíadas?)

Bem, alguns já devem ter reconhecido o estilo radical do francês Guy Debord (1931-1994). Estes aforismos estão na abertura de seu mais famoso texto, A Sociedade do Espetáculo, publicado em 1967. Claro que foi lido avidamente em várias trincheiras de Maio de 68. Um apocalíptico, como diria Eco, ferozmente combatido pelos integrados de plantão.

É espantosa a atualidade de seu pensamento. Perante o mundo contemporâneo, mediado/midiatizado pela televisão, que pauta de forma mesquinha a vida de milhões de pessoas, Debord soa profético.

O texto integral pode ser encontrado aqui. Desconfio de que o filósofo teria muito a nos dizer, ao ver a disputa de poder que se esboça no campo das comunicações, no Brasil. Os donos da mídia amam a sociedade do espetáculo, sobre a qual erigem seus castelos (reais). E muitos dos excluídos da mídia anseiam, no fundo, se tornar parte do espetáculo.

E que diria o velho Guy da política de hoje? De Obama a Chávez, de Lula a Berlusconi, até onde a sociedade do espetáculo contamina  o modo de fazer política? Assistimos, anestesiados, o espetáculo da corrupção nos telejornais: ficção ou realidade?

E uma campanha eleitoral em 2010, afinal, vende propostas ou imagens? Outubro vem aí…

Paulo Vannuchi e os Direitos Humanos

Estive ontem na Casa da Cidade, na Vila Madalena, em São Paulo, ouvindo o ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos. O mesmo que está sendo apedrejado na grande imprensa por causa do PNDH 3, o programa de direitos humanos democraticamente debatido por milhares de pessoas, em diversos fóruns, há mais de dois anos.

Achei que ia encontrar um homem acuado, intransigente, rancoroso. Não é esse o retrato pintado pela mídia? Pois me certifiquei, pela enésima vez, de como a mentira propagada de forma sistemática pelos meios de comunicação manipulados se desmancha, confrontada com a realidade.

Perante uma sala lotada, e sabendo que estava sendo transmitido pela internet, Vanucchi deu uma aula de história, iniciando em 1789. Passou pelo lema “liberdade, igualdade, fraternidade”, comentou como este último termo foi substituído por solidariedade no século XX.  Citou Hannah Arendt, lembrou a fundação da ONU e a  Declaração Universal dos Direitos do Homem, falou do contexto brasileiro.

Mais que isso: destacou, perante uma platéia majoritariamente petista, que os PNDH 1 e 2 foram criados no governo FHC, elogiou José Gregori e Paulo Sérgio Pinheiro, lembrou que Nilmário Miranda, ao assumir o Ministério em 2002 falou em continuidade, reconhecendo um dos  avanços do governo anterior. Apontou as vacilações petistas, falou abertamente do conflito com Stephanes (Agricultura) e Jobim (Defesa),  sempre de forma respeitosa.

O paradoxo: Um monte de energúmenos que na época aplaudiam FHC pelos avanços, hoje atacam o governo Lula e o PNDH 3 porque dá continuidade a uma série de ações que são regra em todo o mundo democrático! Vários países do chamado Primeiro Mundo adotaram medidas duras contra torturadores e mandantes, condenaram  generais e ex-presidentes, ministros e secretários.

Como registrou o insuspeito Fernando Rodrigues, jornalista da Folha de SP, confrontando os textos originais, os termos do PNDH 2  (de 2002!) eram mais contundentes que os do plano atual, que apenas dá continuidade às propostas. Mas… mudam os tempos, mudam as opiniões. Um período pré-eleitoral é perfeito para os oportunistas atacarem tudo o que antes não era alvo preferencial.

E o PNDH 3 não trata apenas de tortura e desaparecidos políticos, embora isto já fosse motivo digno para sua existência. Fala de direitos das mulheres e das minorias (a separação se faz necessária, uma vez que mulher nunca foi minoria). Fala de trabalho escravo e de mediação entre sem-terra e polícia, coisa mais que óbvia, mas que a bancada rural (e a da bala) se recusa a aceitar. Claro, pagar a polícia para bater em sem-terra é muito mais fácil. Solução medieval, que el-rei (ou el-duque, conde, barão) aplaudiria.

Vanucchi conta em detalhes a negociação dos termos finais, o confronto com representantes do Exército, o embate com os mui-amigos ministros. Reconhece e assume erros na condução do processo, não transfere responsabilidades. Postura de homem digno.

A aula do ministro foi gravada e amanhã estará na rede, graças à parceria entre a Casa da Cidade e a ViaTV. Perdi a festa da Alpharrabio, em Santo André, fiz um trabalho voluntário, mas saí de alma lavada.

PS, em 25/02 – A palestra pode ser vista aqui. Recomendo!

Alpharrabio, 18 anos

Há 18 anos, em Santo André, um pequeno sebo-livraria surgiu, prometendo ser um espaço multicultural, comprometido com os movimentos artísticos da região. Era um período de euforia criativa, com o primeiro governo petista oxigenando corações e mentes, fomentando várias e necessárias iniciativas na área da Cultura.

A gestão de Celso Daniel se foi (voltaria em 98), mas a Alpharrabio continuou, mantendo sua independência. Mais que isso: cresceu, virou editora, organizou eventos e cursos, promoveu encontros, se transformou em referência cultural para toda a região do ABCD.

Por acaso, eu estava lá em 1992, na festa de inauguração. Por artes do destino, em 2007 fiz uma série de programas de TV com Dalila Teles Veras, poeta, escritora, agitadora cultural e mentora da Alpharrabio. Conviver de perto com seu entusiasmo e energia me fez sentir que é possível mudar o mundo, começando por sua aldeia.

Nesta segunda-feira, 22 de fevereiro, a Alpharrabio comemora 18 anos. A partir das 19 h, o generoso espaço da rua Eduardo Monteiro, 151, vai ser pequeno para tantos amigos. Vai ter música com Adolar Marin, Fernando Cavallieri, Zé Terra e Renê França, Denise Coelho, Zé Campelo, Rogério Amorim e Grupo Lúmen. Vai ter poesia, com o ator Carlos Lotto.

Por mais uma tramóia do destino, não poderei comparecer à festa da Alpharrabio, nem dar meu abraço pessoal na Dalila e os amigos de Santo André. Na mesma noite, 22/02, vou estar na Casa da Cidade, na Vila Madalena, em São Paulo, gravando o debate do ministro Paulo Vanucchi sobre o PNDH – Plano Nacional dos Direitos Humanos. O evento será transmitido pela Internet (www.viatv.com.br), a partir das 19:30 h.

Quem não puder ir, assista!

Alfinetadas

Algumas expressões surgem de forma inusitada, traduzindo de forma criativa a intenção – geralmente irônica ou jocosa – do emissor. É o caso de alfinetada, que surgiu no mundo da moda há mais de duas décadas, e significa comentário provocativo e crítico, geralmente dirigido a um rival ou concorrente.

Criação oportuna, se adaptou bem ao vocabulário irreverente do segmento. O costureiro Fulano deu alfinetadas em Sicrano, ou seja, cutucou com um instrumento de trabalho, o alfinete. Com o tempo, a expressão passou a ser usada em outras categorias, perdendo a carga semântica original.

Nossa imprensa, cada vez mais pobre de criatividade, adora se lambuzar de lugares comuns. O que foi um dia expressão criativa virou chavão, sinônimo distorcido e empobrecido de “crítica”. É um tal de “Serra alfinetou Lula”, “Dilma alfineta oposição”, “Caetano alfineta jornalista”, “atriz alfineta diretor” e por aí vai.

Hoje li num jornalão paulista a legenda “Secretário geral da FIFA voltou a alfinetar Morumbi”, sob uma foto do estádio. Chegamos ao cúmulo da “idéia fora do lugar”. Será que o velho estádio sentiu as alfinetadas? Não serve nem como metáfora, e só demonstra a pobreza vocabular de nossa encarquilhada imprensa.

Vai Quem Quer, 2010

O inenarrável aconteceu. O que havia se prenunciado no ano passado se confirmou de forma cataclísmica. Ao comemorar 30 anos de existência, o bloco Vai Quem Quer extrapolou todas as previsões e inundou as ruas de Pinheiros e Vila Madalena com um tsunami de foliões.

Criado por jornalistas, universitários e farristas dos entornos da Praça Benedito Calixto, surgiu com a missão de derrubar a ditadura, que já não andava bem das pernas. Com temas políticos e satíricos, cresceu com a titânica tarefa de sair durante os 4 dias de Carnaval, caso único em São Paulo.

Não sou fundador do VQQ. Na época, participava dos primeiros passos da Bantantã. Sei que houve anos mambembes, presenciei saídas brancaleônicas, e acompanhei de dez anos para cá sua trajetória, sambando no asfalto. Um novo público afluiu, mais interessado em paqueras ao ritmo das velhas marchinhas que no samba-enredo politizado.

E, no  sábado de Carnaval deste ano, a pororoca humana bombou. Sem apoio público, sem patrocínios, sem propaganda, sem matérias na imprensa. Que mistério é esse?

Os fundadores se dividem. Há quem ache que, depois disso, “A VQQ acabou”. Há quem veja nesse inchaço algo inexorável, destino histórico. O negócio é relaxar e gozar…

Só acompanhei a saída no primeiro dia. Fiquei até 2 horas da manhã, pulando quilômetros de ruas escuras e mal cuidadas (porra, Kassab!), o que me custou uma torção no tornozelo.

Foi bom reencontrar os amigos. Foi bom sentir novamente saudade da insubstituível Thaís, grande festeira e foliã. Mas fui para Campos do Jordão com uma pontinha de preocupação. Será que o VQQ vai virar um mega-bloco? Estarão os fundadores preparados para lidar com as massas? Fim de ciclo ou apogeu?

(Um fundador e sua herdeira: Sergio e Lira Alli. )

Mamãe, eu quero!

Caio na farra hoje, e só volto quinta feira (quarta é dia de ressaca). Quem quiser me encontrar, pode tentar amanhã na Vai Quem Quer, gloriosa banda que completa 30 anos de sacudida existência.

Repertório clássico, só marchinhas, como a surrealista Alah-la-ô ou a inefável e maliciosa “Mamãe eu Quero”, cuja letra original ninguém canta (te peguei, não?).  Confira com Carmen Miranda:

A marchinha de Jararaca e Vicente Paiva foi cantada até em desenho animado gringo, vejam só:

Mas se você não agüenta mais as velhas marchinhas, proponho um velha-nova. Que tal uma cena com Oscarito e José Lewgoy, no filme  Carnaval Atlântida? Essa eu nunca ouvi no salão…

Mistério: por que certas marchinhas emplacam e outras (tão deliciosas quanto) não? Bem, vocês terão vários carnavais para responder. E a última deste post é uma marchinha política. Quem votou no Lula vai amar, outros vão odiar…

Inté, povo!

“É hoje que eu vou pra farra                                                                            ninguém me agarra, eu vou me acabar…”


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