Êxodos, parte 1

Estou há dias enfiado num trabalho tão difícil quanto fascinante. Imagine traduzir em vídeo o cotidiano, os ensaios, o trabalho de bastidores, a encenação de uma peça de teatro.

“É fácil”, pode dizer um apressadinho. De fato, é fácil fazer o banal, o óbvio, o previsível, a mera reportagem. E se for uma peça convencional, passada num palco italiano, mais fácil ainda.

Mas estou falando do Folias D’Arte, grupo que há mais de dez anos transformou um velho galpão na região central de São Paulo num celeiro de audaciosos experimentos de forma e linguagem.

Desta vez, partiram para um projeto radical. O texto foi desenvolvido pelos próprios atores, a partir da forte impressão causada pelo livro Êxodos, de Sebastião Salgado. No meio do processo, que durou cerca de 18 meses, leituras de Gabriel Garcia Marquez incorporaram outras dimensões à cena.

Como conciliar o realismo trágico de Salgado com o realismo mágico de GGM? Aos poucos, vamos reconhecendo traços nas personagens. Aquela refugiada que insiste em falar da avó morta não é Cândida Erêndira? E aquele velho muito sujo com umas asas enormes? Mas não é velho, é jovem. É ou não é? Começamos a ver o que há de onírico nas imagens do fotógrafo e o que há de realismo nas imagens delirantes do escritor. E os êxodos pessoais afloram no trabalho de cada um. Ser ator também é sair de si, ser outro, sem território. Ou melhor, ocupante do território da imaginação.

O resultado pode ser visto a partir desta quinta-feira, dia 04/02, no Galpão do Folias, em  Êxodos – O Eclipse da Terra. Sete atores em cena, vivendo múltiplos personagens em estado de desequilíbrio, tentando entrar num navio que irá levá-los ao lugar sonhado.

O impacto é impressionante. Um teatro radical, onde as possibilidades cênicas do espaço fazem com que os atores sejam meio mágicos, meio trapezistas, meio cenógrafos, num ambiente que vai sendo modificado pela dinâmica da narrativa.

A equipe de vídeo está registrando os ensaios, fazendo entrevistas e mostrando o processo, que tem se acelerado nos últimos dias. Texto sendo afinado, ansiedade subindo.  Tentamos atrapalhar o menos possível, e contamos com a enorme gentileza de todos, atores, técnicos e o diretor Marco Antonio Rodrigues. Poucas vezes vi um grupo de pessoas tão identificadas com um projeto estético e político, na medida em que fala dos milhões de desterrados que perambulam pelo mundo fugindo da guerra, da fome, dos desastres ambientais, da discriminação.

Espero que a beleza das imagens captadas compense o estorvo que causamos. E recomendo enfaticamente o espetáculo, do qual falarei com mais detalhes nos próximos dias. Acompanhe!

(PS: as fotos de cena são dos bravos companheiros  Tiago, César e Luiz Miyasaka. A última é da Renata Palheiros, nossa produtora de vídeo).

Anúncios

3 Responses to “Êxodos, parte 1”


  1. 1 neuza pinheiro 05/02/2010 às 12:05 am

    ler seus textos é sair dessa mesmice, é carregar o coração ainda quente e andar devagar pra que ele chegue ao seu destino.
    Poxa, quero ver essa peça. ah quero!
    abraço grande, Daniel!

  2. 2 neuza pinheiro 05/02/2010 às 12:07 am

    ah, as fotos são tudo de bom!

  3. 3 Daniel Brazil 05/02/2010 às 12:36 pm

    Ah, vale a pena assistir, Neuza! Um trabalho louco e lindo.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s





%d blogueiros gostam disto: