O pensador radical

Releio, com perverso prazer e certo frio na espinha, as seguintes afirmações:

“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação.”

(Estará o autor falando de um desfile de moda?)

“O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens.”

(Do Big Brother, talvez?)

“O espetáculo é ao mesmo tempo parte da sociedade, a própria sociedade e seu instrumento de unificação. Enquanto parte da sociedade, o espetáculo concentra todo o olhar e toda a consciência. Por ser algo separado, ele é o foco do olhar iludido e da falsa consciência; a unificação que realiza não é outra coisa senão a linguagem oficial da separação generalizada.”

(Da abertura das Olimpíadas?)

Bem, alguns já devem ter reconhecido o estilo radical do francês Guy Debord (1931-1994). Estes aforismos estão na abertura de seu mais famoso texto, A Sociedade do Espetáculo, publicado em 1967. Claro que foi lido avidamente em várias trincheiras de Maio de 68. Um apocalíptico, como diria Eco, ferozmente combatido pelos integrados de plantão.

É espantosa a atualidade de seu pensamento. Perante o mundo contemporâneo, mediado/midiatizado pela televisão, que pauta de forma mesquinha a vida de milhões de pessoas, Debord soa profético.

O texto integral pode ser encontrado aqui. Desconfio de que o filósofo teria muito a nos dizer, ao ver a disputa de poder que se esboça no campo das comunicações, no Brasil. Os donos da mídia amam a sociedade do espetáculo, sobre a qual erigem seus castelos (reais). E muitos dos excluídos da mídia anseiam, no fundo, se tornar parte do espetáculo.

E que diria o velho Guy da política de hoje? De Obama a Chávez, de Lula a Berlusconi, até onde a sociedade do espetáculo contamina  o modo de fazer política? Assistimos, anestesiados, o espetáculo da corrupção nos telejornais: ficção ou realidade?

E uma campanha eleitoral em 2010, afinal, vende propostas ou imagens? Outubro vem aí…

2 Responses to “O pensador radical”


  1. 1 neuza pinheiro 28/02/2010 às 8:01 pm

    grande Debord´
    às vezes sinto um clima de BBB no banheiro de casa,
    juro. Privacidade nunca mais…

  2. 2 Daniel Brazil 01/03/2010 às 12:58 am

    Localização planetária via celular, circuitos privados em todos os locais públicos, circuitos públicos nos privados… Lembra o Big Brother do Orwell, que os participantes do BBB não devem fazer idéia de quem seja…


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