Perfume de Mulher

Certa vez, quando eu era um jovem como você e amava os Beatles e os Rolling Stones, alguém me disse que era bom não entender as letras das canções que eu curtia, pois iria me poupar de muitas decepções.

Depois de algum tempo, quando passei a entender alguma coisa da língua de Shakespeare, percebi o quanto aquela afirmação arrogante – que odiei, na época! – tinha lá sua dose de razão. Virei o leme do meu gosto musical para a MPB, com seus geniais letristas. Claro, não deixei de ouvir Mozart, Monk e Pixinguinha, mas a questão da letra me pega firme, quando se trata de canção. Por causa disso, um compositor de melodias medíocres como Bob Dylan se alça à genialidade: o cara é bom com as palavras. E sujeitos como Cole Porter ou Georges Brassens pairam acima do universo, um pouco abaixo de Chico Buarque, Caetano, Gil, Noel, Lamartine, Cartola, Vanzolini, etc.

Mas poucas decepções foram tão viscerais quanto a que tive ontem, ao baixar um velho tango. Na terça-feira de Carnaval, conversando com um velho sábio (meu sogro), descobrimos mais uma paixão em comum (além da filha dele): o filme Perfume de Mulher, tanto no original italiano, Profumo di Donna, com Vittorio Gassman (que foi premiado em Cannes, em 1975, por sua atuação genial), quanto na versão americana com Al Pacino, que devia derreter o Oscar que levou e entregar metade ao italiano.

Claro que Agostina Belli é muito mais charmosa e teve carreira mais digna que Gabrielle Anwar, que desapareceu. Mas nossa questão era a música, não a musa. Voltemos a ela, pois.

Os produtores americanos aproveitaram o fato de que os direitos autorais do tango Por Uma Cabeza (Gardel/ Le Pera) haviam vencido e tascaram no filme. Sem letra, claro. Por que?

O tango fala de corrida de cavalos! Gardel chora porque perdeu uma bela grana “por una cabeza”, e compara isso com sua paixão pelas mulheres. Lá se foi o romantismo… Uma das mais belas melodias da história do tango, com uma letra boçal!

Bem, num país onde todos cantam Mamãe, Eu Quero Mamar, isso não faz muita diferença. Mas, sei lá, perdeu um pouco do clima, pra mim. Corrida de cavalos?!?

Tá aqui a versão original, para quem quiser conferir:

Pra piorar, Alfredo Le Pera, o parceiro de Gardel, letrista de Por Una Cabeza, era brasileiro…

16 Responses to “Perfume de Mulher”


  1. 1 Iara 27/02/2010 às 8:42 pm

    Daniel, plis!,o Le Pera é o autor da letra de tando mais linda que eu conheço, Cuesta Abajo. Sou fã de carteirinha!

    Si arrastré por este mundo
    la vergüenza de haber sido
    y el dolor de ya no ser,
    bajo el ala del sombrero
    cuántas veces embozada
    una lagrima asomada
    yo no pude contener.

    Si crucé por los caminos
    como un paria que el destino
    se empeñó en deshacer;
    si fui flojo, si fui ciego,
    sólo quiero que comprendan
    el valor que representa
    el coraje de querer.

    Era para mí la vida entera,
    como un sol de primavera,
    mi esperanza y mi pasión.
    Sabía que en el mundo no cabía
    toda la humilde alegría
    de mi pobre corazón.
    Ahora, cuesta abajo en mi rodada,
    las ilusiones pasadas
    ya no las puedo arrancar.
    Sueño con el pasado que añoro,
    el tiempo viejo que lloro
    y que nunca volverá…

    Por seguir tras de sus huellas
    yo bebí incansablemente
    en mi copa de dolor;
    pero nadie comprendía
    que si todo yo lo daba,
    en cada vuelta dejaba
    pedazos de corazón…

    Ahora, triste en la pendiente,
    solitario y ya vencido,
    yo me quiero confesar;
    si aquella boca mentía
    el amor que me ofrecía
    por aquellos ojos brujos
    yo habría dado siempre más…

  2. 2 Iara 27/02/2010 às 8:42 pm

    Letra de tango…;-)

  3. 3 Daniel Brazil 27/02/2010 às 8:50 pm

    O cara era bom, Iara, basta ouvir Soledad ou El Dia Que Me Quieras (além de Cuesta Abajo, claro!). Mas comparar amor com corrida de cavalos parece estranho. Sei lá, deve ser cultural…Corrida de cavalos já foi muito mais popular, não é do meu tempo!

    Beijo!

    • 4 Iara 27/02/2010 às 9:30 pm

      O cara perdeu por una cabeza Daniel! Deve ter apostado o dinheiro do aluguel, imagina o quanto dói isso! ;-);-)
      Beijos!

  4. 5 neuza pinheiro 28/02/2010 às 7:50 pm

    me lembrei de Amelita Baltar cantando
    Balada para un loco
    me lembrei de Amelita Baltar cantando Piazzolla
    Esse tempo chuvoso tá interessante pra ouvir.
    E concordo: Cuesta Abajo é um grande tango
    bj, grande figura!

  5. 6 Daniel Brazil 01/03/2010 às 12:55 am

    Beijo, Neuza! Tempo chuvoso, bolo no forno cheirando pela casa…

  6. 7 Aurea Alves 11/03/2010 às 1:52 am

    Esse arranjo é de lascar!

  7. 8 Daniel Brazil 11/03/2010 às 10:14 am

    Ha ha ha! O do Gardel ou o do Al Pacino?

  8. 9 Fábio Brazil 11/03/2010 às 12:15 pm

    Daniel, entendo pouco de tango para opinar a respeito, quanto às letras da MPB, aprendi a escrever e curtir as palavras por meio delas… é dívida confessa. Mas de sua postagem, quero duvidar que você e o sábio sogro realmente “gostem” do “Perfume” versão americana, PRINCIPALMENTE sabendo que conhecem o original. Tudo bem, Pacino está ótimo, mas o roteiro se americanizou – com carros em velocidade, adequação via complecência, ética protestante escorrendo pela tela e o pior, o “discurso apaziguador” como solução final – mera substituição do trivial murro como solução americana para as questões que não dão conta.
    Já Prefumo di Donna, é outro universo – sem maniqueismos baratos e esgotados. É filme, Gassmam está genial, defendendo sua personagem com suas idiossincrasias humanas – não é uma caricatura cheia de moral por dentro. A personagem do jovem pagem está no seu lugar – diga-se, o nosso – apenas observando e assutado com aquela figura tão intrigante quanto assutadora e sedutora, justamente por ser tão singular, convidando-nos ( nós e o pagem )a nos incomodarmos com a nossa medíocre repetição “modos adequados”. Para mim, a versão americana, rouba isso do roteiro, enterrando Pacino e a personagem num discursão sobre os “modos adequados”, que afinal ele “sempre teve” e aquela aparência de singularidade foi só para nos divertir um pouquinho, não para nos fazer questionar nada.
    Da versão americana, sobram para mim o tango ( um pouco espetaculoso demais e bancado apenas pela tradição americana dos musicais – dois doidos saem dançando divinamente do nada e sem ensaio e todos param e aplaudem como se aquilo fosse natural ou possível) e alguns momentos de Pacino – que já vi melhores.

    Dani, credite um pouco disso tudo à minha admiração por Gassman. Meu amigo, tome cuidado ao falar de Vitorio Gassaman perto de mim ( ele não precisa do meio Oscar do Pacino! ) Brancaleones, A Família e Prefumo di Donna são filmes que se aproveitam da singularidade de Gassman – que é certamente indigesta para o cinema e o público americano.
    Abração! Fábio.

  9. 10 Daniel Brazil 11/03/2010 às 12:52 pm

    Depois de ler este comentário, qualquer pessoa de bom senso deveria correr até a locadora mais próxima e ver o Profumo di Donna original, com o grande Vittorio Gassman!

  10. 11 Edson Porto 08/05/2010 às 12:38 am

    Esse tal de Fábio matou a pau. Fiquei até com vergonha de ter gostado do pastelão americano. rsrsrs.
    Vou ver se acho o Italiano. Alguém tem um link ai?

  11. 12 Isa 09/05/2012 às 1:37 pm

    Assisti ao Perfume de Mulher com Al Pacino, até achei ótimo ele ter levado o oscar, pois já era hora Pacino levar o oscar,mas qdo assisti depois alugado numa locadora a primeira versão de Perfume de Mulher com Vittorio Gasman,além de ter achado infinitamente superior ao Perfume de Mulher com o Pacino, que por sinal tbém foi ótimo e assisti este no cinema;mas recomendo a todos se consegui alugar em alguma locadora que tenha bons acervos,o Perfume de Mulher com Vittorio Gasman, é de deixar o queixo cair,e entender porque os americanos fizeram a versão do tal filme e ficar muito a desejar do primeiro;nem sempre o americano consegue superar.

  12. 13 Érico 23/05/2012 às 2:25 pm

    Camarada, a letra tem tudo a ver com o contexto. A escolha foi certeira. Não se apegue ao sentido literal, mas à poética. À relação do sujeito que conduz toda a vida como um jogo de azar.

  13. 14 Érico 23/05/2012 às 2:31 pm

    Ah, Fábio, a moça que dança com Pacino erra várias e várias vezes. Interpretou bem alguém que não sabia dançar tango. Não é essa dança perfeita, não. Mesmo sem conhecer tango, repare.

  14. 15 Daniel Brazil 23/05/2012 às 4:10 pm

    Já entreguei os pontos, Érico, desde a intervenção da Iara. Mas você somou argumentos. Cada vez mais gosto desse tango!
    E tua observação sobre a atriz é perfeita. Estive em Buenos Aires em janeiro de 2012, e em cada esquina, cada praça, cada boteco, há uma dançarina de tango melhor que ela.

    Abraço,


  1. 1 Perfume de mulher, revisitado « FÓSFORO Trackback em 11/03/2010 às 3:30 pm

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