Arquivo para março \31\UTC 2010

Intolerância religiosa

Um de meu blogs literários preferidos é o Todoprosa. Sérgio Rodrigues, além de escrever muito bem, sabe usar a dose certa de ironia, temperando com acerto as notas e comentários que publica.

Andava o blog meio morno, com poucos participantes na caixa de comentários, quando Sérgio postou anteontem (29/03), um pequeno texto sobre o livro de Philip Pullman, The good man Jesus and the scoundrel Christ. O autor faz uma distinção entre “o bom homem Jesus e o canalha Cristo”, fazendo uma interpretação pessoal de alguns episódios bíblicos. Sérgio traduz um trecho, publicado no The Guardian, onde a Virgem Maria recebe a visita de um anjo e fica grávida. Exatamente como sugerem a Bíblia e centenas de intérpretes através dos séculos (pintores, poetas, cronistas e exegetas). O que Pullman inventou foi um diálogo entre o anjo e Maria, com algumas entrelinhas e subentendidos. Aparentemente, nada do que outros ficcionistas, como José Saramago, não houvessem feito antes.

Mas foi o que bastou para que o Todoprosa bombasse, em plena Semana Santa. Dezenas de mensagens iradas, raivosas e prepotentes. A clássica arrogância fanática que se traduz como “eu sou dono da verdade, e quem pensa diferente deve ser condenado”.  Dezenas de comentários, de gente que nunca apareceu por lá pra falar de Literatura, assunto do blog.

E como escrevem mal! Tem neguinho que afirma conhecer profundamente a Bíblia, defende o original em aramaico, jura que Deus assinou aquilo (sério!), e escreve gato com “J” e sapato com “C”, como diz aquela música do Gordurinha.

Dá a impressão de que há uma brigada de vigilantes cristãos rondando a Internet, procurando os assuntos Religião, Bíblia, Jesus ou Maria. E soltam seus impropérios sem a menor noção de onde estão. Discutir religião num site religioso, vá lá. Deve ser bom, pra quem gosta. Mas entrar xingando num blog literário? Que fala de ficção? Que faz exercícios de imaginação, não de fé?  Os Torquemadas pigmeus não tem senso de noção…

É comum ver esse tipo de gente se horrorizar com os xiitas, os sunitas, os judeus, os adeptos do candomblé, os seguidores do Santo Daime, os “de outra religião”. Será que não enxergam o próprio arbítrio? Em nome de um cristianismo exclusivista e discriminador, atacam violentamente qualquer reinterpretação de seus mitos. São os donos da verdade absoluta. Cegos de tanta luz, acabam defendendo as trevas.

Não sou religioso, mas nunca me preocupei em atacar religiões. Quer acreditar no grande Deus Gambá, problema seu. Só não me chateie tentando me catequizar. Sou capaz de me emocionar na frente de uma Pietá, ouvindo uma missa, um canto afro ou a oração de um mulá. Acho algumas igrejas lindas, assim como templos budistas, mesquitas ou minaretes. Porque diabos (ironia!) um religioso não pode admirar uma obra atéia?

Vivendo num país de maioria cristã, me preocupo cada vez mais com a intolerância manifestada por esses fanáticos da internet. Se vivesse no Iraque, certamente estaria brigando contra os aiatolás. Vivendo no Brasil, combaterei sempre este espírito cristão vingativo, persecutório e anti-cristão (ironia!) que é contra a liberdade de criação, de pensamento, de opinião.

Se o livro de Pulmann é bom ou ruim, isso deve ser avaliado pelos seus méritos literários. Mesmo porque, pelo trecho traduzido pelo Sergio Rodrigues, ele não alterou essencialmente nenhum fato descrito na Bíblia. O anjo foi lá pra aquilo, em vez do José. Não é poético?

Filha da Anistia

Entrei em 2010 disposto a suprir algumas carências culturais detectadas no ano anterior. Ainda estou devendo muito em relação a música, cinema e artes plásticas. Teatro e literatura, até agora, têm sido os segmentos mais bem servidos.

Fui à estréia, ontem, da peça Filha da Anistia. O simpático espaço do Centro Cultural Capobianco, no centro de São Paulo, onde fica o Teatro da Memória, recebeu um público especial. Convidados, muitos ligados ao tema dos direitos humanos e da anistia, viram nas paredes do café uma bela exposição de desenhos e gravuras de ex-presos políticos. Um bom aperitivo para o que estava por vir.

A peça é forte, contundente. Uma jovem advogada, que cresceu no exílio, tenta encontrar o pai. Com indicações de uma carta deixada pela avó antes de morrer chega a um endereço no interior de São Paulo, onde mora um velho recluso.

A partir daí, rolam surpresas. Do diálogo entre eles vão surgindo lampejos. A peça trabalha bem os flash backs, reconstituindo o clima dos anos mais pesados da ditadura. Jovens se revoltando, caindo na luta clandestina, gente desaparecendo para sempre. Tudo isso com apenas 3 atores em cena!

O mais surpreendente é a peça ter sido escrita por uma jovem, Carolina Rodrigues. Ela constrói com muita firmeza uma realidade que só conheceu através de pesquisas. Encarna no palco dois papéis, em épocas diferentes, com uma interpretação emocionada e emocionante.

foto: Vitor Vieira

O (também) jovem Alexandre Piccini se junta ao experiente Hélio Cícero para compor o elenco. Hélio faz a direção, e sorriu quando comparei o texto com Rasga Coração, de Vianinha. Não é fácil colocar a luta política no palco, e a questão da tortura, da ditadura, da censura e dos desaparecidos é ainda pouco explorada. A interpretação de Raul Cortez é referência obrigatória pra quem já passou dos 50 (a peça é de 1979).

Não que o texto de Carolina seja perfeito. Algumas (poucas) falas tendem para um didatismo que prejudica a naturalidade do diálogo. Momentos cenicamente poderosos se alternam com outros aos quais falta uma certa fluidez. Pequenos ajustes que certamente vão se azeitar, no contato direto com a platéia.

Gostei muito dos recursos audiovisuais adicionais, como projeções, trilha sonora e até uma cenográfica TV em preto e branco, que reproduz o discurso de um guerrilheiro arrependido.

Fico aqui pensando por que não é mais explorado, sob todas as formas de expressão artística, esse período tão cinzento de nossa História. Afinal, foram 21 anos de ditadura! Todas as pessoas que conheço adoram ver filmes sobre a Resistência francesa contra o nazismo, sobre o drama dos judeus perseguidos, sobre colônias se libertando do opressor. Está aí Avatar, recordista mundial de bilheteria, para comprovar esse fato.

Falar dos outros é fácil, duro é falar de si próprio. No contexto dos direitos humanos, do direito à memória, à verdade e à justiça, é preciso não acobertar os fatos que ocorreram aqui, em nosso país. Para que não se repita, é preciso jogar luz sobre a História. Muita luz. E é isso que Filha da Anistia faz, com força, talento e senso de oportunidade.

Carlos Núñez e o Brasil

Gosto de música. Tenho curiosidade natural para ouvir novos sons, novos timbres, novas combinações. Estudei um pouquinho  sei soletrar uma partitura, arranho dois ou três instrumentos. Nada profissional, claro.

Tenho uma coleção de discos que incluem várias esquisitices,  de canções folclóricas búlgaras até Frank Zappa, sob pseudônimo, tocando peças renascentistas no sintetizador. De um grupo venezuelano que toca choros brasileiros até o Araçá Azul, do Caetano. De Stockhausen a Zabé da Loca.

Portanto, quando um sujeito chega pra mim falando do último “som genial” que descobriu, é comum se decepcionar com a minha reação. Cada vez mais se repete o mundo, pra quem vai ficando velho. Más sabe el diablo por viejo, que por diablo, diz um velho ditado ibérico.

Mesmo assim, ainda me surpreendo de vez em quando. Ouvi no começo deste ano o CD de Carlos Nuñez, Alborada do Brasil. O cara é um músico galego bem conceituado, com vários discos e shows gravados, que você pode conferir no You Tube.

Pois Nuñez passeou por aqui, se encantou com a música nativa, participou de rodas de choro na Lapa e gravou um disco surpreendente. Imagine aquela sonoridade celta típica, com flautas de madeira e gaitas de foles, aplicada sobre um choro do Pixinguinha. Ou uma canção de Milton, ou um forró de Sivuca. Bem, não adianta explicar… Só ouvindo!

Um crepúsculo de domingo

Tem coisa mais kitsch que foto de por de sol? No entanto, o espetáculo mais velho do planeta, que ocorre há milhões de anos, continua sendo um sucesso total, em qualquer lugar.

Certa vez, ajudei a organizar uma exposição de fotos no Banco do Brasil. Depois de pensar muito num tema em que a maior parte das pessoas pudesse participar, optamos pelo por do sol.  E o público votava na mais original, a mais cartão-postal, a mais alaranjada…

Já publiquei foto de por do sol aqui. Hoje, arrumando os arquivos, topei com estas, feita em Alter do Chão, no Pará. O sol, na verdade, ficou meio encoberto. Este oceano é o  rio Tapajós. Ali estão as mais belas praias de água doce que conheci. Bateu uma saudade…

Praça Elis Regina, Butantã

Hoje vou falar de minha aldeia. Ou melhor, do meu bairro, o Butantã. E convidar os amigos para o evento que vai rolar amanhã, 20/03, na Praça Elis Regina em comemoração ao aniversário da grande cantora, que completaria 65 anos nesta semana.

O povo do Butantã não é só de festa! É de briga, também. Há tempos vem lutando pela preservação do bairro, principalmente das suas áreas verdes, praças e parques. O ato é também um manifesto contra a Operação Urbana da Vila Sônia-Butantã que prevê, entre outras barbaridades, destruir a praça para a construção de uma avenida e a abertura de um túnel sob o Parque da Previdência. Mais carros, mais congestionamento, menos verde, mais poluição, e ameaça à qualidade de vida de milhares de pessoas.

Participam do ato vários artistas. Teremos um cardápio musical variado, com Dinho Nascimento, Adler São Luís, Tião Carvalho, Cláudia Canto, Thiago Magno, Léo Dumont, Fábio Abramo, Grupo Femina Arte, Regina Tieko, Rogério Salatini e algumas canjas especiais.  Vai ter discotecagem com LPs,  a cargo do Raoni, da B12S.S. Presença também da escritora Regina Echeverria, biógrafa de Elis Regina, e do grafiteiro e muralista Eduardo Kobra, que vai pintar painel em homenagem à cantora.

A partir das 14 h  tem sarau, oficinas de desenho em fotografia, feira de trocas. O evento, promovido pelos moradores do Butantã, tem o apoio do Bar Santo Remédio, da Associação de Educadores da USP – AEUSP, d’O Autor na Praça (grande Edson Lima!) e da Comissão de Ocupação Cultural e Comunicação do  Butantã Pode!

Hitler na redação da Veja

A decadente revista Veja é conhecida pelas reporcagens que faz atacando o governo Lula de forma histérica e desonesta. Chegou a tal ponto que perdeu a credibilidade, pois a manipulação de fatos é tão grande que a direita mais civilizada tem vergonha de citá-la. Não que o governo do PT seja santo, longe disso! Há um monte de críticas duras que podem (e devem) ser feitas, mas descambar para a calúnia e o desrespeito só faz baixar o nível moral dos responsáveis pelo hebdomanário.

Na edição desta semana, que folheei na sala de espera da dentista, deparei com uma materiazinha sobre o sucesso que as paródias do filme A Queda – Os Últimos Dias de Hitler (2004), de Oliver Hirschbiegel, tem feito na internet. O próprio diretor já contabilizou mais de 150.

Claro que até uma bobagem como essa é motivo pra provocar. E está lá, segundo a revista, uma sátira de Lula e seu governo como um dos mais vistos. Só esqueceram de avisar o incauto jornalista que a gozação feita com a própria  revista Veja é mais engraçada e bem feita. E a prova de que dica da in-Veja tem cada vez menos importância: este faz mais sucesso. É riso garantido!

A opção da grande mídia

– Bombardeio pesado contra o governo Lula, nos jornalões. Parece que foi combinado no tal encontro do Instituto Millenium, do qual participaram luminares da direita. Partiram para o tudo ou nada, ou como diz o articulista Mauro Carrara, desencadearam a operação “Tempestade no Cerrado”. Vale a pena ler, aqui.

– A tática é desencavar velhos processos e denúncias, que não progrediram pelas vias legais. A cada vez mais panfletária (in)Veja recicla depoimento de 2005 de notório bandido (envolvido no mensalão do DEM, mas isso a revista não diz), e dá trela a denúncias do procurador Blat, que a própria Justiça desautorizou. E, claro, a “reporcagem” não procurou ouvir o principal acusado, João Vaccari.

– O mais engraçado (ou trágico, do ponto de vista da democracia) é que a Assembléia Legislativa de SP finalmente aprovou uma CPI, para investigar o caso Bancoop. Ué, mas isso é da esfera pública? Não, não é. Mas cumpre interesses políticos. Já os vários pedidos de CPI do Rodoanel, da Segurança, da Educação, dos desvios de verba do Metrô, foram todos negados, nos últimos anos.

– Há alguns dias, Lula foi atacado de todas as formas por visitar um país que “não respeita os direitos humanos, que dificulta o acesso à informação, que mantém presos políticos incomunicáveis”. Hoje Lula está em outro país, que além de tudo escrito acima, mantém um arsenal nuclear, ocupa ilegalmente territórios vizinhos e pratica guerra de extermínio a outro povo. Repararam na diferença de tratamento nos editoriais?

– As fotos da greve dos professores de SP primaram pela manipulação. Planos fechados, pouca gente, algumas faixas de reivindicação salarial. No site da APEOESP, fotos mostram um mar de gente entupindo a Paulista, um bonecão enorme do Serra-vampiro, dezenas de faixas com diversos protestos. É sempre bom ver os dois lados, viva a Internet!

– O Estadão mudou de cara, está mais bonito. Só precisa modernizar o conteúdo. Para ser coerente, deveria ser impresso com páginas amareladas. A sessão de cartas é um retrato perfeito do tipo de gente que edita o vetusto diário. Publica-se qualquer mentira ou ofensa, desde que seja atacando Lula, Dilma ou o PT. “Ah, mas é a opinião do leitor, né?”  Só rindo…

– Realmente, faria bem pro Lula ter críticos mais isentos e sérios. E faria bem pro Serra ter apoiadores menos comprometidos. E faria muito bem para o Brasil ter uma imprensa decente!