Glauco

Certo dia lá de trás (1979, pra ser exato), estudante, precisando de uma grana, rabisquei um cartum e enviei para o Salão Mackenzie de Humor. Nem estudava lá, mas o tal salão era aberto a qualquer cidadão brasileiro. A ditadura ainda imperava, mas dava nítidos sinais de decadência.

No júri estava o Henfil que, pra minha sorte, se encantou com meus rabiscos. Quem depois me contou foi o Gualberto, organizador da encrenca. Teve exposição dos selecionados no MIS – Museu da Imagem e do Som – de São Paulo e, para minha surpresa, fui premiado. Tava lá, entre os três primeiros!

Junto comigo, um magrelo cabeludo e narigudo chamado Glauco. O cara já era premiado no Salão de Piracicaba, onde nasceu, e andava com uma pasta de desenhos debaixo do braço. Tomamos algumas cervejas, comemoramos a premiação, e começamos a batalhar pra receber a grana. Nem lembro direito, mas algo como 2 ou 3 mil reais, em moeda atual. Coisa suficiente pra pagar o aluguel de um semestre, na época.

Não foi fácil. O Mackenzie não liberou a grana prevista, o Centro Acadêmico Horácio Lane enrolou um bom tempo, e depois de uns dois meses abriram a lojinha e disseram pra pegar o valor em material. Enchemos a mão de lapiseiras, nanquim, blocos de papel Canson, lápis de cor, essas coisas. Ficamos no prejuízo, claro.

Depois, descobri que morávamos no mesmo bairro, o Butantã. Estive na casa do Glauco, na Waldemar Ferreira, e ele acabou ficando com parte do material que eu havia recebido. Percebi que era muito melhor que eu, e passei tudo o que tinha sem remorso. O cara era dono de um traço caligráfico, anárquico, com bonecos “abertos”, soltinhos. E tinha um humor desconcertante!

Me convidou pra uma sessão do Santo Daime, recusei polidamente. Jamais consegui entender a atração que as pessoas têm por esse tipo de viagem. Desde então, acompanhei sua carreira à distância, e por muitos anos iniciei a leitura da Folha de SP pelos quadrinhos. Glauco, Laerte e Angeli, os três paulistas pós-Pasquim que viraram a mesa do humor gráfico brasileiro na década de 80. Quando parei de assinar e ler o decadente matutino, ano passado, senti falta de poucos. Glauco era um deles.

Glauco Villas-Boas morreu hoje pelas mãos de um desequilibrado, membro da igreja que fundou. Há anos não nos encontrávamos. Mas vou sentir a falta de Geraldão, Geraldinho, Dona Marta, Zé do Apocalipse… E para quem criticava uma suposta “alienação”, pergunto: quer coisa mais atual, subversiva e reveladora da violência policial contemporânea que o personagem Faquinha?

Anúncios

6 Responses to “Glauco”


  1. 1 neuza pinheiro 13/03/2010 às 3:21 pm

    alterações de consciência, Daniel
    sair de si procurando…
    quando não encontra, retorna.
    Tudo vazio
    Melhor estar aqui, cultivando.
    é o mundo que temos…o único…
    abraço grande, desse Spirituals

  2. 2 Penélope Martins 14/03/2010 às 10:20 pm

    Daniel: o texto não é diferente de todos os outros que são lidos neste site: informação regada ao sensível bom gosto. Pena que eu tenha oferecido um comentário sobre este assunto… a ruptura da vida de um grande artista, que pode se superar tantas vezes em sua arte mas que, tragicamente, foi envenenado pelo subterfúgio que ele mesmo criou para fugir de si mesmo.

    Parabéns por seu trabalho.
    Abraço,
    Penélope

  3. 3 Daniel Brazil 15/03/2010 às 10:40 am

    Obrigado pelos comentários, meninas. Esta semana foi difícil de superar.
    Lembrei muito do plebiscito de alguns anos, quando a maioria (alguns em insana consciência, outros manipulados), defenderam a liberação de armas. De lá pra cá, a violência só fez aumentar. Talvez isso tenha sido decisivo para a morte de Glauco…

    • 4 helion 15/03/2010 às 7:04 pm

      Daniel, enfim alguém fala algo sobre a arma. Até já postei isso no Nassif:

      É impressionante a força do lobby dos armamentos. Busca-se todo tipo de relação entre a religião do Daime e os distúrbios psíquicos, sugerindo que ela atrairia pessoas perturbadas ou despertaria comportamentos destrutivos nelas. Pode ser verdade sim, mas fico pasmo de nenhuma reportagem que li, até agora, ter levantando a questão banal de como o assassino poderia estar armado. Como uma pessoa obviamente perigosa e perturbada adquiriu ou obteve uma arma de fogo? Sem ela, o desfecho poderia ter sido apenas uma discussão ou uma agressão física muito menos grave, já que o objetivo inicial, aparentemente, não era o assassinato. Mas não: a associação preferida é com a religião praticada pelo Glauco.

  4. 5 Daniel Brazil 15/03/2010 às 10:32 pm

    Perfeito, Helion. Quem defende posse de arma, defende a violência. E quem defende o uso de drogas, defende traficante.
    (Claro, não estou falando do Daime, que tem um uso cultural, e que – até onde eu sei – não é vendido pelo narcotráfico.)

  5. 6 Penélope Martins 16/03/2010 às 11:34 am

    Só pra constar, a ignorância é a causa de todo o sofrimento humano. A violência física é talvez sua manifestação “visível” mais cruel. Mas há certamente violência implícita em todos os outros pontos das fatalidades. Crueldade disfarçada… Talvez a própria religião seja um ícone neste assunto. A questão é que, qualquer elaboração intelectual, por melhor que seja, não restaura o que se perdeu.

    Temos sempre o agora como um novo início. O passado foi.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s





%d blogueiros gostam disto: