Filha da Anistia

Entrei em 2010 disposto a suprir algumas carências culturais detectadas no ano anterior. Ainda estou devendo muito em relação a música, cinema e artes plásticas. Teatro e literatura, até agora, têm sido os segmentos mais bem servidos.

Fui à estréia, ontem, da peça Filha da Anistia. O simpático espaço do Centro Cultural Capobianco, no centro de São Paulo, onde fica o Teatro da Memória, recebeu um público especial. Convidados, muitos ligados ao tema dos direitos humanos e da anistia, viram nas paredes do café uma bela exposição de desenhos e gravuras de ex-presos políticos. Um bom aperitivo para o que estava por vir.

A peça é forte, contundente. Uma jovem advogada, que cresceu no exílio, tenta encontrar o pai. Com indicações de uma carta deixada pela avó antes de morrer chega a um endereço no interior de São Paulo, onde mora um velho recluso.

A partir daí, rolam surpresas. Do diálogo entre eles vão surgindo lampejos. A peça trabalha bem os flash backs, reconstituindo o clima dos anos mais pesados da ditadura. Jovens se revoltando, caindo na luta clandestina, gente desaparecendo para sempre. Tudo isso com apenas 3 atores em cena!

O mais surpreendente é a peça ter sido escrita por uma jovem, Carolina Rodrigues. Ela constrói com muita firmeza uma realidade que só conheceu através de pesquisas. Encarna no palco dois papéis, em épocas diferentes, com uma interpretação emocionada e emocionante.

foto: Vitor Vieira

O (também) jovem Alexandre Piccini se junta ao experiente Hélio Cícero para compor o elenco. Hélio faz a direção, e sorriu quando comparei o texto com Rasga Coração, de Vianinha. Não é fácil colocar a luta política no palco, e a questão da tortura, da ditadura, da censura e dos desaparecidos é ainda pouco explorada. A interpretação de Raul Cortez é referência obrigatória pra quem já passou dos 50 (a peça é de 1979).

Não que o texto de Carolina seja perfeito. Algumas (poucas) falas tendem para um didatismo que prejudica a naturalidade do diálogo. Momentos cenicamente poderosos se alternam com outros aos quais falta uma certa fluidez. Pequenos ajustes que certamente vão se azeitar, no contato direto com a platéia.

Gostei muito dos recursos audiovisuais adicionais, como projeções, trilha sonora e até uma cenográfica TV em preto e branco, que reproduz o discurso de um guerrilheiro arrependido.

Fico aqui pensando por que não é mais explorado, sob todas as formas de expressão artística, esse período tão cinzento de nossa História. Afinal, foram 21 anos de ditadura! Todas as pessoas que conheço adoram ver filmes sobre a Resistência francesa contra o nazismo, sobre o drama dos judeus perseguidos, sobre colônias se libertando do opressor. Está aí Avatar, recordista mundial de bilheteria, para comprovar esse fato.

Falar dos outros é fácil, duro é falar de si próprio. No contexto dos direitos humanos, do direito à memória, à verdade e à justiça, é preciso não acobertar os fatos que ocorreram aqui, em nosso país. Para que não se repita, é preciso jogar luz sobre a História. Muita luz. E é isso que Filha da Anistia faz, com força, talento e senso de oportunidade.

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2 Responses to “Filha da Anistia”


  1. 1 dalila teles veras 26/03/2010 às 11:25 pm

    Caro Daniel,
    Pertenço a um grupo que, vivendo sob a ditadura militar no Brasil, acreditou, tão logo a democracia estabelecida, surgiriam, aos borbotões,obras artísticas (na literatura, no teatro, no cinema, etc.)sobre aquela época obscura de nossa história, obras que a censura, no nosso entendimento, teria impedido de circular. Para surpresa desse grupo, nada disso ocorreu (ou quase nada – ressalvadas as honrosas exceções). Estávamos nós anestesiados?. Mas, e depois da anestesia? não nos ocorreu (re)ver esse passado tão recente, ferida que ainda sangra? Os nossos vizinhos argentinos fizeram/fazem melhor,cutucam o tempo todo a ferida de forma delicada mas, ao mesmo tempo, impertinente, em especial em sua filmografia (os desmandos, o autoritarismo está sempre ali, ainda que de forma oblíqua, vistos de soslaio).
    Aqui e ali, como neste caso tão bem focado por você, vamos nós cutucando… Forma de refletir para não esquecer.
    abraço da leitora
    dalila teles veras

  2. 2 Daniel Brazil 27/03/2010 às 3:41 pm

    Perfeito comentário, Dalila! Compartilho do mesmo sentimento. Vi inclusive, com pesar, que muito artista que se dizia “censurado”, sumiu do mapa depois que acabou a censura. Ou seja, tem gente que vendia o peixe que não tinha pra entregar…
    Quanto à comparação com a Argentina, arrisco uma comparação estatística. Lá houve 30 mil desaparecidos durante a ditadura, aqui cerca de 300. Mais pessoas foram afetadas diretamente.
    (Sei que isso é meio estúpido, porque não preciso perder um braço ou um filho numa guerra pra ser contra guerras. Mas a humanidade é meio assim, só reage quando o próprio calo aperta…)


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