Arquivo para março \15\UTC 2010



El Quijote, o vídeo

Quem acompanha o Fósforo deve lembrar das peripécias que envolveram a montagem da peça El Quijote, em São Paulo, por um elenco de 70 atores de 10 países latino americanos. Foi em setembro/outubro de 2009.

Pois nesse domingo retornamos ao Ventre de Lona, palco e sede do grupo teatral Pombas Urbanas, na Cidade Tiradentes. O motivo era exibir para a comunidade o documentário que realizamos mostrando os bastidores, os ensaios e os depoimentos dos envolvidos. E todos aplaudiram as belas imagens captadas pelo César Zanetti, da ViaTV, parceiro nesta empreitada.

Não é fácil lidar com um vídeo bilíngue. Fizemos legendas de mão dupla, hispano-portuguesas e vide versa, para que o trabalho possa circular nos países hermanos. Mais que isso: Transmitimos ao vivo, pela internet, a cerimônia de lançamento e a festa feita pelo pessoal do Pombas.

E teve roda, música, dança, projeção em tela gigante e leitura de mensagem a todos os Quijotes e Sanchos da América Latina.

Foi bonita a festa, pá! Em breve, o vídeo estará disponível na rede, aguardem.

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Glauco

Certo dia lá de trás (1979, pra ser exato), estudante, precisando de uma grana, rabisquei um cartum e enviei para o Salão Mackenzie de Humor. Nem estudava lá, mas o tal salão era aberto a qualquer cidadão brasileiro. A ditadura ainda imperava, mas dava nítidos sinais de decadência.

No júri estava o Henfil que, pra minha sorte, se encantou com meus rabiscos. Quem depois me contou foi o Gualberto, organizador da encrenca. Teve exposição dos selecionados no MIS – Museu da Imagem e do Som – de São Paulo e, para minha surpresa, fui premiado. Tava lá, entre os três primeiros!

Junto comigo, um magrelo cabeludo e narigudo chamado Glauco. O cara já era premiado no Salão de Piracicaba, onde nasceu, e andava com uma pasta de desenhos debaixo do braço. Tomamos algumas cervejas, comemoramos a premiação, e começamos a batalhar pra receber a grana. Nem lembro direito, mas algo como 2 ou 3 mil reais, em moeda atual. Coisa suficiente pra pagar o aluguel de um semestre, na época.

Não foi fácil. O Mackenzie não liberou a grana prevista, o Centro Acadêmico Horácio Lane enrolou um bom tempo, e depois de uns dois meses abriram a lojinha e disseram pra pegar o valor em material. Enchemos a mão de lapiseiras, nanquim, blocos de papel Canson, lápis de cor, essas coisas. Ficamos no prejuízo, claro.

Depois, descobri que morávamos no mesmo bairro, o Butantã. Estive na casa do Glauco, na Waldemar Ferreira, e ele acabou ficando com parte do material que eu havia recebido. Percebi que era muito melhor que eu, e passei tudo o que tinha sem remorso. O cara era dono de um traço caligráfico, anárquico, com bonecos “abertos”, soltinhos. E tinha um humor desconcertante!

Me convidou pra uma sessão do Santo Daime, recusei polidamente. Jamais consegui entender a atração que as pessoas têm por esse tipo de viagem. Desde então, acompanhei sua carreira à distância, e por muitos anos iniciei a leitura da Folha de SP pelos quadrinhos. Glauco, Laerte e Angeli, os três paulistas pós-Pasquim que viraram a mesa do humor gráfico brasileiro na década de 80. Quando parei de assinar e ler o decadente matutino, ano passado, senti falta de poucos. Glauco era um deles.

Glauco Villas-Boas morreu hoje pelas mãos de um desequilibrado, membro da igreja que fundou. Há anos não nos encontrávamos. Mas vou sentir a falta de Geraldão, Geraldinho, Dona Marta, Zé do Apocalipse… E para quem criticava uma suposta “alienação”, pergunto: quer coisa mais atual, subversiva e reveladora da violência policial contemporânea que o personagem Faquinha?

Perfume de mulher, revisitado

A maioria das pessoas entendeu, mas ainda tem um ou outro que me pergunta, de vez em quando, por que eu escolhi um fósforo para ilustrar e nomear meu blog.

A intenção era, e é até hoje, acender rastilhos, provocar discussões, explosões criativas e interativas. Em três anos, o Fósforo modestamente acendeu alguns pavios, abrindo discussóes que ganharam a rede (ou já estavam nela, meio adormecidos).

Mas poucas vezes fiquei tão orgulhoso quanto hoje, ao ler o comentário feito por Fábio Brazil ao Perfume de Mulher, postado há alguns dias. O homem chegou com um arsenal de argumentos demolidores, fazendo uma crítica rigorosa da refilmagem americana, estrelada por Al Pacino. De quebra, delineia com precisão a fantástica interpretação de Vittorio Gassman no original italiano.

Taí. Meu modesto palito de fósforo provocou uma quantidade de luz que jamais faria sozinho. Confira!

Êxodos – um aperitivo!

Vivi intensamente, durante janeiro e fevereiro, os dias que antecederam a estréia da peça Êxodos – O Eclipse da Terra, do grupo teatral Folias D’Arte. Vivo agora o dilema de colocar, na  ilha de edição, toda a carga dramática e emotiva que os atores transmitem, de quinta a domingo, no Galpão do Folias. Não só no espetáculo, mas também nos ensaios, nas conversas, nos bastidores.

O trabalho do pessoal da VIATV vai virar um DVD e um programa de televisão. Enquanto a coisa se desenrola, fiquem com o trailer (Ou teaser. Ou melhor, aperitivo!) da peça. Bom fim de semana!

Marina e a ilha

Equilibrada e digna a posição de Marina Silva sobre a polêmica envolvendo Cuba, que motivou ataques hidrófobos de boa parte da imprensa brasileira. Disse ela, em sua coluna na Folha de SP de 01 de março:

“Os recentes acontecimentos em Cuba, com a morte de um dissidente após prolongada greve de fome, trazem de novo à tona duas posturas opostas.

A que se sente constrangida, mas não tem coragem de fazer a necessária crítica política ao regime, com base no compromisso com a observância dos direitos humanos, do direito à informação e da liberdade de expressão e opinião. E a que se aproveita da ocasião para, como faz sempre, desqualificar totalmente Cuba, desconsiderando o marco histórico continental e global que foi a rebelião vitoriosa, em meados dos anos 50 do século passado, contra o jugo corrupto e brutal de Fulgêncio Batista, exercido com o beneplácito dos Estados Unidos.”

Marina cita as conquistas do povo cubano nas áreas de saúde e educação, comparando com o resto da América Latina. Avanços, aliás, conseguidos apesar do bloqueio comercial e econômico mantido pelos EUA, desde 1962. Onde o Grande Irmão do Norte apoiou e fez governos, morrem crianças de desnutrição e grassa o analfabetismo…

Ao mesmo tempo em que pede o fim do vergonhoso bloqueio, Marina cobra postura firme da esquerda em relação à democracia, liberdade e justiça social em Cuba.

É a mesma coisa, de lado a lado. Os inimigos de Cuba se calam sobre Guantánamo, o cantinho da ilha onde os EUA torturam seus inimigos. Os amigos de Cuba se calam sobre o cerceamento da opinião e dos direitos humanos no país. Já passou da hora da esquerda democrática mundial discutir a sério a questão cubana, cobrando mudanças de rumos para que as conquistas sejam preservadas. Isso inclui a esquerda brasileira, claro!

Nesse ano de campanha eleitoral, onde a guerra suja feita pela grande imprensa se soma às calúnias divulgadas pela internet, não é fácil encontrar o ponto de equilíbrio. Mas é preciso buscar, sempre. Em nome “da beleza, da verdade e da justiça”, como dizia aquele angustiado personagem de Glauber Rocha. Era 1967 (Terra Em Transe), mas continua atual.

Carrasqueira no rádio

Todos cantam seus amigos, também vou cantar os meus!

Estréia hoje, na rádio Cultura de São Paulo (FM 103.3) o programa A Magia da Flauta, apresentada por Antonio Carlos Carrasqueira.

Um dos melhores instrumentistas brasileiros, Toninho transita com malemolência entre o popular e o erudito. Bom de sopro e de bola, encanta a galera no campo do choro e faz  jogadas clássicas na música de concerto. Aberto a todos os sons da melhor música do planeta, promete mostrar da flauta de bambu à eletrônica. Da Amazônia ao Japão. De Bach a Pixinguinha.

Olha só a ficha do cara, que puxei do site da Rádio Cultura: “Iniciou sua carreira internacional como camerista e solista da Orquestra de Câmara de Heidelberg, Alemanha. Recebeu vários prêmios, como a Medalha de Ouro do Conservatório de Versalhes e a Licence de Concert da École Normale de Musique de Paris. Começou a tocar em agremiações musicais aos 18 anos e até hoje é presença constante como solista na Orquestra de Câmara de Rouen, na Jazz Sinfônica de São Paulo, na Camerata Fukuda e no “The Tokio All Flute Orquestra”. É membro do Quinteto Villa-Lobos.”

Mais que isso: Toninho, além de ser uma pessoa incrível, marca presença nos bares do Butantã, participando das rodas de choro e saraus que fazemos há alguns anos, entre amigos do peito. Nesta foto, feita no saudoso Jajabar, o mestre mostrava ao pessoal da Sociedade do Choro como se toca Naquele Tempo, do Pixinguinha…

Quem gosta de flauta e de boa música, pode ligar na Rádio Cultura, todas as quartas, às 20 horas. Música de gente grande!


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