Diálogo democrático num bar

– Assinei o projeto de lei que proíbe a candidatura de políticos com a ficha suja.

– Humm…

– Ué, só “humm…”? Achei que ia aplaudir.

– Quem é classificado como “ficha suja”?

– Ué, todo aquele que já foi condenado em algum processo com intenção dolosa. Ou seja, com intenção de burlar ou violar a lei.

– Beleza. Se a justiça fosse bela.

– Como assim?

– Imagine um sindicalista qualquer.

– Tá.

– Rural, pra ser mais charmoso. Um canavieiro, por exemplo.

– E daí?

– o cara começa a se destacar como liderança. Preocupa o senhor de engenho.

– Pô, não vivemos mais na época dos senhores de engenho!

– Ah, é? As usinas de açúcar não têm mais dono? Foram estatizadas?

– Estamos em 2010! As usinas têm sócios, acionistas, são controladas por sociedades anônimas!

– Vejo que você não conhece o interior do Nordeste! Mas, vamos lá, suponhamos que você esteja certo. O tal líder desponta, defendendo os direitos dos cortadores de cana. É bem capaz do sujeito se candidatar o ano que vem e virar vereador, deputado…

– Um direito legítimo. Se tiver a ficha limpa, não haverá problema. Onde está a questão?

– Ah, “se tiver a ficha limpa”. Muito bem. Então eu agora sou um coronel, dono de engenho, ou acionista majoritário, como você diz. Penso: “Esse cara vai me causar encrencas, preciso impedir processos trabalhistas e a queda dos lucros no ano que vem!”

– E…?

– Dou uma graninha pro advogado, pro delegado, pro juiz de Xiririca da Serra que é meu compadre, e tasco um processo no infeliz. Roubou três galinhas. Ou deixou de pagar pensão pra ex-mulher, o que é bem provável, já que ganha 300 reais por mês.

– Você é muito maquiavélico.

– E a política brasileira não é? O nosso presidente foi condenado e preso. Não seria eleito, pela lei da ficha suja.

– Isso é absurdo! Você está sofismando, e defendendo a impunidade.

– Não há um pingo de defesa da impunidade no que eu disse. Estou chamando a atenção para um detalhe que pode ser desastroso, no futuro.

– Mas com essa lei, muita gente ruim vai ficar de fora das eleições.

– É verdade. Mas muita gente boa vai deixar de participar das eleições. Devemos penalizar os bons por causa dos maus?

– E devemos premiar os maus por causa dos bons?

– O prêmio já está aí, meu caro. Veja o Congresso Nacional. O sistema premia esses caras.

– Então…?

– Humm…

– De novo?

– “Então” é a pergunta mais difícil do mundo. Mas que tal uma lei que obrigue a divulgar, por todos os meios, os processos do candidato? Causa e autor do processo.

– Hã?

– Sai no jornal, fica disponível na internet. O candidato Chiquinho de tal, canavieiro, foi processado por baderna pelo coronel Guerra, acionista majoritário da usina tal.

– Humm…

– Agora é você que vem com humm…?

– Quem no engenho lê jornal ou tem internet?

– Um lê, outro acessa, e a notícia se espalha. A garotada não sai da lan  house, no Nordeste. De noite tem fila!

– Pra videogame e orkut, na certa. Você acha que a juventude se liga em política?

– Humm…

– Humm pra você também. Garçom, mais uma cerveja!

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8 Responses to “Diálogo democrático num bar”


  1. 1 helion 07/04/2010 às 9:48 am

    Daniel, você formulou exatamente o que me preocupa no projeto. Como princípio, é inatacável. Mas temo que o pessoal “sujo” – que é quem tem os melhores advogados, me parece – arranje rapidamente um jeito para “sujar” seus adversários e se “limpar” com eficiência. Muita gente pode ser impedida de concorrer às eleições, mesmo por processos que sabidamente não darão em nada.

    Mas a verdade é que, no quadro da Justiça (?) que temos atualmente, onde advogado atua principalmente para buscar brecha na lei, realmente não sei qual seria a alternativa.

  2. 3 Hugo Brasil 07/04/2010 às 9:34 pm

    Não li a integra da lei.

    Falha minha.

    Mas esse é o grande perigo.

    Espero que a lei tenha previsto tal consequencia.

    (posto que não a li)

    Para o Chico das Coves, como para o Chicão dos Flats.

    Ser denunciado, impedido de candidatar-se, e depois de passadas as eleições, o acusador simplesmente tirar o processo com a alegação de que “enganou-se” seria um absurdo.

    Pelo que sei, e repito não li o projeto, portanto posso estar errado, seria apenas para aqueles que já tiveram seus processos transitados, julgados e condenados sem apelação.

    Vou ler e retornar.

    • 4 Carmen 07/04/2010 às 11:06 pm

      Bem, eu não assinei. Conscientemente.
      Na primeira versão da lei, bastava a existência de um processo. Muita gente protestou, ficou óbvio o absurdo, mudaram pra “condenado”. Duvido que seja apenas quando o processo “tansitou em julgado”, ou seja, não há mais possibilidade de apelação. Isso normalmente leva anos…
      A direita – que sempre se locupletou no estado, impunemente e em geral anônimamente também, consguiu, com a colaboração da esquerda, diga-se de passagem, empunhar a bandeira da moralidade.

      Melhorar o legislativo – algo fundamental -, pra mim, só com voto consciente. Projetos como “ficha limpa”, “voto em lista”, etc. e tal pecam, na minha modesta opinião, por esse erro fundamental: já que o povo é burro e inconsciente, vamos nós “resolver” na canetada… por eles. Não vai funcionar.
      Nós temos, com nosso voto, que banir determinadas figuras da vida pública. ´Difícil? Pode ser. Mas pra mim não tem outra saída…

      PS: Daniel, adorei o texto!!!!

  3. 5 Daniel Brazil 07/04/2010 às 11:35 pm

    Huuuummmmm!!!!

  4. 6 dalila teles veras 09/04/2010 às 12:41 am

    Huuuummm!!! Sei não! Que arapuca! Não é que esses papos democráticos de bar (Ágora destilada?)são mesmo poderosos, no sentido da… huuummm! Vou pensar. De uma coisa estou certa: Carmem tem razão, vamos banir certas figuras da cena política, consciente e urgentemente. Faxina feita, pensemos na segunda etapa.
    abraço e parabéns pela belíssima peça (literária? quem sabe?).
    dalila teles veras

  5. 7 Ruggero 17/05/2010 às 5:32 pm

    Você viu esta postagem do RS Urgente, deste final de semana?
    Acho interessante: http://digi.to/OWFC0
    Depois me conta…
    Abs

  6. 8 Daniel Brazil 17/05/2010 às 7:23 pm

    Fortes argumentos, Ruggero!


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