Langsdorff e Macunaíma

Passeio pela bela exposição do CCBB de São Paulo, que mostra o material produzido pela Expedição Langsdorff. A caravana de artistas e cientistas, patrocinada pelo império russo pelo interior do Brasil, percorreu 17 mil km entre 1821 e 1829. Estão ali as belíssimas aquarelas de Rugendas, os desenhos preciosos de Taunay e Hercules Florence – ele mesmo, o pai da fotografia! – e os mapas detalhados de Rubstov, que pela primeira vez estão sendo vistos no Brasil.

Um vídeo, realizado pela tataraneta de Florence, refaz o percurso, subindo os rios Tietê e Paraná e chegando até a Amazônia. Incrível como algumas localidades parecem iguais, até hoje! E algumas transformações são terríveis, impactantes.

Lá pelas tantas, cruzo com um grupo de estudantes secundaristas, aparentando entre 14 e 16 anos. A monitora do CCBB, esforçada, procura fazer analogias entre os desenhos que retratam tipos indígenas e referências mais atuais. De repente, pergunta:

– Quem aí já ouviu falar de Macunaíma?

Silêncio.

– Macunaíma, gente! Essa palavra não lembra nada, pra vocês?

Alguns risinhos abafados.

– E Mário de Andrade, já ouviram falar?

Alguns acenam positivamente com a cabeça.

– O que ele fez?

Silêncio total.

Me afastei, meio deprimido. Ainda ouvi a monitora dizer “gente, vocês precisam ler mais, isso aí vai cair no vestibular”, em tom paciente.

Paciência que já não tenho. Aqueles eram estudantes da rede pública do estado mais rico da federação. Quantas gerações foram perdidas com o abandono do ensino básico neste país? Quantos governos foram omissos, coniventes, criminosos mesmo? Privar milhões de jovens de uma boa educação não é crime de lesa-pátria? Pois devia ser!

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2 Responses to “Langsdorff e Macunaíma”


  1. 1 neuzza pinheiro 02/05/2010 às 8:44 pm

    sim, Daniel, deveria, deveria…
    há algum tempo eu pesquisava sobre poesia numa biblioteca e presenciei a seguinte cena: uma coordenadora de cursos de formação de professores, vendo o livro de Alberto Martins sob o título “Cais” , exclamou, embevecida: “oh! Encontrei o heterônimo do Fernando Pessoa! Preciso levá-lo para conhecimento dos professores do curso de literatura!”
    Pasme…
    crime duplo de lesa-pátria

  2. 2 Daniel Brazil 03/05/2010 às 1:14 pm

    É gente assim que costuma colocar o livro Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque de Holanda, na prateleira de Botânica…


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