O nome da rua

– Onde você mora?

Esta pergunta, em São Paulo, pode ocasionar respostas estimulantes. Ou embaraçosas.

– Eu moro na Cantiga do Amor.

– Ah, que pena! Eu moro na Cantiga do Desencontro.

Mas a pessoa pode morar na Travessa da Amizade, no Jaçanã. Ou na Coração Confiante, em Itaquera. Bom mesmo deve ser morar na travessa Grande Amor, no Campo Limpo.

Imagine se ela (ou ele) responder:

– Pequeno Romance.

E ele (ou ela):

–  Poema nos Olhos…

Uma fica na Cidade Tiradentes. Outra, no Parque Raposo Tavares. Zona Leste e Zona Oeste. Relação difícil, quase impossível. Duas horas de busão.

Tem muito nome sugestivo, romântico, geralmente em bairros bem pouco românticos: Rua Poema e Trova (V. Jacuí), Amor Cigano (Iguatemi), Tributo ao Sorriso (Itaquera), Rua do Carinho (Cid. Tiradentes), Murmúrios da Tarde (José Bonifácio), Saudade Triste (V. Jacuí), Rua dos Ventos do Amor (Parelheiros)…

É possível terminar na rua Final Feliz, no Capão Redondo. Ou na travessa Sonho Lindo, no Iguatemi, lá na Zona Leste. Aliás, o Jardim Iguatemi, perifa braba, é o campeão no quesito “nomes de rua sonhadores”: Sonho de Um Carnaval, Sonho por Sonho, Sonho e Saudade, Último Desejo, Noite Cheia de Estrelas, Soprando ao Vento, Três Pingos Dágua, Ternura Antiga, Pegadas na Areia. Humildes travessas em morros cheios de casinhas sem reboco. Como você já notou, são nomes de velhas canções. Até o bolero Sabor a Mi foi traduzido por Sabor de Mim, e virou travessa.

Ruas com nome de música, há várias. Cantiga da Chuva, no Itaim Paulista. Ou Última Cantiga, na Ponte Rasa. Amor de Índio pode ser localizada no Parque José Bonifácio. Saveiros, no Capão Redondo. Chão de Estrelas, no Grajaú, lá na Zona Sul. Roda Pião, em Sapopemba. Cantiga Ingênua fica no Sacomã (achava que era nome de um super-herói escroto, quando moleque). Conto de Areia, sucesso de Clara Nunes, fica na Cidade Tiradentes. Canto da Volta, no Jaguaré. Ou será que isso indica o último retorno, e não música?

E tem as genéricas: Cancioneiro de Évora, Cancioneiro Popular, e até Cancioneiro Chinês, que fica no Jardim Ângela. Sons Musicais fica em Parelheiros, e Valsa Chorosa, no Grajaú. Episódio Musical, também na Cidade Tiradentes, lá nas quebradas. Canto de Ninar (Aricanduva), Canto Bonito, da Pérola, da Noite, da Tarde, da Vida, da Serra, do Brasileiro…

Música é sempre uma boa inspiração. E não só a popular! Tem a Cravo Bem Temperado, no Grajaú. Concerto Italiano, no Jardim São Luis. Conhece a rua Flauta Mágica, em São Mateus? E a das Flautas Transversais, no J. Ângela? Tem também a travessa Flauta Encantada, na Barra Funda, onde os moradores devem torcer para que não seja a de Hamelin…

Literatura também tem vez, nessa megalópole. Na rua Capitu todo candidato a Bentinho fica com a pulga atrás da orelha. Rua Três Episódios dá um certo ar de suspense. Minha favorita é a avenida dos Apólogos Orientais, no Capão Redondo. Que nome chique! Mas há quem prefira as ruas Conto Popular, na Vila Andrade ou Contos Azuis, no Morumbi. E tem Contos Amazônicos , Gauchescos, Fluminenses… A rua Romanceiro fica na Cidade Dutra, e a Cinza das Horas, no Parque do Carmo. Ah, se Manuel Bandeira estivesse vivo!

Parece ser um truque imobiliário dar nomes atraentes para lugares inóspitos, distantes e sem recursos. Já estive num Vale das Flores que era uma pedreira só, no estado do Rio. Ou numa Vila Paraíso que era uma sucursal do inferno.  Talvez por isso, os bairros mais periféricos de São Paulo concentrem nomes como Poemas Murais e Poemas de Natal, ambos em Cidade Ademar. Travessa Rosa Perfumada, no Parque São Rafael. Ou Folha Cheirosa, no Capão Redondo.

Mas você pode se surpreender com nomes estranhos, estrambóticos, imprevisíveis. Aqui mesmo, perto de onde moro, no Butantã, tem a rua Coronel Camisão. Uma pequena vila sem saída que ali existe é chamada (informalmente) pelos vizinhos de “coronel Camisinha”. Um pouco mais adiante, encostada na USP, uma travessa da Corifeu tem o constrangedor nome de Rua Pangaré…

Mas o Jardim Iguatemi ganha. A travessa Nave Mãe é minha favorita. Ou a travessa Somos Todos Iguais. Que, por sinal, fica bem longe da Av. dos Direitos Humanos (Mandaqui, na Zona Norte).

E tem Navio Perdido (Cid. Ademar) e Rio Perdido (Saúde). Eternas Ondas, em Itaquera, e Marinha das Ondas, no Jd. S. Luís, bairros que nunca viram a cor do mar. Miragem fica na Água Rasa. Triângulo Austral, no Itaim Paulista. Punhado de Cores, no Parque do Carmo, disputando com a Cores Vivas (Itaquera) e a Rosa Mil Cores (Grajaú).

Gosto do nome Diálogo dos Ecos, que fica em Guaianases. Imagino algo, sei lá, meio cavernoso. A rua Manhã de Estio, na V. Jacuí, não deve ter problema de enchentes. Já a da Tempestade, na Vila Medeiros… Pra contrabalançar, existe a rua da Calma, no Capão Redondo, bairro não muito calmo. Ou a Temperança, no Jaçanã.

Rua com nome de bicho tem em todo lugar. O bairro de Moema tem várias com nome de passarinho. Mas é ambíguo o nome Pássaro de Fogo, na Penha. Será homenagem a Stravinsky? A mesma Penha também ostenta o Pássaro Sol, enquanto a vila Cachoeirinha tem o Pássaro da Paz. A travessa Choro da Juriti fica – coerentemente – no bairro das Perdizes. O Grajaú apresenta a Rua das Araras Amarelas, espécie desconhecida pela ciência. Já o Capão Redondo tem Aves ao Vento…

E os peixes, então? O poeta Murilo Mendes iria adorar: Peixe Boi, Peixe Lua, Peixe Galo, Peixe Vivo, e até a rua Apanha Peixe, que fica em Artur Alvim. Há quem prefira espécies voláteis, como a Borboleta Amarela, lá no Jardim Helena.

Não parece aconchegante morar na rua Coração Maternal, na Vila Brasilândia? Vá ver de perto pra sentir a barra! Existe a Ilha dos Moleques, no Itaim Paulista. A travessa Cana Cheirosa, no Tremembé. Irmãos Índios (Capão Redondo) e Coração de Bugre (Pirituba). Coração da Cidade não fica no centro, mas lá em José Bonifácio. Bela Brisa, na V. Matilde. Regresso Feliz, na Cidade Tiradentes.

Já pensou o que é viver na rua Teorema, na Vila Jacuí? E na Epifania, no Campo Grande? Outro dia soube que a rua Chão de Poeira, em Itaquera, está asfaltada. Incoerência da prefeitura. E a Amarelinhas, na Vila Curuçá, será patrocinada por um fabricante de pilhas?  Melhor ficar com o conformismo buarquiano da rua Noite e Dia.

Tá longo este post? Pequenininho perto da imensidão de São Paulo. Tem muita rua com nome curioso esparramada no mapa da cidade. E olha que eu nem comecei a falar em nome de gente…

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6 Responses to “O nome da rua”


  1. 1 dalila teles veras 19/04/2010 às 12:48 am

    Olá, caro Daniel
    Que delícia de pesquisa! Que maravilha esta crônica urbana. A megalópele e as surpresas de seus escaninhos… fascinante! Lembrei de Riobaldo, indignado pela mudança dos nomes das ruas e das cidades sertanejas: ” O senhor concorda? Nome de lugar onde alguém já nasceu, devia de estar sagrado”. Sabemos, no entanto, que nem sempre é assim. Na calada da noite, um político qualquer, resolve dar o nome do avô ou de algum parente próximo e anônimo a uma dessas maravilhas. Já imaginou, por exemplo, a travessa Cana Cheirosa, mudar para qualquer coisa…de sobrenome Maluf (vade retro!)? Aqui em Santo André, onde resido há 40 anos, morei por 16 na Rua da Fonte (a fonte e o riacho que passava ao lado hoje estão canalizados) no Jardim Bela Vista (há nomes mais bucólicos?). Cheguei a dedicar um poema a essa rua, vista do 8º andar. Se amanhã alguém resolver mudar o nome daquela rua (ou, pior, do bairro), estando eu viva ainda, farei muito barulho, garanto.
    parabéns e o abraço da leitora
    dalila teles veras

  2. 2 Daniel Brazil 19/04/2010 às 1:25 am

    Rua da Fonte é lindo. No bairro do Rio Pequeno, perto do Butantã, tem a Estrada das Cachoeiras. Já percorri de ponta a ponta, só pra me decepcionar. Estão todas canalizadas…
    Resta o nome. Numa curiosa inversão bíblica, podemos dizer que antes a coisa existia. Hoje, é só Verbo.

  3. 3 Penélope Martins 20/04/2010 às 11:48 am

    Daniel: não tinha pensado no guia de ruas como inspiração poética. Foi maravilhoso lê-lo no dia de hoje e fazer as pazes com a urbanidade! Excelente! Beijo da também leitora, Penélope Martins

    • 4 Daniel Brazil 20/04/2010 às 12:41 pm

      É bom morar numa cidade que permite esses lampejos, Penélope. A aniversariante Brasília, com endereços como W3 ou SQ-4S, não foi feita para essas viagens…
      Beijo!

  4. 5 Sérgio 31/05/2010 às 1:45 pm

    Oi Daniel,
    Adorei o texto! Foi a Flor, sua filha, quem me passou o link do seu blog. Ela trabalhou comigo e ao ler seu texto se lembrou de um projeto de série de Tv que eu tenho chamado “Ruas do Rio”, que é em cima da idéia dos nomes das ruas, ou melhor, da personalidade das ruas, que se inicia com seu nome certamente. E sua abordagem vai bem de encontro ao meu projeto. Qualquer dia podemos conversar a respeito. Moro no Rio,e tenho escritório na Glória.
    Um abraço,
    Sérgio

  5. 6 Daniel Brazil 31/05/2010 às 2:35 pm

    Beleza, Sérgio!
    É ótima a idéia da série, há ruas com histórias incríveis. Ainda mais no Rio, cenário histórico.
    Em breve farei uma visita à Flor, e podemos conversar.

    Abraço!


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