Arquivo para abril \10\UTC 2010



Uma certa Beatriz

Pra adoçar esta semana tão amarga, ouça esta versão da linda Beatriz, de Chico & Edu Lobo, com o sotaque português da surpreendente Maria João, acompanhada pelo piano de Mario Laginha.

Aliás, surpreendente mesmo é o vídeo e a coragem dos dois em gravar desse jeito!

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Os que se espojam na lama

É muito difícil escrever algo perante a tragédia. As mortes causadas pelos desabamentos no Rio de Janeiro e Niterói deveriam fazer com que as pessoas refletissem, após superar o estupor inicial. Os sentimentos de fraternidade e solidariedade deveriam ser os primeiros a aflorar.

Mas basta uma passada pelas caixas de comentários dos principais noticiários da rede para ver o ódio insensato sendo esbravejado por gente que não tem coragem nem de assinar o nome. Sobra uma mistura de ignorância com má fé, onde qualquer desculpa serve para atacar o alvo da vez. Vamos atacar o Lula? Não importa se a responsabilidade primeira sobre a ocupação do solo é dos municípios. Agem como aquele imbecil que, na primeira página de um jornalão de São Paulo, acusou Lula de assassino pelo acidente do avião da TAM, no dia seguinte à tragédia.

Fácil, né? Mau caráter existe pra isso. É só arrumar um pseudônimo qualquer, geralmente tosco, e sair pela internet xingando e acusando, sem o menor escrúpulo. Se espojam na lama que desce dos morros soterrando centenas de pessoas. Se Lula fosse presidente do Chile, seria culpado pelo terremoto, pela ótica deles.

Vamos lá, quem é inocente nessa história? Gostaria de, pelo menos uma vez, encontrar um desses energúmenos e perguntar a ele se os políticos em quem vota são santinhos inocentes. Se nos estados onde outros partidos governam não há ninguém morando em locais de risco. Qual o miraculoso projeto apresentado, capaz de eliminar as favelas nos morros nesse país?

A impressão que tenho é que esse tipo asqueroso de gente, quando escolhe um candidato ao governo, enlameia a imagem do sujeito. É por ter se alinhado com essa laia que Serra  perdeu em 2002 e Alckmin em 2006. E Lula certamente perde votos por se aliar a tipos muito parecidos com essa escória. Defender o ministro Geddel incondicionalmente, em vez de cobrá-lo, é uma piada de péssimo gosto. Ao ver a diferença de repasses de verba de prevenção entre a Bahia e o Rio, a demissão deveria ser sumária. Sua popularidade bateria nos 90%.

Faz falta nesse país uma oposição séria, consistente e capaz de respeitar os momentos de dor. E também capaz de exigir, com firmeza, as ações necessárias para que tragédias como essa não se repitam. Cobrando e dando exemplos de boa governança. Mas, cadê?

Diálogo democrático num bar

– Assinei o projeto de lei que proíbe a candidatura de políticos com a ficha suja.

– Humm…

– Ué, só “humm…”? Achei que ia aplaudir.

– Quem é classificado como “ficha suja”?

– Ué, todo aquele que já foi condenado em algum processo com intenção dolosa. Ou seja, com intenção de burlar ou violar a lei.

– Beleza. Se a justiça fosse bela.

– Como assim?

– Imagine um sindicalista qualquer.

– Tá.

– Rural, pra ser mais charmoso. Um canavieiro, por exemplo.

– E daí?

– o cara começa a se destacar como liderança. Preocupa o senhor de engenho.

– Pô, não vivemos mais na época dos senhores de engenho!

– Ah, é? As usinas de açúcar não têm mais dono? Foram estatizadas?

– Estamos em 2010! As usinas têm sócios, acionistas, são controladas por sociedades anônimas!

– Vejo que você não conhece o interior do Nordeste! Mas, vamos lá, suponhamos que você esteja certo. O tal líder desponta, defendendo os direitos dos cortadores de cana. É bem capaz do sujeito se candidatar o ano que vem e virar vereador, deputado…

– Um direito legítimo. Se tiver a ficha limpa, não haverá problema. Onde está a questão?

– Ah, “se tiver a ficha limpa”. Muito bem. Então eu agora sou um coronel, dono de engenho, ou acionista majoritário, como você diz. Penso: “Esse cara vai me causar encrencas, preciso impedir processos trabalhistas e a queda dos lucros no ano que vem!”

– E…?

– Dou uma graninha pro advogado, pro delegado, pro juiz de Xiririca da Serra que é meu compadre, e tasco um processo no infeliz. Roubou três galinhas. Ou deixou de pagar pensão pra ex-mulher, o que é bem provável, já que ganha 300 reais por mês.

– Você é muito maquiavélico.

– E a política brasileira não é? O nosso presidente foi condenado e preso. Não seria eleito, pela lei da ficha suja.

– Isso é absurdo! Você está sofismando, e defendendo a impunidade.

– Não há um pingo de defesa da impunidade no que eu disse. Estou chamando a atenção para um detalhe que pode ser desastroso, no futuro.

– Mas com essa lei, muita gente ruim vai ficar de fora das eleições.

– É verdade. Mas muita gente boa vai deixar de participar das eleições. Devemos penalizar os bons por causa dos maus?

– E devemos premiar os maus por causa dos bons?

– O prêmio já está aí, meu caro. Veja o Congresso Nacional. O sistema premia esses caras.

– Então…?

– Humm…

– De novo?

– “Então” é a pergunta mais difícil do mundo. Mas que tal uma lei que obrigue a divulgar, por todos os meios, os processos do candidato? Causa e autor do processo.

– Hã?

– Sai no jornal, fica disponível na internet. O candidato Chiquinho de tal, canavieiro, foi processado por baderna pelo coronel Guerra, acionista majoritário da usina tal.

– Humm…

– Agora é você que vem com humm…?

– Quem no engenho lê jornal ou tem internet?

– Um lê, outro acessa, e a notícia se espalha. A garotada não sai da lan  house, no Nordeste. De noite tem fila!

– Pra videogame e orkut, na certa. Você acha que a juventude se liga em política?

– Humm…

– Humm pra você também. Garçom, mais uma cerveja!

Glauber e a música

Mexendo nas prateleiras, tropeço no volume Glauber Rocha, Esse Vulcão, de João Carlos Teixeira Gomes. Uma edição de 1997, da Nova Fronteira. Calhamaço com mais de 600 páginas, caudaloso como o personagem retratado. Vou levar pra minha filha, que é amiga da família Rocha, quando for visitá-la no Rio, semana que vem.

Folheando ao acaso, deparei com uma frase interessante, sobre música. “Muito mais do que nos livros, é na música popular brasileira que se encontra a verdadeira história e a verdadeira sociologia do Brasil”. Exagero? Bem, Glauber foi exagerado em tudo que fez, e se não fosse não seria Glauber. Como ele dizia, “A arte tem que ter pretensão. Artista modesto não é artista”.

A relação de Glauber com a música sempre me interessou. Lembro que havia na casa de meu pai o LP com a trilha sonora de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Quando vi o filme, já grandinho, sabia de cor as letras de Glauber, musicadas por Sérgio Ricardo. Aquilo soava para mim como uma ópera selvagem e delirante, com direito a intervenções de Villa-Lobos. Fascinante!

Todos conhecem os versos do diálogo cantado “- Se entrega, Corisco! – Eu não me entrego, não! Eu não sou passarinho, pra viver lá na prisão…” A parceria, infelizmente, não se repetiu. Fico imaginando que genial letrista o Brasil perdeu. Vou até escrever um artigo sobre Glauber para a Revista Música Brasileira.  Enquanto isso, fiquem com mais algumas reflexões musicais glauberianas:

– Mozart me revelou Deus.

– Ah, Brasil, de ti vem o óleo da melodia barroca que me alimenta…

– Vamos deixar de lado a Revolução Francesa e a Soviética, para descobrir a feijoada, o carnaval, o frevo. Nossa cultura é a macumba, não a ópera.

– O surrealismo para os povos latino-americanos é o tropicalismo.

– Nós não temos tempo de temer a morte. (frase musicada pelos tropicalistas)

– Como dizia Shakespeare, a história é um tango.

Filha da Anistia – um aperitivo

Está na rede o trailer da peça, que estreou no Teatro da Memória semana passada. O texto de Carolina Rodrigues – que também atua – toca na questão dos desaparecidos políticos durante a ditadura militar. Gravamos a estréia com apenas uma câmera e a captação de áudio é precária, mas dá pra sentir a força da encenação. Bom espetáculo!


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