O encontro quase trágico de Roosevelt e Rondon

Um gênero literário que sempre me atraiu, além da ficção, são os relatos de exploradores e aventureiros. Claro que isso tem origem lá na adolescência, onde saltava das aventuras de personagens reais para os fictícios sem preocupações hierárquicas. Marco Pólo, Robinson Crusoé, Tarzan, Phileas Fogg, Alexandre, Capitão Hatteras, Napoleão, Beau Geste, Gulliver, Peri e Ceci (tirando a parte melosa), Moby Dick, Colombo, Ulisses…

O gosto pela fantasia de aventura ganhou contornos mais maduros com Conrad, Hemingway e Buzzati. Colocar homens em situações-limite de resistência física e mental virou mote de várias obras marcantes na literatura mundial.

Um dos livros mais impressionantes que li foi o relato da desastrada expedição de Scott para conquistar o Pólo Sul (Os Aniversariantes, Cia. das Letras, 1996). Baseada nos diários deixados pelos integrantes da expedição, a inglesa Beryl Bainbridge traça um assustador retrato da obsessão pela glória, assim como do comportamento dos indivíduos sob pressão extrema.

Todo esse preâmbulo é pra falar do esplêndido O Rio da Dúvida, de Candice Millard, que acabo de ler. A jornalista americana, redatora da National Geographic, pesquisou profundamente e colocou no papel, como se fosse um romance de aventura, a história da expedição encetada por Theodore Roosevelt na selva amazônica, na ilustre companhia do coronel Rondon, em 1914.

Roosevelt já havia sido presidente dos EUA por duas vezes. Rompido com o Partido Republicano, e disposto a colocar seu nome na história também como descobridor, se mandou para o Brasil de forma atabalhoada, bancando uma funesta excursão pelos 640 quilômetros de um rio que ainda era uma interrogação no mapa.

Por sorte, topou com um herói pela frente: Rondon. Os dois homens mantiveram o respeito e a admiração mútua mesmo após comerem o pão que Tupã amassou, no meio da selva.

Poucas vezes vi a floresta amazônica ser descrita com tamanha veracidade. A monstruosa massa verde cambiante, onde raríssimos animais podem ser vistos a olho nu, é minuciosamente dissecada por Millard com detalhes botânicos, entomológicos e antropológicos. O capítulo em que descreve a tribo dos cinta-larga é um belo exemplo de parêntesis descritivo. Mesmo sabendo que os exploradores nunca tiveram um contato real com eles, quando as canoas se afastam dos olhares da tribo sabemos mais sobre os índios que qualquer um da expedição, inclusive Rondon.

A autora coloca em patamar de igualdade brasileiros e gringos, percebendo que havia ali um grupo de homens especiais. Baseou-se em intensa pesquisa, documentada e anotada com rigor. Veio ao Brasil, conversou com netos e bisnetos de Rondon, Roosevelt e outros integrantes da expedição. Só escorrega ao repetir que os irmãos Wright inventaram o avião…

A tradução de José Geraldo Couto é quase perfeita, e somente um índio ou seringueiro da região pode fazer algum reparo (eu, com um pouquinho de sangue índio, trocaria duas ou três palavrinhas). E, mais que tudo, voltei aos tempos de adolescente: que aventura! Que selva! Que bando de loucos! Que livro!

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