O Segredo dos Seus Olhos

Deixei a poeira baixar, em relação aos filmes premiados pelo Oscar, este ano. O favorito das apostas, Avatar, acabou frustrado. É uma fábula plana, sem muita profundidade, com momentos visuais maravilhosos, que já entraram para a história do cinema. Sua mensagem anti-belicista pareceu ser anti-americana.

Será? Pode ser, devido à época em que vivemos, mas também poderia ser, de acordo com a História, contra os romanos, os ingleses, os espanhóis, todos os conquistadores sanguinários. Aliás, existe conquistador pacífico? O grande vencedor, Guerra ao Terror, mereceu dura crítica do Luiz Bolognesi, quando os fogos de artifício ainda pipocavam.

Confesso que não sou fã de filmes de guerra, por princípio. Ver gente matando gente não é pra mim fonte de prazer, por mais simbólico, catártico ou metafórico que possa parecer. Esse é mais um filme que fica na fila de espera, aquela do “quem sabe um dia…”. O mais interessante, pra mim, é ter sido dirigido por uma mulher.

Mas assisti, semana passada, o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, O Segredo dos Seus Olhos. Belo filme, bela história, bem contada, bem interpretada. O diretor Juan José Campanella trabalha há vários anos nos EUA, dirigiu séries como Law & Order, e tem um jeito de filmar bem americano (veja o início do trailer, com aquele plongée de entrada no tribunal), mas sua alma continua argentina. Há ali uma visão política rara de encontrar em cineastas ianques.

E fiquei pensando numa provocação do meu amigo Dino Vicente, que traduz o pensamento de um monte de gente por aqui: Por que os filmes brasileiros não são bons como os argentinos?

É claro que o que chega aqui da produção argentina é muito pouco, só a nata. Daí serem bons, obviamente. Acredito até que tem bastante filme bom que nem entra em cartaz em São Paulo. Um espectador médio de Buenos Aires que só tenha visto três premiados filmes brasileiros deve achar que aqui se faz muita coisa boa…

Alguns dos melhores filmes que vi nesta década foram brasileiros. Nem vou comparar a área documental, pela qual tenho muito carinho, por que aí é covardia. Filmes como Estamira, Santiago ou Janela da Alma têm momentos sublimes, inclassificáveis. Inventam novos espaços, criam uma nova linguagem.

Na ficção, a produção do Brasil é bem maior. Aí, tem de tudo: muita coisa ruim, coisas medíocres, coisas boas. A grosso modo, há um leque temático maior por aqui, há experimentos diversificados em vários sentidos. A geografia maior coloca na tela uma diversidade de cenários e contextos que tornam difícil qualquer comparação.  Podemos comparar, por aproximação, o cinema gaúcho com o cinema argentino, que tal? Ambos têm filmes muito interessantes!

Os cineastas brasileiros mais inventivos tentam fugir do padrão roliudiano (como, aliás, os cineastas americanos mais inventivos também tentam fazer). Tecnicamente, não há grandes diferenças. A fotografia argentina é mais clássica, a brasileira mais nervosa, experimental. Quando é clássica, sabe ser correta. Ambos têm pouca verba, claro, e isso se nota em produções mais ambiciosas.

Os roteiros… ah, os roteiros! Histórico ponto fraco das produções comerciais brasileiras. Claro que falo dos filmes feitos para encher salas, não os de Bressane ou Glauber Rocha, que se medem por outra régua. Mas o que me chamou a atenção no filme de Campanella foi a perfeita integração de gêneros, sem ficar preso aos modelos.

Podemos dizer que é um filme policial. Há um crime mal resolvido, que será solucionado no final de modo surpreendente. Dizem que é melhor que o livro original, de Eduardo Sacheri (que desenvolveu o roteiro com o diretor). A trama, bem amarrada, não se limita ao básico. Mergulha fundo na alma do protagonista, mostrando as suas inseguranças e incapacidade de lidar com a mulher por quem se apaixona. Há um pano de fundo tenebroso, mostrando a sordidez de um período em que o governo argentino recrutava assassinos nos presídios para servir aos interesses escusos do poder. Estão presentes os eternos temas de obsessão, de idéia fixa, de justiça, de amor eterno.

Há um punhado de atores excelentes, que valoriza cada plano. Ricardo Darín é bom, mas o que ilumina a tela é a esplêndida interpretação de Soledad Villamil. Principalmente, não há cenas sobrando, não há diálogos inúteis, a tensão é bem conduzida, os picos dramáticos se alternam e se resolvem de forma coesa. Poucos filmes brasileiros são assim. Poucos filmes americanos são assim. Poucos filmes mundiais são assim (volto a lembrar, estou falando do mainstream, não do cinema experimental).

Há ótimos roteiristas no Brasil. Pena que a maioria não esteja fazendo este tipo de cinema. Alguns, aliás, não fazem nenhum tipo de cinema…

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1 Response to “O Segredo dos Seus Olhos”


  1. 1 Valdecy 12/06/2010 às 11:45 am

    Visitem o blog
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