Arquivo de junho \26\UTC 2010

Na feira livre

Feira de sábado, no Butantã.  O feirante anuncia a promoção, no meio do burburinho:

– Olha aí, freguesia! Compre um maracujá e leve mais quatro frutas!

A moça pára o carrinho, entre divertida e desconfiada, pergunta:

– Se eu comprar, posso escolher as outras frutas?

– Não, senhorita. Quem escolhe sou eu. Vai levar uma bacia? Tá bonito o maracujá, olha só…

– Mas cadê as outras frutas?

– Veja bem, dentro do maracujá tem mais quatro frutas. É vitamina que não acaba mais!

A essa altura, além da moça, eu e mais cinco pessoas já esperavam a resposta, atentas. Ela olhou prum lado, pro outro, e desistiu.

– Tá bom, quais são as frutas?

– Olha aqui escrito, ma-ra-cu-já. Aí dentro tem cajá, caju, jaca e juá! Pode levar, são só três reais a bacia.

Desconfio que um feirante como aquele inspirou muito poeta concretista. Levei uma bacia, claro.

* * *

Outra feira, dominical, perto da Praça da Árvore, em São Paulo.

– Olha o chuchu, madame! Tá barato, tá gostoso, e tem vitamina A, B e C!

Estranhei o excesso de vitaminas. “Lá vem bobagem”, pensei. O vendedor soltou logo a piada:

– A, B e C: água, bagaço e casca!

Uma anti-propaganda. Coitado do chuchu, tão singelo, e humilhado desse jeito! Sou fã de chuchu. Em suflê fica ótimo, refogadinho com camarão é uma maravilha, como cantava Carmen Miranda.

* * *

Lembrei de um livro do Tinhorão (Os Sons Que Vêm da Rua, 1976) em que ele trata os pregões como uma forma espontânea de arte popular. Cita vários exemplos, pinçados das crônicas de época. Será que alguém já se dispôs a registrar os chistes, motes e trocadilhos dos feirantes?

Futebol e música

Eu jurei que não iria falar de futebol, aqui no Fósforo. Não que não goste. Joguei muito tempo, marquei meus golzinhos, ainda assisto alguns jogos. A Copa está até ficando interessante! Tem japonês fazendo gol de placa, campeão voltando pra casa e americano demolindo a supremacia wasp do rúgbi e do baseball.

Mas como não agüento muita gente dizendo a mesma coisa o tempo todo, resolvi falar de outras coisas. Música, por exemplo.

Semana passada entrevistei dois caras muito interessantes. Um é o Raul, do Coletivo Digital, uma ONG que trabalha com inclusão digital e software livre. Outro é o Evandro Camperom, jovem e talentoso compositor que lançou no ano passado seu primeiro CD, Algazarra. Não resisti, e acabei pedindo que ele tocasse uma música chamada Dupla de Ataque, um sacudido samba de amor, onde o futebol entra de forma inusitada, misturando épocas, mitos e desejos. Confira a segunda parte da  letra:

(…)

” Portanto venha piano

Costurando o meio campo

Venha ademirdaguiando

Correndo pelos flancos

A retranca do mal amar

E aí, você e eu

No rumo certo

Entortando o adverso

Romário e Bebeto

Peito aberto ao que vier

Diego e Robinho, Didi e Mané.

Dou-te um calcanhar socrático

E um Rivelino elástico

O que melhor lhe aprouver

Pra conquistar teu carinho

Eu topo até ser Coutinho

Deixo você ser Pelé.”

Ah, quer ouvir inteira? Ali, na Nauweb, no Canto da Sirene. Espie!


Saramago

“E se a leitura dos contos infantis forem obrigatórias para adultos? Seríamos capazes de aprender o que há tanto tempo vimos ensinando?”

As sacadas de Žižek

Slavoj Žižek é um sujeito engraçado. Badalado analista de cultura, que adora falar de cinema, afirma que prefere o espectador ingênuo que assiste Matrix e diz “Puxa, então não existe realidade!”, do que “leituras intelectualistas pseudossofisticadas que projetam no filme filosofias refinadas ou distinções conceituais psicanalíticas”.

Bem, quem lê a coletânea de ensaios Lacrimae Rerum, publicada em 2006 e traduzida em 2009 pela Boitempo, termina com a sensação de que ele faz parte do segundo grupo. As leituras lacanianas dos filmes de Hitchcock, Tarkovski, Kielowski e Lynch mais confundem que explicam.

Não que queiramos ouvir explicações cartesianas sobre uma matéria tão onírica como é o cinema, mas Žižek força a barra com colocações pouco transparentes. Um ou outro insight nos faz pensar por alguns segundos, mas nada que marque com profundidade. No fundo, tem o mesmo brilho passageiro de uma observação espirituosa numa conversa de bar, que provavelmente será esquecida dez minutos depois.

Quando ele afirma, por exemplo, que o espectador ideal de Matrix é “sem meias palavras, um idiota”, tendo a concordar. Apesar de gostar de ficção científica, nunca engoli aquela embromação filosófica cheia de furos conceituais. O Planeta dos Macacos, com Charlton Heston, é muito mais honesto e claro (e um filme melhor, diga-se de passagem).

Mas, e daí? Chegar a conclusões como estas não tiram Žižek do nível de um palpiteiro cheio de idiossincrasias, disfarçadas pela psicanálise lacaniana. Ele se sai melhor em observações curtas, onde sua personalidade histriônica não chega a impedir a boa sacada. Como aqui:

A cena é genial. O comentarista, nem tanto…

A Concha

Certa vez um menino, brincando na praia, achou uma concha. Não uma concha nova, esmaltada, mas quase um fóssil, desgastado pelo sal e pela areia. Nunca saberemos da pré-história da concha, que um dia foi um ser vivo. Mesmo assim, o menino achou bonito aquele esqueleto de concha, e o levou para casa como um troféu.

O pai do menino, que era pintor, também gostou do esqueleto de concha. Fez questão de pintar um quadro com a concha e mais alguns personagens.

A concha até hoje é guardada pelo menino, que escreve este post, muitos anos depois. Sobreviveu a várias mudanças de endereço, casamentos e separações. Enfeita uma prateleira de livros onde histórias de fósseis, descobertas e achados inverossímeis convivem em harmonia.

O quadro está até hoje na casa de uma irmãzinha do menino, que fez esta fotografia.

Chopin por Nelson Feire

Chopin faz parte da trilha sonora de muita gente. Alguns nem sabem disso, mas aquele pianinho que tocava ao fundo no hall do elevador, no restaurante, na sala de espera do dentista, na trilha do filme romântico, era de Frédéric C.

De tão tocado, foi considerado brega por alguns esnobes. Música “fácil”, eufônica, sem asperezas. Mas quando ouvimos os Noturnos, coleção de pequenas peças de caráter introspectivo e sonhador, impossível não notar que há algo mais por trás daquela enganadora suavidade.

E neste momento, ouvindo na fria noite paulistana a bela versão de Nelson Freire – CD duplo com os 20 Noturnos, Decca, 2010 – me passam pela cabeça muitas imagens e sensações. A sutileza dinâmica de Nelson é arrebatadora. A sonoridade do piano nunca é plana, mas misteriosa, cheio de profundidade. Seus dedos roçam o teclado com tal leveza que parecem tanger as cordas, e não percuti-las. E ecoam na memória as palavras de Otto Maria Carpeaux, velho sábio austríaco que considero um dos civilizadores do Brasil, quando falava da popularidade de Chopin:

“Estamos diante do fato estranho, talvez único, do entusiasmo popular por uma arte altamente esotérica”.

Frontispício

Fotografei a fachada deste pequeno restaurante no interior gaúcho, perto de Santa Maria. Além da graça ingênua do frontispício, a frase consoladora (que já foi nome de filme, de livro e de música) nos faz bem. Lembrança de um tempo em que se desejava coisas boas para quem passava pela calçada.

Hoje, andando pelas ruas das cidades brasileiras, só lemos coisas como “CUIDADO CÃO BRAVO” ou “VENDEDORES NÃO INSISTAM”. Se for endereço comercial, marcas e propaganda.

Sinto que estamos perdendo algo pelo caminho…