Arquivo para junho \07\UTC 2010



A Ocupação de Sganzerla

Nesta terça, 8 de junho, será aberta no Itaú Cultural, em São Paulo, uma grande exposição sobre Rogério Sganzerla, com mostra de filmes, roteiros originais, fotos e objetos pessoais. Uma série de debates vai analisar as nuances da complexa obra do  catarinense mais universal do cinema brasileiro.

A curadoria é do Joel Pizzini, que contou com a preciosa ajuda de minha filha, Maria Flor. Estarei na inauguração, pra dar um abraço no povo de cinema, de quem ando meio distante. E pra ouvir Lanny Gordin, artista raro e tão surpreendente quanto o homenageado!

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Belmonte

Acabo de ler um livro que deveria ser conhecido por todos os brasileiros, principalmente os paulistas. No Tempo dos Bandeirantes, de Benedito Barros Barreto.

Dito assim, secamente, não chama a atenção de ninguém. Mas o tal Benedito é simplesmente o Belmonte (1896/1947), ilustrador, chargista, desenhista que marcou época na imprensa brasileira. Criador do Juca Pato, personagem tão marcante que virou nome de troféu em São Paulo, concedido a intelectuais e pensadores de destaque. Amigo de Monteiro Lobato, foi um dos definidores da imagem de Emilia.

Belmonte adorava fazer pesquisa histórica. Os desenhos que produziu durante a Segunda Guerra Mundial revelam seu conhecimento de trajes, costumes, culturas e pessoas de diversas nações, num tempo em que pesquisar não era sinônimo de “entrar no Google”. Tinha de ralar muito pra saber como se vestia um siberiano ou uma camponesa alemã.

Algumas charges, revisitadas com o olhar de hoje, são atualíssimas. Espie esta:

Mas voltemos ao livro. Pelas descrições de contemporâneos, Belmonte era um introvertido, macambúzio, esquisitão. Além de desenhar, escrevia crônicas, artigos e ensaios. Ousou escrever a história da província de São Paulo no século XVII, enfiando-se por muito tempo nos arquivos municipais e estaduais e lendo tudo sobre o assunto: petições, atas, relatos de viajantes, testamentos, ações judiciais, documentos da Igreja Católica.

Belmonte  escrevia e desenhava. De acordo com as descrições que lia, desenvolveu toda uma imagética bandeirante que até hoje é referência. Suas observações sobre o cotidiano da época, pontuadas de humor, antecipam procedimentos de historiadores respeitados, europeus e americanos. Isso fez com que historiadores “sérios” torcessem o nariz para sua obra. Essa falta de humor prejudica até hoje a Academia…

Reparem no estilo do homem, falando dos hábitos de 1600 e bolinha:

“(…) o vinho do Reino, muito apreciado por todos e, principalmente, pelos negociantes que realizam o inverso do milagre bíblico, transformando-o em água”.

“(Os índios) Podem tocar. Dá-se-lhes licença para que o façam. Mas não podem dançar, desconjuntando-se em batucadas desrespeitadoras.”

“A ata não nos esclarece se esses “negros” são do gentio da terra ou do gentio da Guiné. É de crer, contudo, que se tratassem destes últimos, pois só o africano, com seus batuques lascivos, poderia escandalizar os austeros senhores do Conselho. O índio, geralmente, não bailava para escandalizar os brancos. Dançava para comê-los…”

Falando de um testamento do século XVII, Belmonte manda esta:

“Quem, todavia, nesse século paupérrimo, parece ter batido o recorde da miquiação, descendo ao nível mais baixo da pindaíba, é Manuel da Cunha Gago. O seu inventário consiste, apenas, nesta linha modesta e rápida, onde se acham todos os bens que, ao morrer, ele deixa aos desolados herdeiros: “Foi avaliado um alambique todo furado e uma moenda velha”.

Em verdade, não se pode ser mais sóbrio em vida…”

As viúvas deixavam também pratarias, brincos e colares que até hoje ornamentam a sala de visitas das famílias quatrocentonas. Belmonte não perdoa:

“Evidentemente, entre estas jóias, há muitos pechisbeques, produtos das Slopers seiscentistas.”

Não é uma delícia?

De quebra, ainda aprendi o que é cantareira…


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