Arquivo para julho \30\-02:00 2010

Elifas Andreato

Semana passada bati um papo com Elifas Andreato. Como definir o cara? É o maior intérprete da música popular brasileira, nas artes gráficas. Entendeu? Mais de seiscentas capas de disco, um recorde mundial. E fez cenários, capas de livro, cartazes, painéis, livros infantis, caixas, coleções, esculturas, revistas e almanaques.

A entrevista pode ser vista aqui, na Nauweb. Ele fala sobre o início da carreira e o contato com os mestres da MPB. A segunda parte entra na rede semana que vem.

Gimnopédie violeta

Lembro exatamente da primeira vez que ouvi Erik Satie. Estudante de cinema, estava no MIS (Museu da Imagem e do Som) de São Paulo, no início dos anos 80, para assistir a uma projeção da cópia restaurada de Limite (1930), o filme de Mário Peixoto que virou uma lenda do cinema mundial.

O discurso poético das imagens, a narrativa não convencional e a fotografia impressionante de Edgar Brazil me deixaram racionalmente chapado. E o envolvimento proporcionado pela música de Satie, orquestrada por Debussy, foi embriagador. Passei semanas procurando a tal Gimnopédie pelas lojas de discos de São Paulo.

Decorei as três Gimnopédies, até aprendi a tocar uma no piano. Também as três Gnossiennes e as Três Peças em Forma de Pêra. As Ogivas e as Sarabandas.

Passados muitos anos, me acostumei a Satie. Passou a ser história, não descoberta. Até que, dias atrás, fui ver o concerto do Duo Violeta no SESI da Avenida Paulista. Conheço a dupla faz tempo. Já animamos alguns saraus na vida. Pois não é que tocaram um arranjo da Gmnopédie n.1 para violão e clarineta que me deixou todo arrepiado? Conjunção de talentos, guarda baixa emocional, momento de catarse, sei lá. Mas merece ser compartilhado:

A caspa é o início da loucura!

Depois de um fim de semana no andaime, uma reunião surrealista nesta segunda-feira e a lista de convocados do Mano Menezes (Jucilei?), acho que não estou me sentindo muito bem…

PS: O título deste post é de John Lennon. Dizem.

Você tem fome de que? (parte 2)

Recebi isso como se fosse apenas mais uma piada (de mau gosto). Quase deletei, mas percebi que é um pouco sutil retrato da imprensa brasileira, impressa, radiofônica ou televisada.

Aliás, de boa parte do povo brasileiro, que não lembra em quem votou nas últimas eleições, não opina (nem pensa) sobre o ensino público ou a distribuição de renda, mas gasta muitas horas em discussões sobre o crime da vez.

E ficam assim, como na foto. Empoleirados nos seus sofás, querendo ver a cara, o corpo, os restos mortais da vítima. E vibram! O banquete tétrico será televisionado! A fome aumenta, e depois que a refeição for servida, vão querer mais. E mais. E mais.

Desculpe, sofro de inapetência midiática.  Você tem fome de que, mesmo?

Você tem fome de que?

Grafite em muro da Av. Corifeu de Azevedo Marques, no Butantã, zona oeste da cidade de São Paulo.

Ester Góes/ Helene Weigel

(foto: Gal Oppido)

Às vezes vamos ao teatro para assistir uma peça recomendada, ou da qual ouvimos falar. Outras vezes, para conhecer um autor ou ver de perto um ator/ atriz. Outras vezes ainda, para saber mais sobre determinado tema.

A peça que Esther Góes e Ariel Borghi montaram sobre a vida de Helene Weigel junta e supera todos estes motivos. Weigel, companheira de Brecht e figura central do teatro alemão no século XX, foi uma mulher excepcional. Ajudou a moldar o modelo brechtiano de encenação, e teve participação política ativa e desafiadora. Peregrinou por vários países fugindo do nazismo, até a volta a Berlim Oriental, depois da 2ª Guerra, onde fundou o Berliner Emsemble. Socialista convicta, não deixou de criticar o stalinismo e o realismo socialista imposto nas artes no período da Guerra Fria.

Uma mulher extraordinária. Mas quando saímos do teatro, a impressão unânime era de que vimos duas mulheres extraordinárias. Esther está sublime, neste quase-monólogo que escreveu com seu filho, Ariel. A direção dele, meticulosa nos detalhes (vi duas vezes a peça, a marcação de cena é impressionante), mescla imagens filmadas que interagem de modo, hãã… brechtiano, com a ação real. Impactantes, mas provocando um certo distanciamento, que não exclui o riso, em seqüencias com a participação de Renato Borghi. Notável a cena em que Esther/Helene se maquiam, na tela e no palco. E muito adequada a bela trilha composta por Lincoln Antonio.

Uma preciosa aula de história. Uma inesquecível aula de interpretação. A recriação de Weigel como Mãe Coragem é arrepiante. Uma atriz vivendo uma atriz, na pele de uma personagem tão grande que funde e confunde nossa percepção de tal forma que não sabemos mais quem está realmente em cena. Provavelmente todas.

Duo Violeta

Conheço esta dupla há um bom tempo. Bons de conversa, bons anfitriões, altíssimo astral e, principalmente, bons músicos. As últimas temporadas que passei em Ilhabela foram premiadas por belas serenatas na varanda, ao som do mar e à luz do céu profundo.

Violão e clarineta. Um entrosamento musical de sete anos, que pode ser apreciado neste domingo, 18 de julho, de graça. Basta retirar o ingresso no teatro do Sesi (prédio da Fiesp), na Avenida Paulista. Vão tocar Guinga, Piazzolla, Debussy, Guerra-Peixe, De Falla, Tasso Bangel, Erik Satie e Gilberto Mendes, entre outros. Até o Vôo do Besouro, do Rimsky-Korsakov, entra no repertório, só pra tirar uma onda!

Para o mundo, Duo Violeta. Para os lá de casa, Rosa e Marcelo. Gente muito querida, que faz a vida soar melhor.

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Começou a campanha na web!

Inauguro hoje o ano eleitoral no Fósforo. E pra começar, visitei os blogues de campanha de Dilma, Serra e Marina. Nada como uma visão abrangente, sem preconceitos, para avaliar como estão indo as coisas.

O de Marina,  que ostenta o doce nome de “minhamarina”, está bem feitinho. Claro, não ostenta muitos recursos, apesar de contar com o vice-presidente mais rico desta eleição. Os vídeos rodam direitinho, mas a foto escolhida para a abertura é de doer. Conheço Marina Silva pessoalmente, e sei que ela é melhor que aquilo! Já a voz, é uma tragédia a ser contornada.

O de Dilma está bonito, profissional. A foto de abertura não acompanha o penteado atual, é preciso atualizar. Dizem que foi assessorado (o blog) por um profissional de mídia da campanha do Obama, contratado pelo João Santana. Filmes e vídeos rodam bem, há capricho na produção. É o melhor blog, até agora. Alguns slogans ficariam melhor na voz de uma locutora, e não na dela.

O de Serra aparenta certa breguice.  Tudo bem que azul e amarelo não são cores harmônicas, mas o contraste poderia ser amenizado.  O design do slogan “quero mais pro Brasil” é feio de doer. Parece um monte de remendos! E, falando sério, quem é o idiota que coloca o 45 do partido em laranja, na semana em que a Holanda perdeu a Copa do Mundo? Tá pedindo pra levar porrada, não é possível… Que tal subir o nível, tucanada?

Paulo Moura

No final dos anos 70 eu era um jovem estudante que adorava música. Ouvia de tudo, com curiosidade sem preconceitos. Vá lá, alguns preconceitos: Música pop, disco music, sambão jóia… O equivalente hoje à pagode, breganejo, música eletrônica e… música pop.

Fui muitas vezes aos concertos dominicais do Teatro Municipal, em São Paulo. E economizei uns trocados para assistir uma série de apresentações de música popular que rolavam na sexta feira, à meia noite, com gente muito especial. De Som Imaginário até Hermeto Paschoal, passando por Mutantes & O Terço tocando Beatles e vestidos de Sgt. Peppers, presenciei coisas que parecerão meio surreais quando eu contar aos meus netos.

Uma noite inesquecível? Aquela em que cheguei às 22:30 h no Municipal (matei aula, confesso!), comprei o ingresso e procurei um boteco pra comer algo e tomar uma breja. Encostei ali mesmo, na Xavier de Toledo. Reparei numa mesa muito animada, com uns caras meio caneados, falando alto e rindo. Bem vestidos, tinha até um mulato de terno branco, elegantérrimo.

Meia noite, voltei para o teatro e não me surpreendi muito quando o mesmo grupo do bar entrou no palco. Já desconfiava, pelas conversas que pesquei de orelhada. Estranho foi ver o mulato de terno branco, meio trôpego, andar cambaleante até o centro do palco, enrolando algumas palavras no microfone. Por um momento achei que havia entrado numa roubada.

Mas o cara pegou o clarinete, deu a primeira soprada (se acendessem um fósforo na frente virava um lança-chamas!) e o inferno virou algo celestial. Era Paulo Moura tocando. E eu na primeira fila, embriagado pela música fenomenal, exuberante, que o grupo mandava para a platéia semi-cheia. K-ximbinho, Nelson Cavaquinho, Pixinguinha, Lupiscínio, Abel Ferreira…

Quando rolou Espinha de Bacalhau, do Severino Araujo, não acreditei. A quantidade de notas que aquele semi-bêbado despejava sobre mim, com absoluta clareza e uma digitação impressionante, era de deixar qualquer um em estado de êxtase.

Nem lembro como voltei para a Vila Mariana, naquela noite. Nem lembro das noites seguintes, ou das anteriores. Mas aquela madrugada no Municipal, onde ouvi Paulo Moura pela primeira vez, foi revelação, bússola, epifania.

Reencontrei outras vezes o mágico do sopro. Dancei ao som de seu sax na Estudantina e no Sesc Pompéia. Colecionei seus discos. E derramei uma lágrima hoje, quando soube que ele foi tocar no andar de cima. Com 77 anos, e há uns 30 com a mesma cara, me parecia ser eterno. Não era. Mas passou a ser.

Ô, copinha sem graça!

Fim de Copa. Ufa, ainda bem que acabou. Uma copa amarrada, frustrante (para quem não é espanhol), sem brilho e sem craques (tudo bem, Forlán, você mereceu, por falta de concorrência). E a Holanda resolveu incorporar um espírito “felipemelo”, esquecendo de jogar bola. Futebol-arte. Marcial.

Lembrou a “copa sem graça e sem gols” de 94.  Um time que é campeão fazendo apenas 8 gols é um vexame. Ronaldo Barriga, sozinho, tem mais gols em Copa do Mundo. E os gols que os manés perderam, cara a cara com o goleiro, eram de tomar cascudo do resto do time, se jogassem no campinho do Granbery, em Juiz de Fora, como eu joguei.

Mas chega de futebol. Agora vem as eleições, e por três meses veremos outro tipo de assunto polarizando as conversas. Com algum crime cavernoso no meio, porque a humanidade não vive bem sem uma boa desgraça pra curtir. Confesso: Não me interesso por esse tipo de “humanidade”. Bruno & Nardoni são uma dupla sertaneja de muito sucesso no presídio, é isso?

Durante a Copa li dois bons livros (O Andar do Bêbado ainda está em andamento) , assisti uma peça interessantíssima (Determinadas Pessoas – Weigel, com Ester Góes), aplaudi o espetáculo de dança contemporânea Quatro Cantos (Caleidos), ouvi pelo menos quatro novos discos, aplaudi a Osesp na Sala São Paulo,  assisti três filmes legais, tive boas conversas com gente bacana. Isso vai ficar.

Muito mais que as botinadas de Van Aperder, ou as tentativas de In-siesta. Quem tem Villa-Lobos não dá bola pra Villa-lata…


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