Arquivo de agosto \29\UTC 2010

Um Galeano de domingo

Não costumo postar aqui textos quem não sejam de minha autoria. Mas este, do escritor uruguaio Eduardo Galeano,  bateu forte. Eu, que guardo boas lembranças de Montevidéu, aplaudo a perspicácia do cisplatino.

OS ÍNDIOS ERAM CEGOS?
Quando eu estava na escola, a professora nos explicou que Vasco Núñez de Balboa tinha sido o primeiro homem a ver os dois oceanos, a ver os dois mares de uma só vez, o Pacífico e o Atlântico, de uma montanha no Panamá. O primeiro homem.

Eu levantei e a mão e disse: – Senhorita, senhorita…
– Sim?
– Os índios eram cegos?
– Fora!
Foi minha primeira expulsão.

Quem foram os primeiros a nomear o milho, a batata, o tomate, o chocolate, as montanhas e os rios da América?
Hernán Cortez? Francisco Pizarro?
Os que viviam ali eram mudos?
Os peregrinos do My Flower escutaram Deus, que dizia que a América era a terra prometida.
Os que viviam ali eram surdos?
Depois, os netos daqueles peregrinos do norte se apoderaram do nome e de todas as demais coisas. Agora, americanos são eles; nós, que vivemos nas outras Américas, o que somos?

Candidatos, parte 2

Este post é uma continuação (ou o corolário) do raciocínio exposto semana passada aqui.   Uma resposta à enxurrada de e-mails que recebi de gente injuriada com o nível dos candidatos na propaganda eleitoral  na televisão.
“Nunca se viu algo assim!” “É a decadência total!”  “Nunca o nível foi tão baixo.”
Será mesmo? Nem vou relembrar Incitatus ou Cacareco, nobres quadrúpedes que exerceram mandatos legislativos sem prejuízo ao erário e sem empregar parentes, em priscas eras. Com dois cliques pesquisei a memória recente. (Bendito Youtube!)  Eleições de 2008.

Sinceramente, só com má vontade eu diria que o nível piorou…

Martha Argerich

Outro dia escrevi sobre Nelson Freire, aqui no Fósforo. E hoje vou falar de Martha Argerich, amiga há décadas do grande músico brasileiro. Martha é uma pianista argentina e universal, daquelas que emociona cada vez que seus dedos pousam sobre o teclado.

No belo documentário sobre Nelson Freire (João Moreira Sales, 2003) temos a sorte de ver o carinho mútuo e o entrosamento desses dois gigantes latinoamericanos do piano. Quando assisti o filme já conhecia e admirava a figura exótica da argentina. Tenho um vinil dela tocando a belíssima Sonata para Arpeggione, de Schubert, com o violoncelista Mischa Maisky, que comprei na época do lançamento. Faz tempo, crianças…

Olho agora a capa do disco, e vejo aquela jovem morena, com traços meio índios, cabelão preto caído nos ombros. Quem não a conheceu nessa época, pode sentir a concentração enérgica de sua interpretação nesta peça de Scarlatti. As notas duplas são tocadas com uma precisão espantosa, e a música flui com frescor, como se estivesse sendo inventada ali pela primeira vez.

Hoje Argerich é uma senhora aplaudida em todos os cantos do mundo, se é que o mundo tem cantos. Mantém o cabelão indomável sobre os ombros, e se recusa a tingi-lo, como Maria Bethânia. Assume a persona de grande feiticeira do teclado, e me deixa absolutamente hipnotizado, cada vez que a vejo. Como aqui, tocando o eterno Bach:

Encontro nacional de blogueiros progressistas

Rolou ontem a festa de abertura do Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, em São Paulo. Muita gente boa. Alguns se conhecendo pela primeira vez, outros já notórios cidadãos da blogosfera.

Estavam lá o Azenha, Luis Nassif, Rodrigo Viana, Renato Rovai, Eduardo Guimarães, Miro Borges, Conceição Lemes, Leandro Fortes, Cloaca News (o cara existe!) e mais uma centena de pessoas, de vários estados, que fazem a verdadeira mídia independente neste país. Discretamente, este Fósforo esteve presente, triste por não poder participar dos dois dias de debates que se iniciam hoje, sábado. As inscrições superaram as expectativas, e se esgotaram. A previsão era de 200, bateu nos 350 interessados, a cem pilas por cabeça. O brasileiro aqui deixou para a última hora…

O evento foi animado por uma excelente roda de samba e choro, com o próprio Nassif no bandolim, e mais Roberta Valente, João Macacão, Tachinha, João Poleto, John Berman e as cantoras Anaí Rosa e Carmen Queiroz. Tudo transmitido pela rede Brasil Atual, via internet (claro).

Quer saber mais? Cansou da velha mídia, manipulada e encharcada de preconceitos? Acha que a verdadeira democracia pede uma nova maneira de se comunicar? Acompanhe os debates do Encontro, visite os blogueiros citados acima, e procure conhecer o pessoal da Altercom, do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé e do Movimento dos Sem Mídia.

Não se iluda pensando que são todos do mesmo partido. Respeito à diversidade é palavra de ordem. Vozes dissonantes, filiações distintas, focos variados. Mas o consenso em alguns princípios: Pela democratização dos meios de comunicação, contra qualquer tipo de censura, contra a pena de morte, a favor do ensino público, gratuito e de qualidade, pela ampliação universal da banda larga, controle social da mídia.

Controle?!? Essa palavra te assusta? Ué, você nasceu, cresceu e vive sob uma mídia controlada por meia dúzia de famílias poderosas deste país, mancomunada com interesses políticos dos governos de plantão. Nunca se assustou com isso? Que tal poder opinar, em foros adequados e representativos, sobre o real papel da imprensa, da comunicação de interesse público?

Vejo este Encontro como um grande passo nessa direção. Vamos acompanhar os desdobramentos.

(a foto deste post é do Vi o Mundo).

Candidatos

Acontece de forma bienal. Começo a receber mensagens indignadas sobre “o nível dos candidatos”. Geralmente vêm acompanhadas de comentários depreciativos sobre o espaço (o Brasil) ou o tempo (a época em que vivemos). O tempora, o mores!

Um problema de memória. Ou será preguiça mental? A internet, felizmente, propicia o recebimento de mensagens com uma velocidade nunca antes imaginada. E, infelizmente, possibilita que se repasse essas mensagens sem o mínimo de reflexão necessária para que se forme um juízo crítico sobre o conteúdo.

Aí neguinho me escreve, revoltado: “Tiririca é candidato!” O K e o L do KLB são candidatos!” “A Mulher Pêra é candidata!”

E eu pergunto: E daí? Primeiro, a democracia permite que sejam. Segundo, representam (ou pensam representar) uma fatia da população. Se preconceito valesse, Lula nunca teria chegado lá.

Mas o que mais me deixa preocupado é a falta de memória. Ou falta de conhecimento. Ou preguiça de pensar um pouquinho. Em todas as épocas da história da humanidade, houve candidatos excêntricos. Desde a época de Incitatus, no mínimo. (Aos livros, moçada! Quem foi Incitatus? Adianto que foi um quadrúpede senador do Império Romano. Não foi eleito por voto direto, mas…)

Figuras caricatas, palhaços de diversos calibres, boçais de alto coturno, párias descalços, mulheres públicas, homens públicos (sentiram a diferença?) e franco-atiradores sempre disputaram eleições.

A cidade onde moro,  São Paulo, teve um rinoceronte eleito vereador, o famoso Cacareco. Era uma personalidade popular, cidadão com  domicílio conhecido (o Zoológico) e teve um mandato ilibado: nunca foi acusado de qualquer desvio, de verba ou de conduta.

Isso foi lá atrás, na mesma eleição que consagrou outro personagem caricato: Jânio Quadros. De lá pra cá, houve de tudo. Um largo hiato sem eleições (isso foi o pior de tudo, creiam!), e um recente período democrático, onde gente como Biro-Biro, Agnaldo Timóteo, Maluf, Maguila, Tiririca ou a Mulher Pêra podem se candidatar.

E democracia é isso, para o bem e para o mal. Um eleitor normal, medianamente instruído, vai para as urnas sabendo em quem votar, consciente de que na lista que está afixada na cabine indevassável (ha ha ha!) tem de tudo. Palhaços, futebolistas, camelôs, picaretas, banqueiros, traficantes, assassinos, vendedores de maçã-do-amor, canhotos, nefelibatas, prostitutas, travestis, economistas e metalúrgicos.

Porque a democracia é constituída pela diversidade. Pelo direito a todos de opinar, votar e ser votado. E é velho como a Sé de Braga, mais velho que este chavão, o fato de uma eleição ter candidatos que achamos ridículos. Depende somente do ponto de vista.

A dança de Isabel Marques

É hoje o lançamento do livro de Isabel Marques, Linguagem da Dança, arte e ensino. Bel, como os amigos a chamam, ganhou o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2009, e resume neste livro seus 15 anos de atividades na área, como professora, coreógrafa e pesquisadora.

Seguindo os princípios de Rudolf Laban, Isabel reflete no seu trabalho a profunda ligação da dança com o contexto em que  é vivenciada. Nunca saí indiferente de um espetáculo dirigido por ela!

Então, fica aqui o convite: Casa das Rosas – Av. Paulista, 37, 17/08, às 19:30 h.

“Só creio num Deus que saiba dançar!” (Nietzche)

Um piquenique de domingo

Uma das coisas mais perversas da vida numa cidade grande é o gradativo isolamento a que somos levados no dia a dia. A rua deixa de ser lugar de convívio, como era desde a antiguidade, para ser lugar de conflito. No máximo, de passagem.

Conhecer os vizinhos, brincar com as crianças, colocar uma cadeira na calçada e exercer a vital arte da conversa é coisa de interior, de cidade pequena. E faz tão bem que quem sai de lá sente falta. E quem cresceu na metrópole não percebe como isso nos torna mais humanos, fraternos, sociáveis.

Felizmente, convivo com gente que não se conforma com esse esvaziamento dos lugares públicos. Desde o pessoal que anima os movimentos do Butantã, e que neste domingo ocupou a Praça Elis Regina, até a turma do Movimento Boa Praça e do Piquenique Perto de Casa, ou Piperca.

E neste domingo gelado e garoento atendi ao convite de minha amiga Neide Rigo para me juntar à turma do piquenique. O antepasto de jaca verde que preparei na véspera ficou estranho, mais escuro que o normal. Não estava ruim, mas ficou feinho, fiquei com vergonha de mostrar. Em vez disso, levei um pote de geléia, feita com as laranjas do jardim aqui de casa.

E não é que encontro mais amigos, ao chegar na praça? A Verônika, na casa de quem já ouvi um delicioso concerto do Trio Viralata. E a família Weidebach, que levou uma bandeja de bombocados recém saídos do forno.

Sobre a toalha, um monte de guloseimas. O pão de nozes da Neide é algo indescritível, mas ela vai  ensinar amanhã, no Come-se. E queijos, patês, kefir, tortas doces e salgadas, sanduíches, sucos, chás e uma boa garrafa de vinho.

Com a temperatura beirando os dez graus, fomos salvos do congelamento pelo Paulo W, que trouxe uma providencial pinga de cambuci, curtida em casa. Até quem não bebe cachaça arriscou um golinho e não se arrependeu.

Outros piqueniques virão. E saraus, festas juninas, julhinas, agostinas… Momentos de feliz cidade.