Candidatos

Acontece de forma bienal. Começo a receber mensagens indignadas sobre “o nível dos candidatos”. Geralmente vêm acompanhadas de comentários depreciativos sobre o espaço (o Brasil) ou o tempo (a época em que vivemos). O tempora, o mores!

Um problema de memória. Ou será preguiça mental? A internet, felizmente, propicia o recebimento de mensagens com uma velocidade nunca antes imaginada. E, infelizmente, possibilita que se repasse essas mensagens sem o mínimo de reflexão necessária para que se forme um juízo crítico sobre o conteúdo.

Aí neguinho me escreve, revoltado: “Tiririca é candidato!” O K e o L do KLB são candidatos!” “A Mulher Pêra é candidata!”

E eu pergunto: E daí? Primeiro, a democracia permite que sejam. Segundo, representam (ou pensam representar) uma fatia da população. Se preconceito valesse, Lula nunca teria chegado lá.

Mas o que mais me deixa preocupado é a falta de memória. Ou falta de conhecimento. Ou preguiça de pensar um pouquinho. Em todas as épocas da história da humanidade, houve candidatos excêntricos. Desde a época de Incitatus, no mínimo. (Aos livros, moçada! Quem foi Incitatus? Adianto que foi um quadrúpede senador do Império Romano. Não foi eleito por voto direto, mas…)

Figuras caricatas, palhaços de diversos calibres, boçais de alto coturno, párias descalços, mulheres públicas, homens públicos (sentiram a diferença?) e franco-atiradores sempre disputaram eleições.

A cidade onde moro,  São Paulo, teve um rinoceronte eleito vereador, o famoso Cacareco. Era uma personalidade popular, cidadão com  domicílio conhecido (o Zoológico) e teve um mandato ilibado: nunca foi acusado de qualquer desvio, de verba ou de conduta.

Isso foi lá atrás, na mesma eleição que consagrou outro personagem caricato: Jânio Quadros. De lá pra cá, houve de tudo. Um largo hiato sem eleições (isso foi o pior de tudo, creiam!), e um recente período democrático, onde gente como Biro-Biro, Agnaldo Timóteo, Maluf, Maguila, Tiririca ou a Mulher Pêra podem se candidatar.

E democracia é isso, para o bem e para o mal. Um eleitor normal, medianamente instruído, vai para as urnas sabendo em quem votar, consciente de que na lista que está afixada na cabine indevassável (ha ha ha!) tem de tudo. Palhaços, futebolistas, camelôs, picaretas, banqueiros, traficantes, assassinos, vendedores de maçã-do-amor, canhotos, nefelibatas, prostitutas, travestis, economistas e metalúrgicos.

Porque a democracia é constituída pela diversidade. Pelo direito a todos de opinar, votar e ser votado. E é velho como a Sé de Braga, mais velho que este chavão, o fato de uma eleição ter candidatos que achamos ridículos. Depende somente do ponto de vista.

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10 Responses to “Candidatos”


  1. 1 Carmen 19/08/2010 às 9:08 pm

    Daniel, parabéns pela lucidez do texto!

  2. 2 Daniel Brazil 21/08/2010 às 8:10 pm

    Obrigado, Carmen!

  3. 3 Flor 27/08/2010 às 8:56 pm

    Gostei também. Meu voto vai para Daniel Brazil!

  4. 4 Albano Martins Ribeiro 28/08/2010 às 5:13 pm

    E tem mais: tem até um tal de Qüérxia. E quer xer xenador. Xá viu ixo? Dixo ninguém xe queixa.
    abraxo

  5. 5 Daniel Brazil 28/08/2010 às 8:49 pm

    O bixo extá tão exticado que só fala dexe jeito. Pláxtica, implante e dentadura xolta.

  6. 6 Bruna 30/08/2010 às 12:34 am

    Daniel, trabalho pelo social e em defesa da diversidade, seja ela cultural, social, racial, etc.
    Mas estava pensando cá com meus neurônios depois de ler o seu texto, eu não acho tão lúcido comparar funkeira, cantor e humorista ao referido “metalúrgico”.
    Lembro-me de quando era criança, que acompanhava a minha mãe nos comícios do Lula, no início da década de 90. Ele era apenas um metalúrgico, em cima de um caminhão, movendo uma legião de seguidores. E sim, cheio de argumentos. O Lula vem de um passado de lutas. Ele fundou um partido junto a outros sindicalistas, intelectuais, políticos e representantes de movimentos sociais. E o que me diz da Mulher Feira?! O que posso esperar dessa mulher?! Aqui em São José, pelo menos, quem balança a bunda não promove a ascensão.
    Portanto, garçom, um mínimo de seletividade com uma dose de bom senso, por favor?!

  7. 7 Daniel Brazil 30/08/2010 às 8:48 am

    Os candidatos são incomparáveis, Bruna, você tem razão.
    Mas um dos “defeitos” da democracia é que todos tem o direito de votar e serem votados: Bancários e banqueiros, santos e pecadores, de esquerda ou de direita.
    É esse direito que abordei no texto. Não fiz uma defesa dos tiriricas e melancias. As eleições seriam mmelhores sem esse tipo de gente, mas o que se pode fazer? Barrá-los? Se não cometeram nenhum crime, paciência…
    Um beijo!

  8. 8 almir almas 30/08/2010 às 8:54 am

    aí, Daniel, o q é bom mesmo é o processo democrático. e melhor ainda a lucidez. engraçado, o eleitor precisa de lucidez; e aí o Houaiss do UOL traz como sinônimo de lucidez aquilo que os políticos precisam ter: transparência. hahahaha

  9. 9 Daniel Brazil 30/08/2010 às 10:49 am

    Lucidez vem de luz, né? È preciso muita clareza pra distinguir algum diamante no meio de tanto cascalho. Ou uma boa lanterna!


  1. 1 Candidatos, parte 2 « FÓSFORO Trackback em 28/08/2010 às 11:43 pm

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