Sobre a morte

“O que era a morte para mim, até então? Sentei ao lado daquele corpo que esfriava lentamente, e vasculhei o embornal das lembranças. Os bichos que via matar na fazenda. Os gritos lancinantes do porco ao receber a facada certeira. As galinhas assustadas, cujo pescoço era destroncado com um rápido giro de mãos pela cozinheira Leonor. O estabanar dos peixes, no fundo do cesto, lançando faíscas de prata no ar. A morte brusca dos tatus e lagartos estatelados no asfalto. A morte lenta do cafezal, após um período longo de estiagem. A morte de minha mãe, que se transformou em ausência.

Quantos seres no mundo viram a própria morte? Os que morreram lentamente, em fogueiras, em cruzes, em cárceres. Os afogados, os devorados pelos bichos, os incendiados pela febre, anteciparam o fim, tiveram vislumbres da escuridão eterna que se aproximava.  Para uns, a serpente venenosa, o escorpião, a bomba, a mão armada. Para outros, a névoa que lentamente dissipa o mundo, a falsa embriaguez dos anestésicos, a noite branca dos hospitais. A mão levemente perfumada do anjo que fecha teus olhos, com um sorriso gélido. A garra peluda do fauno que gargalha, enquanto prepara a corrente por onde arrastará sua alma até o canil celestial. A imaginação de cada um escolhe a forma de morrer.”

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8 Responses to “Sobre a morte”


  1. 1 dalila teles veras 25/11/2010 às 9:28 pm

    Olá, Daniel
    Ops! Será este um trecho de um capítulo do livro que se está a escrever? Se o meu palpite estiver correto, viva! Uma ótima idéia essa a de lançar, como os vendedores na praia, “amendoins” aos leitores para que fiquem com gosto de quero mais. Quero mais, sim…
    abraço da leitora
    dalila

  2. 2 Daniel Brazil 25/11/2010 às 9:35 pm

    Acertou, Dalila. Fico feliz por ter uma leitora tão credenciada. E preocupado também!

  3. 3 Carmen 26/11/2010 às 12:10 am

    Bela imagem. Agonia? Angústia? Dor? Solidão?

    A morte é intrinsecamente uma experiência solitária…

    Bjs!

  4. 4 Paulo Carvalho 27/11/2010 às 3:58 pm

    Caro Daniel,

  5. 5 Paulo Carvalho 27/11/2010 às 4:01 pm

    Caro Daniel,
    que bom que a Dalila já matou a charada. Eu, de minha parte, tive um impacto muito forte com as imagens, sobretudo com a memória do grito do porco apunhalado. Muito pequeno eu ajudei meu pai a matar um porco, eu segurando bicho, o grito ainda ecoa dentro de mim e me dói ainda. Parabéns, seu texto está forte e bonito! abraços, paulim.

  6. 6 Daniel Brazil 27/11/2010 às 9:16 pm

    Ah, Carmen, há mortes coletivas…
    Grande Paulo, eu nunca vi, só ouvi a matança do porco. Os gritos me impressionaram tanto que virou texto.
    Cheguei nas 70 páginas, vamos em frente. Meu prazo é até final de janeiro. Abraço!

  7. 7 neuzza pinheiro 14/12/2010 às 10:04 pm

    dANIEL bRAZIL!

    eu não passava por aqui há bastante tempo,
    período em que não passei
    por quase nenhum lugar.
    Ainda bem que esses intervalos de ausência
    não são definitivos.
    E você agora me pegou, falando assim, TÃO ASSIM
    dessa ausência única
    tão certa
    sob tantos ângulos.

    admiração ainda maior
    neuzza

  8. 8 Daniel Brazil 14/12/2010 às 10:13 pm

    Gostei muito de teus textos sobre a ausência/presença de Leminski, Neuzza!


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