Arquivo para novembro \12\UTC 2010



Retiro na ilha

Nenhum homem é uma ilha, diz o velho adágio, que já foi até tema de redação no vestibular. Por isso estou aqui, jogando minha garrafa ao mar, saudoso dos amigos.

Minha rotina tem sido acordar cedo, sem despertador. Faço uma caminhada matinal, que às vezes é em direção à Vila, às vezes ao Perequê. A paisagem quase deserta da manhã recém nascida me faz bem pro espírito. Acaba até contaminando o que escrevo.

O astral do velho Engenho Dágua, por exemplo, aí embaixo, pertinho de casa.  Ao fundo, o Baepi, ponto culminante da ilha.

Meu retiro é uma pequena casa que conheço desde a infância. Passo o dia escrevendo, com intervalo para fazer o almoço. Coisas leves, que me ocupam por uma hora, no máximo. Salada de cuscuz marroquino, abobrinha recheada de atum, uma massinha, muita verdura. À noite subo o morro para a casa da tia, onde aí tomamos uma cerveja, conversamos e fazemos coisas mais caprichadas. Um babaganuche feito na brasa, por exemplo, puxado no alho pra espantar os vampiros.

Ainda não fui à praia, embora esteja a poucos metros dela. Dei um mergulho na piscina, na terça, mas de lá pra cá o tempo esfriou. Ideal para escrever. Lá fora, o verde gotejante é intenso. A casinha é cercada de uma mata tão densa que do portão não dá pra enxergá-la.

Trilha sonora: Mozart, Beethoven (só as sonatas para piano), Chopin, André Mehmari, Chico Saraiva, Duofel. E uma coletânea da Araci da Almeida, só pra dar um tempero enquanto cozinho!

 

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Ilhabela, parte 1

Primeira semana em Ilhabela. Desacelerando do ritmo paulistano. Tenho como companhia a Pretinha e o Uísque, um casal de viralatas. Curiosamente, a Pretinha é marrom e preta, e Uísque é totalmente negro. Black Label, talvez…

Escrevo um romance, e tenho 90 dias para terminar. Cheguei com dez páginas escritas. Três dias, mais quinze páginas. Uma boa média. Na verdade, escrevi quase o dobro, mas a primeira coisa que faço quando acordo é revisar o que escrevi na véspera. E começo a podar, desbastar, cortar, enxugar. Lá se vai uma manhã, nesse processo de lapidação. Depois do almoço, recomeço.

Por enquanto, acordo e durmo cedo. Às 8 horas estou fazendo minha caminhada matinal, na beira da praia. No sábado choveu o dia todo, e me senti enferrujado. A casa fica rodeada de verde gotejante, onipresente em todas as janelas.

Só abro a primeira cerveja após as 18 horas (tirando aquela do almoço). Subo o morro e converso com minha anfitriã, mecenas e consultora, tia Adelaide. Conversamos sobre os anos 60, sobre a rua Maria Antônia, sobre os festivais de música, sobre o movimento estudantil. Ela fez teatro, nos anos 60, foi fundadora do CPC da UNE, mas não consegui enfiar isso na trama. Fica pra outra vez.

Imprensa marrom de papel couché

Poucas vezes vi uma matéria tão tola e mal intencionada quanto a que a (In)Veja, aquele lixo multicolorido que alguns incautos folheiam na sala de espera do dentista, publicou esta semana.

O texto é um primor de desinformação e má fé:

“Como se sabe, a forma mais sincera de elogio é a imitação. Uma pesquisa fotográfica mostra que, por esse prisma, Lula é um elogio itinerante ao ditador Fidel Castro, sucessor do ditador Fulgencio Batista em Cuba.”

O autor, um rematado imbecil, não lembrou que bilhões de pessoas no mundo colocam (ou tiram) os óculos da mesma maneira. Até ele próprio, se tiver coordenação motora para tanto. Aliás,  bilhões também seguram uma máquina fotográfica do mesmo jeito.

Uma pesquisa (se ele houvesse feito), mostraria, em um minuto de Google, fotos como esta:

Ou esta:

Mas o que dizer desse tipo de imprensa? Fico com as palavras do mestre Alfredo Bosi, proferidas na semana passada durante o manifesto dos professores da USP em defesa da democracia e da universidade:

“Esta imprensa marrom de papel couché…”. A platéia – estudantes, funcionários, professores e até o ex-aluno que aqui escreve – gargalhou, e o nome do asqueroso hebdomanário nem precisou ser pronunciado.

E se estiverem todos imitando o Brad Pitt?

 

 


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