Arquivo de fevereiro \26\UTC 2011

Pitanga em Pé de Amora

O nome estranho pode remeter a grupos naturebas ou de viés surrealista. Afinal, já conhecemos abóboras, cogumelos e outros vegetais na música brasileira. Mas a imagem de espécies bem brasileiras, destas que dão em qualquer calçada ou quintal, indicam outro caminho. Afinal, quem adivinha que frutinhas tão modestas como amora ou pitanga tenham sabor tão marcante?

Os rapazes (e a moça) que formam o grupo Pitanga em Pé de Amora começaram há pouco tempo, mas demonstram no primeiro CD a firmeza de suas raízes: a música brasileira que entremeia o samba, o choro, a toada, a valsa, a marchinha, a canção urbana.

O grupo optou pelo uso de instrumentos acústicos, tratados com capricho. O violão de 7 cordas de Daniel Altman é o centro de gravidade musical, formando dupla afinada com Diego Casas (violão e voz), que é também o principal letrista. Os instrumentos de sopro incorporam timbres sofisticados. Angelo Ursini brilha nas intervenções de sax, clarinete e flautas. Gabriel Setubal acrescenta um trompete, além de brincar também com violão e voz. Tudo isso é coroado pelo vocal suave de Flora Poppovic, que tempera algumas canções com uma percussão leve e precisa. Às vezes as vozes (opa!) soam em conjunto, como na bela Meu Caminho, completando e enriquecendo a textura instrumental. Chama a atenção o fato de que o grupo interpreta apenas composições próprias.

É nesse ponto que nossa curiosidade se aguça. São composições maduras, adultas, que exploram sutilezas e detalhes pouco comuns ao repertório de jovens de menos de 30 anos. Alguns versos revelam a influência de Vinicius da fase Baden, Paulo César Pinheiro (Melhor Assim), Noel (Choro), Chico, Paulinho da Viola…

Influências de respeito. E mesmo sem contar com vocalistas excepcionais, a sinceridade do canto dos Pitangas nos pega pelas orelhas. Com poucos instrumentos, são capazes de criar climas envolventes, intimistas ou brejeiros. A delicadeza de Flora em uma canção como Maré Baixa torna a audição tão saborosa como uma doce amora. O fox que fecha o CD, marcado por um walking bass acompanhado de guitarra acústica, bateria com vassourinhas e flauta, dá um toque de surpresa ao conjunto. Ali, o vocal de Flora e o solo de trumpete com abafador são definitivos. Uma pitanga em pé de amora.

Como os colegas de geração da Trupe Chá de Boldo (da qual já falamos aqui na RMB), os Pitangas prometem muito. É difícil imaginar um cenário futuro da canção paulista sem a participação desses dois bandos musicais. A Trupe é mais anárquica, mais criativa nas letras, menos virtuosa nos instrumentos e nas composições. Uma pitada de chá de boldo cairia bem na musicalidade dos pitangas. É como se uns fossem pós-tropicalistas, e outros pré-tropicalistas. Se ficarem mais irreverentes – no sentido estrito da palavra, ou seja, menos reverentes aos mestres – os Pitangas podem explodir. Talento para isso não falta, basta ouvir a estimulante estréia.

Outro sinal dos tempos: apesar de prometerem o CD físico para breve, disponibilizaram todas as faixas pela internet. Anote aí: www.pitangaempedeamora.com.br. Baixe e se delicie com música brasileira de fina extração, com o sabor comum e raro de pitanga e amora. Entendeu?

(publicado originalmente na Revista Música Brasileira)

Bantantã

Há uns vinte dias, em Ilhabela, encontrei meu velho amigo Catolé. Aliás, o ilustre vereador Catolé. Ele me puxou pelo braço e falou, entusiasmado:

– Rapaz, outro dia estava arrumando uns papéis em casa e encontrei a letra original do primeiro samba-enredo da Bantantã! Aquela que eu, você e o Tião Carvalho fizemos, na mesa do Bar do Bilu. Lembra?

Claro que não me lembro de nada. Nem sei qual foi a minha participação na tal letra, só lembro que o Tião chegou com a música pronta, e tocou no cavaquinho. Mas saí muito na Bantantã, no tempo de estudante. Depois passei para a ala familiar, levei minha filha ainda no colo pra pular. Estive uns tempos afastado, volto de vez em quando. Nos últimos anos tenho frequentado mais a Vai Quem Quer, que sai da Praça Benedito Calixto. Uma não compete com a outra, tem muita gente que sai nas duas.

A boa e velha Bantantã (32 anos!) sai nesta sexta-feira, 25 de fevereiro. É uma das bandas que abre o carnaval paulistano, sempre na semana anterior. A concentração é a partir das 18 h, ali no começo da Waldemar Ferreira.  Aliás, onde ficavam os saudosos Batipinga,  Bar do Bilu, Café Paris…

Se você ainda não conhece a Bantantã,  veja como foi no ano passado!

Saudades da ditadura

Parece que os governantes de São Paulo estão com saudades da ditadura. Há muito tempo  eu não via tanta violência contra estudantes e trabalhadores.

O motivo? Ora, esses agitadores protestam contra o aumento da tarifa de ônibus para 3 reais! Só porque está muito acima da inflação do período? Só porque o serviço de transporte público está um lixo, pior que há dez anos?  São Paulo é a louca emotiva do Brasil, tem mais é de cobrar a tarifa mais cara do país, ora!

Ah, lembrei dos velhos tempos! Faz tempo que não sinto o cheiro de gás lacrimogênio. Nem lembro mais da última vez que corri da borduna estadual. 1983? 1986? Estou ficando velho…

O achado de Hans Peter

Conheço Hans Peter há centenas de anos. Amigo de infância.  Um alemão-baiano com coração de artista e fígado de boêmio, capaz de criar obras desconcertantes e filosoficamente contundentes. Certa vez colocou um enorme boneco feito de lixo no centro do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, causando forte impacto.

Agora está mergulhado em ensaios antropológicos. Afirma que “existe uma espécie na face da terra que sempre viveu paralelamente ao homem.” Só existe uma prova contundente de sua origem: a Pistola Pré-histórica. Peter está certo de que ” “esta espécie se desenvolveu e multiplicou formando famílias, e hoje tem uma população bastante significativa em relação ao homem.”  Acredita que o estranho hominídeo “tem como fonte de alimentação o próprio homem e, em muitos casos, se utiliza do homem como extensão para alcançar os seus projetos”.

Hans Peter trouxe o achado da Europa, e confessa que foi muito difícil explicar para a polícia o significado de sua descoberta. Quase foi preso na Alfândega. Hoje a Pistola está em Salvador, onde ele desenvolve sua pesquisa, certo de que encontrará no Novo Mundo outras provas de sua teoria. Estou com ele!

(“Pistola Pré-histórica”. Medindo 68 cm x 38 cm. Tem uma moldura em forma de caixote envelhecido, fechado com  vidro.)

O Jogo da Amarelinha

Fala sério: Alguém já leu o Jogo da Amarelinha mais de uma vez, como propõe o autor?

Meu amigo Felipe está lendo agora como um livro normal, página após página. É o primeiro que vejo fazer isso. Eu, temeroso, segui o manual de “jogo da amarelinha” proposto no início. Terei encontrado a verdadeira Maga?

Adeus, Ilhabela…

Ilhabela não é citada no meu romance, mas foi fundamental. As caminhadas matinais e vespertinas, a tranquilidade (excluindo o período de festas), as paisagens oníricas e o canto dos passarinhos criaram o ambiente ideal para que fluísse a inspiração.  E a transpiração, claro (Esta semana fez mais de 36 graus!).

Volto a Sampa, à rotina de trabalho, depois de 3 meses de retiro. Ainda tenho alguma páginas pra burilar, lixar, polir, remendar, suturar e até cortar. Mas o tempo está ao meu lado, o vento a favor,  o coração tranquilo. Em breve, concluo o Terno de Reis.

Obrigado, Ilhabela!

Ponto final

Esta semana coloquei o ponto final no romance que escrevo desde novembro.  Não significa que esteja pronto. Comecei a reler, revisar, trocar frases, limar as palavras repetidas, me espantar com as pequenas incongruências. Até junho tem de estar pronto e entregue.  Cerca de duzentas páginas, menos do que eu esperava. Sinto-me meio frustrado, pois achei que meu livro pararia em pé. Livro sério se mantém em pé, certo? Porém não consigo mais espichar a trama, fazer firula, encher lingüiça. As coisas se resolveram assim, de forma meio autônoma. Os personagens se recusaram a continuar.

Não tenho vontade de escrever outro romance, por hora. Quero voltar aos contos, que já me proporcionaram algumas alegrias. Sempre achei que uma boa história pode ter dez ou quinze páginas. Poe, Borges ou Tchekov nunca escreveram um romance. Norman MacLaren, mestre supremo do cinema de animação, nunca fez um longa metragem. Nem precisou.

Afinal, pra que serve um romance?

PS (12/02): Relendo este post, sinto que não me expressei muito bem. Dá a impressão de que não fiquei contente com o resultado.
Anotem: Gostei, e consegui realizar aquilo que estava na minha cabeça. Sem desculpas furadas depois, podem me cobrar.