A Grande Onda

Semana movimentada e traumática, com todos acompanhando a tragédia japonesa como quem vê um disaster movie. Nos primeiros dias falei que haveria mais de dez mil mortos, e o pessoal à minha volta reclamou. “Que absurdo!” “Só há 300 mortos até agora!”.

É curioso como as pessoas tentam minimizar o impacto da morte, mesmo quando é evidente. A quantidade deve ser comunicada aos poucos, de modo que vá anestesiando o raciocínio. Depois que passa de quatro dígitos, tudo fica meio abstrato. Quantos morreram mesmo na Segunda Guerra? E na Líbia, em 2011?

A morte de uma pessoa é uma tragédia. A de muitas, uma estatística. Esta afirmação é perturbadora. Talvez para apaziguar nossas consciências, é atribuída a Stalin. “Ah, só um demônio como ele poderia ter dito isso”.

Isso te tranqüiliza? A mim, não.

(A gravura de Hokusai que ilustra este post nunca foi tão lembrada, de forma tão dolorosa, em todo o mundo. O jovem Montanaro, chargista brasileiro de 14 anos, ouviu críticas pesadas por ter feito referência a ela. Tem o meu apoio. Arte é vida.)

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4 Responses to “A Grande Onda”


  1. 1 dalila teles veras 22/03/2011 às 1:06 pm

    Olá, caro Daniel,
    O dia sempre resulta melhor após a visita ao fósforo (lucidez e provocação ao pensar). Também ando perturbada com os trágicos acontecimentos e, sobretudo, com a banalização da morte que os meios de comunicação de massas transformam em mero espetáculo, simulacro do acontecimento. A emoção fica por conta da última notícia do jornal nacional, um dono que encontra, após dias, seu cachorrinho em meio aos escombros, mais nada. Sim, O tal “demônio” (ou quem quer que o tenha dito) tinha razão, milhares de mortes não passam de mera estatística. Triste o mundo que entregarei para os os netos (espero que ao menos a arte, sempre antecipadora, sobreviva). abraço da leitora
    dalila teles veras

  2. 2 Daniel Brazil 22/03/2011 às 5:54 pm

    Bela observação, Dalila. Que a arte não seja apenas antecipadora, mas também testemunha e guardiã de nosso desastres cotidianos.
    Como diz a bela letra de Zé Miguel Wisnick, “a gente é feito pra acabar, e isso nunca vai ter fim”.
    (Feito pra acabar, canção de Marcelo Jeneci/ Wisnick).

  3. 3 paulo carvalho 26/03/2011 às 6:20 pm

    caro amigo,
    adorei esse comentário de sua amiga Dalila (que não conheço) e a sua resposta trazendo Jeneci-Wisnick. Acabei de conhecer esse moço e esse “a gente é feito pra acabar” me marcou indelevelmente. Foi há pouco, bem misturado com minhas carnavalanças do Galo da Madrugada em Recife, que conheci o CD do Jeneci. Gosto das pessoas que dizem as coisas como precisam ser ditas. Por isso, suas matérias são tão boas e nos vitalizam (como pontuou Dalila). E por pura associação livre, me vem o “tudo novo de novo”, do paulinho moska… que nos ensina…

    Vamos começar
    Colocando um ponto final
    Pelo menos já é um sinal
    De que tudo na vida tem fim

    Vamos acordar
    Hoje tem um sol diferente no céu
    Gargalhando no seu carrossel
    Gritando nada é tão triste assim

    É tudo novo de novo
    Vamos nos jogar onde já caímos
    Tudo novo de novo
    Vamos mergulhar do alto onde subimos

    Vamos celebrar
    Nossa própria maneira de ser
    Essa luz que acabou de nascer
    Quando aquela de trás apagou

    E vamos terminar
    Inventando uma nova canção
    Nem que seja uma outra versão
    Pra tentar entender que acabou

    Mas é tudo novo de novo
    Vamos nos jogar onde já caímos
    Tudo novo de novo
    Vamos mergulhar do alto onde subimos

  4. 4 Daniel Brazil 26/03/2011 às 7:46 pm

    Boa lembrança, Paulo! Dalila é poeta de primeira água, com vários livros publicados, e grande agitadora cultural de Santo André. Livraria Alpharrábio = Dalila. Grande figura!


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