Arquivo para abril \27\UTC 2011

Diários de Bicicleta

 Frank Zappa, compositor genial e guitarrista brilhante, não tinha uma opinião muito bondosa sobre a música pop e a crítica musical em geral. Certa vez ele soltou essa:

– Jornalismo musical é gente que não sabe escrever entrevistando gente que não sabe falar pra gente que não sabe ler.

Imagine o que ele diria sobre músicos que se metessem a escrever! Lembrei do bigodudo quando peguei o livro Diários de Bicicleta, do David Byrne (Amarylis, 2010). Prefácio de Tom Zé, bem adequado para a edição brasileira. O título, claro, é uma referência ao famoso diário de Che Guevara que virou filme do Valter Salles Jr.

O talking head passeia por várias cidades do mundo com a sua bike, entre shows e eventos, e descreve sensações e visões que capta durante o ato de pedalar. Passa por Buenos Aires, Londres, Sidney, San Francisco, Nova York, Manila e Istambul, entre outras.

Em Berlim, pedalando e refletindo sobre o antigo regime político, cita um diálogo entre uma alemã e um agente da Stasi, a temível polícia política comunista, descrito por Ana Funder no livro Stasiland.

“O livro relata uma linda cena kafkaniana em que uma mulher é chamada para um interrogatório após ser recusada em um emprego por suas atividades suspeitas.

– Por que você não está empregada?

– É você quem deveria me responder isso.

– Você é uma mulher inteligente, com certeza poderia encontrar um emprego.

– Não, estou desempregada.

– Isso é impossível. Não há desemprego na República Democrática.

Gostamos de pensar nessas histórias como algo típico da paranóia do centro europeu e do comportamento sob regimes socialistas ditatoriais. Mas imagine alguém sendo interrogado pelo Departamento de Segurança Interna dos EUA e dizendo algo como:

– Mas eu fui torturado, fui coagido a dar essa informação.

– Isso é impossível, nos Estados Unidos não torturam seus prisioneiros.”

Lendo as últimas notícias sobre Guantánamo, como a denúncia do WikiLeaks de que mais da metade dos presos são inocentes, acusados sem provas, lembrei de Byrne e fui atrás do trecho  que reproduzi acima.

O velho Zappa, se estivesse vivo, teria de admitir que há vida inteligente na música pop mundial. Pouca, mas existe!

 

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Jornalismo Comparado

Na semana que antecedeu o feriado, manchetes assustadoras alertavam para a situação dramática em que o Brasil vivia. Todo aquele povo que lotou as praias e montanhas na Semana Santa estava fugindo da terrível crise, certo?

É assim que devem pensar os fazedores de manchete de nossa decrépita imprensa. O blog Tijolaço comparou manchetes da Falha de SP, Globo e Reuters, do mesmo dia, 17/04. A agência Reuters não publica jornal mas vive de vender notícias, de sua credibilidade. Se inventar muito, perde o freguês.

Já os dois patrióticos jornalões estão se lixando para a perda de credibilidade. Parecem ter outros interesses. Ou outras fontes de renda…

Nelson Cavaquinho

O cara. O maior gênio da música popular brasileira. O mais lírico, o mais louco, o mais tétrico, o mais macunaímico, o mais visionário. Nelson Cavaquinho. E este documentário do Leon Hirszman é o mais impressionante já feito sobre qualquer compositor brasileiro. Sem discurso, sem falação, só imagens e o som daquele violão de cordas de aço. E  aquela voz única, de dobradiça enferrujada. Com pouquíssimos recursos, o espectador-ouvinte termina sabendo quem era, como vivia, e o que cantava o menestrel do morro da Mangueira.

Esta é a versão recuperada do documentário de 1969. Obrigado, Petrobras, por aplicar recursos em coisas assim! Robert Johnson morreu triste por não ter um filme como esse retratando sua vida. Ambos fariam 100 anos em 2011. Ou não.

Parte 1:

Parte 2:

Tanta pobreza e tanta beleza!

(PS: descobri que este filme estava no YouTube graças a um toque do Kiko Dinucci. Valeu, cumpadi!)

Que fim levou Rick Jones?

Há alguns anos li um conto que me impressionou muito: “1º de Janeiro É o Dia dos Mortos”. Passou a ser um modelo, para mim, de conto policial passado em São Paulo. Além da geografia precisa, há um clima meio angustiado, kafkaniano, que traduz muito a sensação de viver numa metrópole tão humana (leia-se: desumana, desigual, etc).

                O autor, Edmar Monteiro Filho, teve esse conto premiado no concurso Guimarães Rosa, da Radio França Internacional, em 1997. Como participei, em 2001, do mesmo concurso, acabamos nos aproximando. Pra completar, o cara é de Amparo, cidade natal de minha mãe, no interior de São Paulo.

                Através de um amigo comum, o também escritor Jadson Neves, acabamos trocando e-mails. No início deste ano ele me enviou seu último livro de contos, “Que Fim Levou Rick Jones” (Gráfica Foca, Amparo, 2010).

                O homem escreve bem pra burro. Domina os artifícios da língua a ponto de romper os limites sintáticos. Vez em quando tensiona o verbo, entorta a gramática, subverte a fluência do texto, se valendo de elipses que nos fazem tatear com os olhos, procurando as pontas da narrativa. Outras vezes faz o texto fluir de maneira lírica, inventando imagens, cenas e enredos que cantam.

                Gostei muito do conto mais curto de todos, Luto. Três páginas e meia, cuja leitura dá vontade de sair dançando com uma das personagens. Por ter lido de forma descontinuada o volume, por várias noites cansadas, posso ter perdido sutilezas de outras histórias. Mas hoje, nesta manhã de domingo, me emocionou profundamente o penúltimo conto, O Rei de Tonga, onde o batido mote do envolvimento de um homem com uma prostituta ganha novas cores, sons e sabores, além de um contraponto inusitado: a virada do milênio numa ilha perdida nos confins do oceano Pacífico.

                 Há outros contos notáveis. Predomina um clima realista, muitas vezes em primeira pessoa, com um leve tempero fantástico, cortazariano, que já se manifestava naquele primeiro conto que li. Edmar é internacionalmente brasileiro no sotaque, no cenário, nos personagens que inventa.  Um dia quero escrever como ele!

O mito da violência no cinema brasileiro

Outro dia um velho amigo, sujeito culto e não dado a falar besteira, resolveu comentar o massacre da escola de Realengo no seu Facebook. E soltou o chavão: “Só falta agora fazerem um filme. Cineasta brasileiro adora violência.”

Sei que muitas vezes alguém fala por impulso alguma coisa da qual se arrepende depois. Esperei algum tempo, pra ver se o cara se corrigia, mas nada. E, o que é pior, vários concordaram com a tese.

Bem, saiu ontem (11/04) a lista dos concorrentes ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2011. Na ponta, com 16 indicações, Tropa de Elite 2. Ué, será que meu amigo acertou? Bem, empatado em indicações, está Chico Xavier. Não assisti, mas duvido que seja uma apologia da violência. E Tropa de Elite 2 também não é apologético, mas crítico (embora tenha gente que não perceba). Reconheçamos, para simplificar, que aborda a violência urbana.

1 X 1, portanto.  Vamos aos outros filmes indicados:

Olhos Azuis, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, As Melhores Coisas do Mundo, Quincas Berro Dágua, O Bem Amado, Nosso Lar, 5 Vezes Favela (opa, temos que dividir os episódios aqui: alguns violentos, outros singelos, até líricos…), De Pernas pro Ar, Lula – O Filho do Brasil, O Sol do Meio Dia, Cabeça a Prêmio (o nome é suspeito, mas se trata de um drama rural. Tem romance e alguma violência..).

“Talvez este seja um ano atípico”, pensei. Conferi os indicados de 2010. O grande premiado foi É Proibido Fumar, que superou o mega sucesso Se Eu Fosse Você 2.  Caramba, será que meu amigo, tão sabido, falou bobagem?

Talvez estivesse se referindo aos documentários! Fui conferir a lista: Dzi Croquettes, O Homem Que Engarrafava Nuvens, José e Pilar, Uma Noite em 67 e Rita Cadillac – A Lady do Povo. Bom, aqui a violência perdeu por 5 X 0…

Ou seja, este é mais um mito repetido sem reflexão por aí, nas mesas dos botecos, nas salas de aula, em alguns programas de televisão. Gente que faz fila pra ver um policial com o Tom Cruise ou o DiCaprio, que idolatra o Scorcese e o Tarantino, mas espalha que quem curte violência é o cinema brasileiro.

Revendo a lista dos filmes indicados para o Grande Prêmio, me espanta a falta de violência, para dizer a verdade. Da violência contra os negros, os pobres, as mulheres, os índios, os animais… O cinema brasileiro andará meio alienado da sociedade onde é produzido? Uma cinematografia viva, dinâmica, não teme assunto ou tabu. Fala de amor e de morte. De guerra e de paz. De alegria e de tristeza. Pois a vida é assim, e deveria estar nas telas, tão grande quanto a fantasia.

Esse cara aí em baixo, vejam só, é exceção!

Um conto de Kurosawa

Por que a noite deveria ser clara, como o dia? Gosto de ver as estrelas…

Synval Silva, 100 anos

Foi-se o mês de março e poucos lembraram deste talentoso sambista que teria completado 100 anos. Synval Silva, nascido em 14 de março de 1911, teve uma vida assim: alternou momentos de glória e de esquecimento até sua morte, em 2004.

Synval nasceu em Juiz de Fora, terra de outro grande sambista, Geraldo Pereira, que é da safra de 1918. Alguma coisa tinha na água daquela cidade, na segunda década do século XX! O pai, clarinetista, trouxe a música para dentro de casa, mas o primeiro instrumento do pequeno Sinval (batizado sem y) foi a viola. Como músico não era profissão, tornou-se mecânico de automóveis. Em 1930 se mandou para o Rio de Janeiro, se fixando no morro da Formiga. Tocou na Rádio Mayrink Veiga, no grupo Good Bye, e ali conheceu Assis Valente. Este era compositor conhecido, tinha sambas gravados por Carmen Miranda, e conseguiu para Synval um bico como motorista da cantora.

Agora, imagine a cena, meio lendária, meio verdade. Ao saber que Synval compunha, Carmen faz um desafio. Promete um conto de réis por uma canção que falasse em mulato no samba. O malandro tasca logo dois: Alvorada e Ao Voltar do Samba, que acaba virando sucesso.

Oh, Deus, eu me acho tão cansada,

ao voltar da batucada,

que tomei parte lá na Praça Onze…

Era o ano de 1934, e o samba tocou bem nas rádios. Carmen dobrou a aposta. Dois contos de réis se fizesse outro samba que alcançasse pelo menos metade da repercussão. Synval se esmerou e mandou Coração, que fez o dobro do sucesso.

Coração,
Governador da embarcação do amor,
Coração,
Meu companheiro na alegria e na dor…

A cantora sacou que o sucesso não fora acidental e aumentou a aposta. Três contos de réis se, etc. Synval então lhe entregou um dos sambas mais bonitos de todos os tempos: Adeus, Batucada.

Adeus, adeus,

Meu pandeiro de samba,

Tamborim de bamba,

Já é de madrugada…

O sucesso foi tão grande que virou prefixo musical da cantora, e foi a música mais cantada no seu enterro, junto com Tahí, de Joubert de Carvalho. Carmen ainda gravou outras obras de Synval: a marcha Amor! Amor (1936) e os sambas Moreno, Saudade de Você e Gente Bamba (1937).

A estrela partiu para os EUA, mas Synval continuou sendo gravado por aqui. Orlando Silva, Aurora Miranda, Trio de Ouro, Odete Amaral, Cyro Monteiro e Ataulfo Alves (que virou parceiro em Geme, Negro). Foi também parceiro de Herivelto Martins em Negro Artilheiro.

Em 1940, fundou a escola Império da Tijuca, para quem fez Sandália de Cetim e os sambas-enredo Brasil, Explosão do Progresso (1973) e As Minas de Prata (1974), com Mauro Affonso e Jorge Melodia.

Mesmo sendo fundador da UBC, da ABCA e da SBACEM, os direitos autorais não pagavam as contas. Synval voltou a ser mecânico.  Participou da I Bienal do Samba, da TV Record (1968), com o samba Marina interpretado por Noite Ilustrada. Em 1972 apresentou-se em shows com Mano Décio da Viola e Xangô da Mangueira. Só em 1973 conseguiu gravar seu único LP (RCA, série Documento). A pouca repercussão fez com que ele abandonasse de vez a vida artística. Morreu em 1994, quase esquecido.

Quase. Porque seus sambas continuam sendo cantados, e tem muita gente que regravou Adeus, Batucada. Gente como Ná Ozzetti, Ney Matogrosso, Carmen Queiroz ou Gal Costa estão aí pra manter iluminada a beleza deste samba.  Viva, Synval!