O mito da violência no cinema brasileiro

Outro dia um velho amigo, sujeito culto e não dado a falar besteira, resolveu comentar o massacre da escola de Realengo no seu Facebook. E soltou o chavão: “Só falta agora fazerem um filme. Cineasta brasileiro adora violência.”

Sei que muitas vezes alguém fala por impulso alguma coisa da qual se arrepende depois. Esperei algum tempo, pra ver se o cara se corrigia, mas nada. E, o que é pior, vários concordaram com a tese.

Bem, saiu ontem (11/04) a lista dos concorrentes ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2011. Na ponta, com 16 indicações, Tropa de Elite 2. Ué, será que meu amigo acertou? Bem, empatado em indicações, está Chico Xavier. Não assisti, mas duvido que seja uma apologia da violência. E Tropa de Elite 2 também não é apologético, mas crítico (embora tenha gente que não perceba). Reconheçamos, para simplificar, que aborda a violência urbana.

1 X 1, portanto.  Vamos aos outros filmes indicados:

Olhos Azuis, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, As Melhores Coisas do Mundo, Quincas Berro Dágua, O Bem Amado, Nosso Lar, 5 Vezes Favela (opa, temos que dividir os episódios aqui: alguns violentos, outros singelos, até líricos…), De Pernas pro Ar, Lula – O Filho do Brasil, O Sol do Meio Dia, Cabeça a Prêmio (o nome é suspeito, mas se trata de um drama rural. Tem romance e alguma violência..).

“Talvez este seja um ano atípico”, pensei. Conferi os indicados de 2010. O grande premiado foi É Proibido Fumar, que superou o mega sucesso Se Eu Fosse Você 2.  Caramba, será que meu amigo, tão sabido, falou bobagem?

Talvez estivesse se referindo aos documentários! Fui conferir a lista: Dzi Croquettes, O Homem Que Engarrafava Nuvens, José e Pilar, Uma Noite em 67 e Rita Cadillac – A Lady do Povo. Bom, aqui a violência perdeu por 5 X 0…

Ou seja, este é mais um mito repetido sem reflexão por aí, nas mesas dos botecos, nas salas de aula, em alguns programas de televisão. Gente que faz fila pra ver um policial com o Tom Cruise ou o DiCaprio, que idolatra o Scorcese e o Tarantino, mas espalha que quem curte violência é o cinema brasileiro.

Revendo a lista dos filmes indicados para o Grande Prêmio, me espanta a falta de violência, para dizer a verdade. Da violência contra os negros, os pobres, as mulheres, os índios, os animais… O cinema brasileiro andará meio alienado da sociedade onde é produzido? Uma cinematografia viva, dinâmica, não teme assunto ou tabu. Fala de amor e de morte. De guerra e de paz. De alegria e de tristeza. Pois a vida é assim, e deveria estar nas telas, tão grande quanto a fantasia.

Esse cara aí em baixo, vejam só, é exceção!

Anúncios

8 Responses to “O mito da violência no cinema brasileiro”


  1. 1 julio xavier 12/04/2011 às 8:48 pm

    Nenhum cinema é mais violento do que o americano. Quem mais distribui filmes no mundo é quem mais faz apologia da violência. Uma vez em casa institui um concurso com meus filhos, para ver quem achava primeiro um filme made in roliúde em que não aparecesse nem um soco, nem uma arma. Ainda estamos tentando achar….hahaha.

  2. 2 Daniel Brazil 13/04/2011 às 10:11 am

    Desde Picapau e Tom & Jerry que a pancadaria come solta por ali… Que diferença do Sítio do Picapau Amarelo ou do Castelo Rá Tim Bum!

  3. 3 Vânia Parreira 14/04/2011 às 1:06 pm

    Oi Daniel, bom dia e obrigada!

    Obrigada pela sua disposição em mostrar como podemos cair em mitos aos repetir generalidades sem pensar, por preguiça ou falta de hábito em refletir.
    Saudade dos papos nos botecos!!

    Beijo grande!

  4. 4 Daniel Brazil 14/04/2011 às 1:19 pm

    Bom te ler por aqui, Vania. Avise quando estiver em Sampa!

  5. 5 Jussara Xavier 14/04/2011 às 1:42 pm

    Dani, por isso não gosto de frases definitivas. Gostar ou não de violência é irrelevantes, seu amigo leu um provavel roteiro? Viu por que angulo o diretor escolheu contar a história?
    Depois dos 50 a gente começa a não ser tão definitivo. Falei da tragédia de Realengo no palavras, sem uma gota de sangue.
    bjs
    Jussara

  6. 6 Daniel Brazil 14/04/2011 às 1:54 pm

    Pois não é, Ju? Li tua resenha sobre Clarissa, do Veríssimo-pai, e achei muito bonita a homenagem às Clarissas do Realengo.
    Sabe que não li este livro? Coisa de moleque: “Ah, é livro pra menina!”. Outra frase-definitiva-besta, que abandonei faz tempo. Sinto que perdi coisas boas por causa isso.

  7. 7 Lucas 15/04/2011 às 7:29 pm

    Boa reflexão, e boa iniciativa de botar a mão na massa e de fato conferir a lista de filmes.
    Talvez seja mais apropriado pensar que o cinema brasileiro que se destaca mais no exterior seja aquele centrado na violência. Talvez também seja verdadeiro que a exposição midiática de filmes com teor violento seja maior, renda mais pano pra manga de programas televisivos e de comentários entre vizinhos. Palpites, talvez os fatos objetivos desmintam estas especulações.

  8. 8 Daniel Brazil 16/04/2011 às 3:02 pm

    Bem observado, Lucas. Até mesmo os grandes filmes românticos são mesclados pela tragédia, para atrair o público. Isso é mais velho que Shakespeare, vem lá dos gregos.
    Claro que a morte é algo essencial à vida. É o “unico problema realmente existencial”, como queria Camus. Mas quando se elimina o “resto” (amor, fraternidade, justiça, beleza, verdade, etc.) ficamos só com a parte mais amarga da fruta. A morte não é – não deveria ser – necessariamente violenta.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s





%d blogueiros gostam disto: