Que fim levou Rick Jones?

Há alguns anos li um conto que me impressionou muito: “1º de Janeiro É o Dia dos Mortos”. Passou a ser um modelo, para mim, de conto policial passado em São Paulo. Além da geografia precisa, há um clima meio angustiado, kafkaniano, que traduz muito a sensação de viver numa metrópole tão humana (leia-se: desumana, desigual, etc).

                O autor, Edmar Monteiro Filho, teve esse conto premiado no concurso Guimarães Rosa, da Radio França Internacional, em 1997. Como participei, em 2001, do mesmo concurso, acabamos nos aproximando. Pra completar, o cara é de Amparo, cidade natal de minha mãe, no interior de São Paulo.

                Através de um amigo comum, o também escritor Jadson Neves, acabamos trocando e-mails. No início deste ano ele me enviou seu último livro de contos, “Que Fim Levou Rick Jones” (Gráfica Foca, Amparo, 2010).

                O homem escreve bem pra burro. Domina os artifícios da língua a ponto de romper os limites sintáticos. Vez em quando tensiona o verbo, entorta a gramática, subverte a fluência do texto, se valendo de elipses que nos fazem tatear com os olhos, procurando as pontas da narrativa. Outras vezes faz o texto fluir de maneira lírica, inventando imagens, cenas e enredos que cantam.

                Gostei muito do conto mais curto de todos, Luto. Três páginas e meia, cuja leitura dá vontade de sair dançando com uma das personagens. Por ter lido de forma descontinuada o volume, por várias noites cansadas, posso ter perdido sutilezas de outras histórias. Mas hoje, nesta manhã de domingo, me emocionou profundamente o penúltimo conto, O Rei de Tonga, onde o batido mote do envolvimento de um homem com uma prostituta ganha novas cores, sons e sabores, além de um contraponto inusitado: a virada do milênio numa ilha perdida nos confins do oceano Pacífico.

                 Há outros contos notáveis. Predomina um clima realista, muitas vezes em primeira pessoa, com um leve tempero fantástico, cortazariano, que já se manifestava naquele primeiro conto que li. Edmar é internacionalmente brasileiro no sotaque, no cenário, nos personagens que inventa.  Um dia quero escrever como ele!

4 Responses to “Que fim levou Rick Jones?”


  1. 1 Jussara Xavier 18/04/2011 às 2:15 pm

    Quero ler,como acho?
    bjs
    Jussara

  2. 2 Daniel Brazil 18/04/2011 às 4:29 pm

    Vou perguntar ao autor sobre a distribuição, Ju! Você sabe: publicar um livro, hoje, é bem mais fácil que distribui-lo… É como fazer um filme, montar uma peça ou compor uma canção. Chegar até as pessoas é o maior desafio!

  3. 3 Edmar 24/04/2011 às 7:31 pm

    O Daniel é um bom amigo. Gentileza demais abrir espaço para os meus escritos. Queria agradecer muito e dizer à Jussara que basta enviar um e-mail para o endereço edmont@uol.com.br e lhe enviarei o livro.
    Abraço, Daniel


  1. 1 Que Fim Levou Rick Jones? « FÓSFORO | iComentários Trackback em 18/04/2011 às 3:07 am

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