Diários de Bicicleta

 Frank Zappa, compositor genial e guitarrista brilhante, não tinha uma opinião muito bondosa sobre a música pop e a crítica musical em geral. Certa vez ele soltou essa:

– Jornalismo musical é gente que não sabe escrever entrevistando gente que não sabe falar pra gente que não sabe ler.

Imagine o que ele diria sobre músicos que se metessem a escrever! Lembrei do bigodudo quando peguei o livro Diários de Bicicleta, do David Byrne (Amarylis, 2010). Prefácio de Tom Zé, bem adequado para a edição brasileira. O título, claro, é uma referência ao famoso diário de Che Guevara que virou filme do Valter Salles Jr.

O talking head passeia por várias cidades do mundo com a sua bike, entre shows e eventos, e descreve sensações e visões que capta durante o ato de pedalar. Passa por Buenos Aires, Londres, Sidney, San Francisco, Nova York, Manila e Istambul, entre outras.

Em Berlim, pedalando e refletindo sobre o antigo regime político, cita um diálogo entre uma alemã e um agente da Stasi, a temível polícia política comunista, descrito por Ana Funder no livro Stasiland.

“O livro relata uma linda cena kafkaniana em que uma mulher é chamada para um interrogatório após ser recusada em um emprego por suas atividades suspeitas.

– Por que você não está empregada?

– É você quem deveria me responder isso.

– Você é uma mulher inteligente, com certeza poderia encontrar um emprego.

– Não, estou desempregada.

– Isso é impossível. Não há desemprego na República Democrática.

Gostamos de pensar nessas histórias como algo típico da paranóia do centro europeu e do comportamento sob regimes socialistas ditatoriais. Mas imagine alguém sendo interrogado pelo Departamento de Segurança Interna dos EUA e dizendo algo como:

– Mas eu fui torturado, fui coagido a dar essa informação.

– Isso é impossível, nos Estados Unidos não torturam seus prisioneiros.”

Lendo as últimas notícias sobre Guantánamo, como a denúncia do WikiLeaks de que mais da metade dos presos são inocentes, acusados sem provas, lembrei de Byrne e fui atrás do trecho  que reproduzi acima.

O velho Zappa, se estivesse vivo, teria de admitir que há vida inteligente na música pop mundial. Pouca, mas existe!

 

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3 Responses to “Diários de Bicicleta”


  1. 1 Penélope Martins 28/04/2011 às 11:29 am

    certamente Frank Zappa também admitiria que seus post transitam muito bem da música para a literatura. dica com bom humor e elegância. parabéns Daniel. sempre bom ler aqui.

  2. 2 Daniel Brazil 28/04/2011 às 11:58 pm

    Obrigado, Penélope. É bom ter leitoras como você!


  1. 1 Diários de Bicicleta « FÓSFORO | iComentários Trackback em 28/04/2011 às 1:16 pm

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