Arquivo de junho \25\UTC 2011

Borges e a Mecânica Quântica

                Ganhei de presente da Carmen este livrinho de nome misterioso e instigante. Confesso que fiquei com certo receio ao ler na contracapa que o autor, Alberto Rojo, é físico. Leciona em Michigan, publicou vários livros sobre física quântica e de divulgação científica. Portenho de nascimento, manteve durante muito tempo uma coluna jornalística no Crítica de La Argentina,  onde certamente depurou a escrita, límpida, direta, sem rebuscamentos desnecessários.

Pra completar, o cara é músico. Violonista com discos gravados, tocou com Mercedes Soza e Charly Garcia, compôs peças populares e até sinfônicas. Intrigado, iniciei a leitura, e em poucas páginas me rendi ao talento investigativo e original do argentino.

Trata-se de uma coletânea de artigos que investigam a intersecção entre arte e ciência. A tese central é a de que, na história da humanidade, várias descobertas científicas foram intuídas ou antecipadas por escritores, pintores, músicos, poetas. E desfia uma série maravilhosa de exemplos, que começa em Homero, passa por Shakespeare e termina em, claro, Jorge Luís Borges.

Para Rojo, o famoso Jardim dos Caminhos que se Bifurcam é uma tradução perfeita do universo proposto pela física quântica. Borges teria sido o primeiro a enunciar uma alternativa para o tempo linear: tempos cíclicos, tempos múltiplos, espaço relativos, o Aleph do espaço-tempo.  O curioso é que o próprio Borges, entrevistado por Rojo, declarou que não entendia patavinas de Física. Ao receber uma breve explicação sobre os mundos paralelos que se tornaram possíveis depois da Física Quântica, declarou: “Como são criativos os físicos!”

Rojo pertence a esta rara espécie de cientista que tem alma de artista. Cultua Da Vinci – exemplar maior da espécie – e costura com habilidade citações de Poe, Cortazar, Calvino, Einstein, Van Gogh, Dante, H.G.Wells, Otavio Paz e até a Bíblia, sem perder o foco na tese que pretende demonstrar. Seu principal mérito, como cientista-escritor, é não parecer pedante ou professoral, mas um contador de histórias. Leitura fascinante!

O teatro no cinema

Tenho pensado muito em teatro, nos últimos dias. Minha relação com os palcos sempre foi a de espectador, sentadinho na platéia. No máximo, namorei uma estudante de arte dramática, no tempo de estudante.

Mas, trabalhando com audiovisual, tenho me deparado com o desafio de transpor a linguagem teatral para o vídeo. Tive uma experiência bacana com o Grupo Folias, no ano passado, que mostrei aqui. Outro vídeo legal foi sobre a montagem de El Quijote, que fiz com o grupo Pombas Urbanas.

O universo do teatro de grupo é fascinante. Não me interessa trabalhar com estrelas ou atores globais, mas com gente que abraça o teatro como um fazer coletivo, tanto na criação como na produção. E tenho conversado com alguns amigos sobre a linguagem adequada, o embate entre a forma e o conteúdo, a interferência da câmera sobre a performance do ator.

Esta semana, num papo com o Moreira, diretor do Engenho Teatral e uma das referências do teatro popular engajado em São Paulo, ele levantou a questão da linguagem. Ou melhor, do desafio representado pela transcriação do teatro nos chamados meios audiovisuais. Cada vez mais grupos utilizam o vídeo no palco, como elemento cênico ou dramático. Mas como fazer com que um registro em vídeo incorpore, enriqueça, dialogue com a linguagem teatral?

O cinema enfrentou este desafio muitas vezes, e poucas vezes superou o estágio de “teatro filmado”. Há maravilhosas experiências frustradas, e há modestas tentativas que acabam dando certo. O diretor inglês Peter Brook (Marat/Sade, Marabharata) talvez seja o mais insistente cultor desta conflituosa relação.

Impossível deixar de lembrar os filmes de Carlos Saura, por exemplo. O mais despojado, Bodas de Sangue, é o meu preferido, mas há quem argumente que dança não é teatro, mesmo em se tratando de Garcia Lorca. De qualquer modo, a câmera dança junto com os protagonistas, num salão de ensaio, de forma magnífica.

O Baile, de Ettore Scola, transcende o teatro filmado. A Flauta Mágica, de Bergman, adiciona algo à ópera de Mozart. E o que é o magnífico Arca Russa, de Sokurov, senão uma gigantesca encenação, com centenas de atores, onde a câmera é mais um personagem? O resultado é considerado cinema de invenção, mas ouso dizer que é um cinema embebido de teatralidade, onde o mais característico elemento da linguagem cinematográfica não existe: o corte.

Mas também não é teatro. Nada daquilo existia, antes do “câmera, ação!”. Como a encenação radical de Dogville, de Lars Von Trier, toda filmada num galpão, com ruas e paredes riscadas com giz no chão. É brechtiano, tem algo de Pirandello, mas não nasceu como teatro, e sim como obra cinematográfica.

Esta intersecção de linguagens cria um novo conceito, uma nova possibilidade de experimentação. E me transforma, de mero espectador, em ansioso expectador. Há um belo campo a ser explorado. O que virá por aí?

Estrada Real da Cachaça nas telas

“O documentário ESTRADA REAL DA CACHAÇA, dirigido por Pedro Urano, vai finalmente chegar às salas de cinema na próxima sexta-feira, 17 de junho.

O lançamento será na SESSÃO VITRINE em algumas capitais brasileiras (São Paulo, Recife, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Rio de Janeiro).

No Rio, o filme entra em cartaz no simpático Cine Jóia, recém inaugurado em Copacabana.

Gostaria de convidá-los a ir ver o filme no cinema. A princípio, ele fica apenas uma semana em cartaz. No entanto, caso haja procura do público, podemos ficar mais tempo (ou seja, temos que convocar as pessoas pra essa primeira semana!).
Peço que espalhem esse convite pelas redes de cada um de vocês.

Um abraço!  Flor.”

 Quem faz este convite é minha filha, Maria Flor. Este é o primeiro longa produzido por ela. A equipe de filmagem refez o trajeto da Estrada Real, por onde se escoava o ouro de Minas, mas em sentido inverso. De Paraty até Diamantina, a equipe visitou os velhos alambiques e canaviais, por onde a cana-de-açúcar entrou no estado que hoje é a Escócia brasileira.

            As gravações foram realizadas em 2005, e só agora o filme chega às telas. Flor tinha apenas 22 anos, mas enfiou o pé na trilha como se fosse uma tropeira veterana, dormindo em casas de taipa e enfrentando mosquitos e carrapatos. Não sei a quem ela puxou… Eis algumas fotos que ela me enviou, na época.

E aqui, um trailer do filme. Boa viagem!

Assista menos televisão!

Não sei bem o porque, de uns anos pra cá peguei ojeriza de TV. Não do veículo em si, mas da postura inercial de ficar prostrado na frente daquele eletrodoméstico à noite.  Qualquer idiota faz isso, e tento não parecer qualquer idiota (às vezes, sem sucesso). Considerando que estudei cinema, trabalhei em TV vários anos e escrevi/dirigi algumas centenas de horas televisivas, é de estranhar. Adoro cinema, mas acho bem chatinho ver um filme na TV. Uma experiência redutora, no mínimo. Mês passado fizemos uma assinatura de  TV digital aqui em casa e compramos um bom monitor, vamos ver se mudo de opinião. Semana passada até assisti um filme!

Mas a quantidade de lixo audiovisual não me anima. Adoro rir, mas detesto o humor rasteiro de pânicos, CQCs et caterva. Gosto de dramaturgia, mas não consigo acompanhar telenovela. Alimento-me de notícias, mas os jornais nacionais não me dizem nada que a internet não tenha antecipado horas antes. Passo minhas noites ouvindo música, escrevendo, bebendo em botecos, conversando,  lendo. Em casa, o computador virou o vício da vez, quase tão inercial quanto a TV, mas com a vantagem de requerer um pouquinho de ação mental e alguma participação física.

É por tudo isso que adorei estes comerciais da TVE espanhola, que propõem assistir… menos TV! Incrível, não? A cadelinha é sensacional, uma artista mais comovente que a maioria das atrizes globais. Experimente!

A dica foi do ótimo blog Cloaca News, linkado aí do lado.

Recife Frio

Um dos filmes brasileiros mais criativos, irônicos e inteligentes dos últimos tempos está disponível na rede. Recife Frio ganhou um monte de prêmios,  e é mais uma prova de que uma boa ideia, bem desenvolvida, vale mais que muitos milhões de reais aplicados sem um conteúdo que os sustente.

O diretor Kleber Mendonça Filho enveredou por uma linha que pode ser considerada uma vertente pós-moderna do cinema mundial: o falso-documentário. Ou melhor, uma exploração consciente dos limites entre o documentário e a ficção.

O conceito não é novo. Triste Trópico, o primeiro longa de Arthur Omar, já pulava a cerca destes territórios em 1974. O cruzamento de gêneros, a realidade posta em cheque, a intromissão da ficção na vida real, tudo isso foi experimentado de várias formas, até mesmo pelo telejornais de nossa criativa mídia. Jogo de Cena, o belo filme de Eduardo Coutinho, apenas repetiu um procedimento já cometido por Gugu Liberato ao entrevistar “ao vivo” um elemento do PCC, que posteriormente soubemos que era falso.

Mas teve muita gente que acreditou. E é assim que funcionam igrejas, partidos, estados. Que é a Bíblia senão uma fascinante mistura entre realidade e ficção que até hoje intriga os estudiosos? E a Ilíada? O cavalo de Tróia existiu? E a própria Tróia? E Homero?

Bem, não é preciso questionar o mundo, as aparências, o simulacro, para curtir Recife Frio. Aproveite!

 

 

 

A eterna mobilização

 Uma semana sem postagem, e a nuvem de informações anda cheia de raios e gorda de tempestades. Código Florestal, explicações de Palocci, sofrimento na Palestina, eleições no Peru, Grécia pede socorro à esquerda, Portugal aderna para a direita, assassinatos de lideranças rurais que denunciam desmatamento ilegal…

Cada vez mais, no mundo em que vivemos, o preço da liberdade é a eterna mobilização. Se vacilar, não pode isso, não pode aquilo, e ficar sentado na frente do computador não resolve nada. Os gregos (da Antiguidade) estavam certos: é preciso ocupar as praças, as ruas, os salões do poder, para defender a liberdade. Reparou que a verdadeira liberdade é totalitária? Não admite que nenhuma força se oponha a ela. Pense nisso, mas não enlouqueça.

Pra fechar o assunto do último post, veja como foi a Passeata pela Liberdade de Expressão, na reportagem feita pelo Arsenal.

                Tudo isso foi causado pela marcha anterior, onde a polícia de SP atacou os manifestantes com bombas e cassetetes.