O teatro no cinema

Tenho pensado muito em teatro, nos últimos dias. Minha relação com os palcos sempre foi a de espectador, sentadinho na platéia. No máximo, namorei uma estudante de arte dramática, no tempo de estudante.

Mas, trabalhando com audiovisual, tenho me deparado com o desafio de transpor a linguagem teatral para o vídeo. Tive uma experiência bacana com o Grupo Folias, no ano passado, que mostrei aqui. Outro vídeo legal foi sobre a montagem de El Quijote, que fiz com o grupo Pombas Urbanas.

O universo do teatro de grupo é fascinante. Não me interessa trabalhar com estrelas ou atores globais, mas com gente que abraça o teatro como um fazer coletivo, tanto na criação como na produção. E tenho conversado com alguns amigos sobre a linguagem adequada, o embate entre a forma e o conteúdo, a interferência da câmera sobre a performance do ator.

Esta semana, num papo com o Moreira, diretor do Engenho Teatral e uma das referências do teatro popular engajado em São Paulo, ele levantou a questão da linguagem. Ou melhor, do desafio representado pela transcriação do teatro nos chamados meios audiovisuais. Cada vez mais grupos utilizam o vídeo no palco, como elemento cênico ou dramático. Mas como fazer com que um registro em vídeo incorpore, enriqueça, dialogue com a linguagem teatral?

O cinema enfrentou este desafio muitas vezes, e poucas vezes superou o estágio de “teatro filmado”. Há maravilhosas experiências frustradas, e há modestas tentativas que acabam dando certo. O diretor inglês Peter Brook (Marat/Sade, Marabharata) talvez seja o mais insistente cultor desta conflituosa relação.

Impossível deixar de lembrar os filmes de Carlos Saura, por exemplo. O mais despojado, Bodas de Sangue, é o meu preferido, mas há quem argumente que dança não é teatro, mesmo em se tratando de Garcia Lorca. De qualquer modo, a câmera dança junto com os protagonistas, num salão de ensaio, de forma magnífica.

O Baile, de Ettore Scola, transcende o teatro filmado. A Flauta Mágica, de Bergman, adiciona algo à ópera de Mozart. E o que é o magnífico Arca Russa, de Sokurov, senão uma gigantesca encenação, com centenas de atores, onde a câmera é mais um personagem? O resultado é considerado cinema de invenção, mas ouso dizer que é um cinema embebido de teatralidade, onde o mais característico elemento da linguagem cinematográfica não existe: o corte.

Mas também não é teatro. Nada daquilo existia, antes do “câmera, ação!”. Como a encenação radical de Dogville, de Lars Von Trier, toda filmada num galpão, com ruas e paredes riscadas com giz no chão. É brechtiano, tem algo de Pirandello, mas não nasceu como teatro, e sim como obra cinematográfica.

Esta intersecção de linguagens cria um novo conceito, uma nova possibilidade de experimentação. E me transforma, de mero espectador, em ansioso expectador. Há um belo campo a ser explorado. O que virá por aí?

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8 Responses to “O teatro no cinema”


  1. 1 JUssara 20/06/2011 às 9:40 pm

    Puxa! Não sei o que dizer de seu dilema. Nunca vi um “teatro” bem filmado, sempre falta algo, ou é lento, ou perde a expressão do outro ator (se há close não é teatro), ou é uma interferência a câmara passa a atuar, o que causa incomodo…. Se você chegar a alguma conclusão me conta.
    bjs

  2. 2 Daniel Brazil 21/06/2011 às 10:50 am

    A única conclusão a que cheguei até agora, Ju, é que o resultado não é teatro nem cinema, mas outra coisa, ainda a ser definida. E sempre será uma experiência incompleta.
    É como assistir ao desfile de uma escola de samba pela TV: Nem com 200 câmeras simultâneas o impacto se aproxima do espetáculo ao vivo.

  3. 3 Daniel Brazil 21/06/2011 às 5:58 pm

    Alguns amigos estão me lembrando filmes, em off. O Jimmy fala de 12 Homens e Uma Sentença, a Carol fala de Armadilha Mortal.
    Há vários exemplos de peças que viraram filmes que não citei para a lista não ficar muito extensa. Se você pegar um autor como Shakespeare, há mais de 100 versões filmadas. Só o Orson Welles filmou Otelo, Macbeth e o Mercador de Veneza. Kurosawa também filmou Shakespeare, assim como Keneth Branagh…
    No Brasil, Nelson Rodrigues deve ser o campeão de peças filmadas!

  4. 4 JUssara 21/06/2011 às 7:39 pm

    Dani, existe centenas de peças filmadas, mas são adaptadas para o cinema . Aí na minha opinião é cinema e não teatro. Muda a linguagem, muda a leitura, às vezes para melhor! Shakespeare Apaixononado é bem legal, pois fala da feitura de Romeu e Julieta e sua encenação no palco durante o filme.
    Teatro filmado seria fazer o registro em pelicula mantendo a peça no palco com seus cenários próprios, será?
    bjs

  5. 5 Daniel Brazil 21/06/2011 às 7:48 pm

    Exatamente, Ju. Toda Nudez Será Castigada é cinema, na versão do Jabor. Ou o Trono Manchado de Sangue, adaptação de Macbeth por Kurosawa.
    Teatro filmado é texto fiel e encenação teatral, registrada em vídeo ou película. Não precisa ser no palco, já que muitas peças são encenadas ao ar livre ou em espaços alternativos, mas tem um jeitão inequívoco de… teatro!

    • 6 Flor 21/06/2011 às 8:05 pm

      Foi lançado a pouco o DVD de OS Sertões, de Zé Celso, que contou com três anos de filmagem e produção, cerca de mil pessoas envolvidas (diretamente) e quase 30 horas de material editado. Os episódios A Terra, O Homem I, O Homem II, A Luta I e A Luta II foram dirigidos por diferentes diretores. A peça já incorporava as câmeras na encenação, e as imagens produzidas ali, ao vivo, ressignificavam o espetáculo instantaneamente. Ainda não consegui assistir aos filmes (que claro, deixaram de ser a peça para virarem filme) mas acho que os caminhos estão se abrindo… Beijos!

  6. 7 Fábio Brazil 27/06/2011 às 4:14 pm

    Dani, essas questões sempre trazem outras e mais outras… Se cada linguagem se define pelo que lhe é irredutível, no teatro ( Artaud ) seria a presença do ator diante de uma consciência que o reconheça como tal, assim, tudo que é filmado deixa de ser teatro. Mas, acho que seria interessante perguntar também o que é o irredutível do Cinema e em que esse irredutível se perde ou se corrompe filmando teatro?
    Só para piorar a coisa, a dança, sempre a dança (!), está nadando de braçadas numa coisa chamada video-dança (que não é cinema (?), mas não é dança, pois rompe com a corporeidade e a sinestesia-corporal do ato de dança ). Seria o Bodas de Sangue, que você me fez rever e regostar, uma avô da video-dança? Mesmo que a dança esteja ali em função de uma narrativa exterior ao corpo – ilustrando essa narrativa com um conjunto fixo de passos – coisa que os contemporâneos se recusam a chamar de Dança?
    Enfim, entrei só para te chatear… Fábio.

  7. 8 Daniel Brazil 27/06/2011 às 7:16 pm

    A conversa se enriquece com tua participação, Fábio! É bom ouvir a opinião de quem vivencia este universo, criando e refletindo sobre os resultados alcançados.
    Na lista de irredutibilidades que ocorrem durante a transfusão/transcriação, eu incluiria o erro. Um dos motivos porque o teatro, a dança, o circo, nos emocionam de forma diferente é a possibilidade do erro. Aquele friozinho na espinha antes de um monólogo, de um dó de peito, de um salto mortal, é insubstituível! O cinema elimina o erro, o que o torna menos humano, em certo sentido. Incorpora outros erros, certamente, mas não sabe lidar com a gaguejada, o escorregão, a falha de memória, o espirro. Como não sabe, simplesmente elimina.
    O vídeo, menos ambicioso, pode registrar essas coisas. Mas aí vira “jornalismo”, pegadinha, vai parar na internet, não é considerado cinema. Embora o cinema cada vez mais se aproxime das mídias digitais (assim como o teatro, a música, a dança, etc), não perde a empáfia: “Erro, aqui não pode!”.


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