Borges e a Mecânica Quântica

                Ganhei de presente da Carmen este livrinho de nome misterioso e instigante. Confesso que fiquei com certo receio ao ler na contracapa que o autor, Alberto Rojo, é físico. Leciona em Michigan, publicou vários livros sobre física quântica e de divulgação científica. Portenho de nascimento, manteve durante muito tempo uma coluna jornalística no Crítica de La Argentina,  onde certamente depurou a escrita, límpida, direta, sem rebuscamentos desnecessários.

Pra completar, o cara é músico. Violonista com discos gravados, tocou com Mercedes Soza e Charly Garcia, compôs peças populares e até sinfônicas. Intrigado, iniciei a leitura, e em poucas páginas me rendi ao talento investigativo e original do argentino.

Trata-se de uma coletânea de artigos que investigam a intersecção entre arte e ciência. A tese central é a de que, na história da humanidade, várias descobertas científicas foram intuídas ou antecipadas por escritores, pintores, músicos, poetas. E desfia uma série maravilhosa de exemplos, que começa em Homero, passa por Shakespeare e termina em, claro, Jorge Luís Borges.

Para Rojo, o famoso Jardim dos Caminhos que se Bifurcam é uma tradução perfeita do universo proposto pela física quântica. Borges teria sido o primeiro a enunciar uma alternativa para o tempo linear: tempos cíclicos, tempos múltiplos, espaço relativos, o Aleph do espaço-tempo.  O curioso é que o próprio Borges, entrevistado por Rojo, declarou que não entendia patavinas de Física. Ao receber uma breve explicação sobre os mundos paralelos que se tornaram possíveis depois da Física Quântica, declarou: “Como são criativos os físicos!”

Rojo pertence a esta rara espécie de cientista que tem alma de artista. Cultua Da Vinci – exemplar maior da espécie – e costura com habilidade citações de Poe, Cortazar, Calvino, Einstein, Van Gogh, Dante, H.G.Wells, Otavio Paz e até a Bíblia, sem perder o foco na tese que pretende demonstrar. Seu principal mérito, como cientista-escritor, é não parecer pedante ou professoral, mas um contador de histórias. Leitura fascinante!

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3 Responses to “Borges e a Mecânica Quântica”


  1. 1 dalila teles veras 29/06/2011 às 12:40 pm

    Olá, caro Daniel,
    diante dos irrestíveis argumentos, tratarei de encomendar o volume rapidinho. Essa questão do tempo é, via de regra, a angústia dos poetas e nada como boas leituras para ameniza-la.
    forte abraço
    dalila

  2. 2 Daniel Brazil 29/06/2011 às 10:04 pm

    O livrinho é provocante, Dalila. Você não vai se arrepender!

    Abraço,


  1. 1 BORGES E A MECÂNICA QUÂNTICA « FÓSFORO | iComentários Trackback em 25/06/2011 às 2:48 am

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