Arquivo para julho \29\UTC 2011

Clariô e o Hospital da Gente

O Teatro da USP (TUSP), na histórica rua Maria Antonia, teve a excelente iniciativa de promover um encontro/mostra chamado Militância Teatral na Periferia, neste mês de julho, sob a curadoria de Sebastião Milaré. Apresentações, debates e vídeos abordam o riquíssimo universo dramático que rola nas quebradas dessa metrópole insana.

Alguns grupos conheço de perto. Participei de trabalhos com o Engenho Teatral e o Pombas Urbanas. Um vídeo que dirigi (El Quijote), com trupes latino americanas, foi exibido na última quarta-feira. Outros grupos, como Brava Companhia, Buraco do Oráculo, Dolores Boca Aberta e Trupe Artemanha também enriqueceram o evento.

Ontem fui ver o Grupo Clariô, com o espetáculo Hospital da Gente. Saí emocionado e com as mãos ardendo de tanto aplaudir. Textos de Marcelino Freire, costurados com inteligência pelo diretor Mário Pazini, são magnificamente interpretados por sete mulheres que se multiplicam em cena.

O belo cenário (Alexandre Souza, com iluminação de Will Damas) reproduz um favela, com engenhosas soluções visuais e uma sensacional interação com o público. A certa altura, somos convidados a entrar na peça, conhecendo os fundos da “favela”, onde rola uma cena engraçadíssima. Conseguiram o feito de adaptar ao TUSP o espaço cenográfico que mantêm em sua sede, em Taboão da Serra.

O tom se alterna entre tragédia e comédia. Uma sucessão de monólogos revela personagens que vivem no limite da miséria. A prostituta, a macumbeira, a crente, a mulher que apanha do marido, a catadora de lixo, a analfabeta, a mulher que vende os filhos. Entre os quadros, canções e alguns diálogos bem calibrados dinamizam a ação.

E que atrizes! Todo o elenco é forte, mas o impacto causado pelas personagens vividas por Martinha Soares, Naloana Lima e Naruna Costa (também responsável pelas canções e direção musical) é definitivo. Mais um brilhante exemplo de arte feita fora do mercado, fora do padrão televisivo, fora do esquema comercial, mas dentro, muito dentro do grande teatro universal.

O Rapto das Sabinas/ A Curra

O rapto das Sabinas é um episódio lendário que teria ocorrido na época da fundação de Roma. O exército chefiado por Rômulo captura mulheres da tribo dos sabinos, que viviam na região, dando início a uma série de conflitos.

Há várias representações do Rapto na história da pintura. Uma das mais célebres foi feita por volta de 1635, pelo pintor flamengo Rubens (1577/1640).

Em 1966, no Brasil, a pop art dava seus primeiros passos. A paródia, a citação e as referências políticas começavam a aparecer nas obras dos jovens artistas da época. Um deles, Lênio Braga, partiu da obra de Rubens para fazer uma pouco sutil crítica à ditadura militar do período. O quadro de 1,30 x 1,30, chama-se A Curra. Os cavaleiros são substituídos por soldados em tanques de guerra, que seqüestram duas mulheres nuas. Uma é verde, a outra amarela.

 Previsto para ser exposto na Bienal de São Paulo, em 1967, o quadro foi censurado, assim como uma série de gravuras que representavam gorilas fardados. O artista entrou para o rol dos mal vistos pela ditadura, e teve obras recolhidas e “desaparecidas”. Não chegou a ver a volta da democracia, pois morreu em 1973, aos 42 anos.

Só hoje me toquei que Lênio Braga teria completado 80 anos em junho de 2011. Desculpe aí, cara! (Nunca consegui chamar meu pai de “velho”!)

O cálice do Criolo

Não sou um fã de rap, confesso. Gosto demais de música pra gostar de rap, que originalmente nasceu como poesia ritmada (rhythm and poetry). Nada contra rimas e ritmos, mas na origem do gênero faltavam alguns elementos básicos para minha fruição, como melodia ou harmonia. Também não sou fã de poesia declamada, mas respeito quem faz e curte. Na Rússia é arte nacional, cultuada por milhões de pessoas, em escolas, botecos e saraus.

Acompanhei o surgimento do movimento hip hop na periferia de São Paulo e do ABC, há mais de vinte anos (gravei um vídeo com Nelson Triunfo em 91!), e sempre vi como socialmente interessante e musicalmente pobre. Claro que surgiram alguns bons poetas no meio, e os Racionais foram um marco cujo impacto é definitivo. Gente como Thaide, Rappin’ Hood, Gog ou MV Bill são mentes inquietas que ampliam os caminhos do rap. Alguns “brancos espertos” surfaram na onda, como Gabriel o Pensador ou Fausto Fawcett, deixando sua marca.

Gosto muito do filme Antônia (2007), de Tata Amaral, que levou Negra Li ao estrelato e mostra o lado feminino do rap. O que sempre me incomodou foi a submissão acrítica ao modelo americano de rap. A imitação dos trejeitos, dos scratches, dos passos de break, das roupas, colares e óculos escuros.

Há alguns anos ouvi falar de Criolo Doido. Ativista do rap , criou a bem sucedida Rinha dos MC’s, em São Paulo, que virou circuito em todo o estado. Lançou um disco em 2006 (Ainda Há Tempo), e entortou a cabeça do pessoal com Nó na Orelha, de 2010.

Gostei de umas faixas, menos de outras. Espiei alguns vídeos na rede, e a cara de Criolo (que não é literalmente um crioulo) foi ficando familiar. Até que topei com este vídeo, gravado em condições precárias, num bar, sem playback, em que o poeta faz uma homenagem à canção Cálice, de Gilberto Gil e Chico Buarque.

Na verdade, ele canta outra letra, sobre a mesma melodia, sem respeitar muito a métrica. E me arrepiei do mesmo jeito que havia acontecido quando ouvi a canção original pela primeira vez. A voz embargada de Criolo,  cantando a cappella, transmite tudo. E o fato de citar Milton, e não Gil, se deve ao fato da interpretação do mineiro (junto com o carioca) ter se tornado a referência auditiva para esta grande, imensa canção.

Criolo a tornou ainda maior.

Ginger Rogers, 100 anos

Ginger Rogers faria 100 anos no dia 16 de julho. Aos poucos, com toda a admiração que temos pelo internet e às mídias digitais, o século XXI vai cobrindo de esquecimento alguns personagens marcantes do século anterior. Ginger Rogers vai ser sempre lembrada como a mais constante parceira de Fred Astaire. Este é mais cultuado, citado, imitado. Não sou grande conhecedor dos musicais da era dourada do cinema americano, mas sempre me embatuquei com algumas questões.

Tá, Fred era leve, criativo, elegante. Até cantava, e bem. Mas – reparem – Ginger fazia todos os movimentos que ele, montada num salto alto e em vestidos que, muitas vezes, mais atrapalhavam que ajudavam. O cabelo podia cair na cara num rodopio, mas ela sempre estava lá, no final, sorridente e igual a ele.

Igual? Nunca foram tratados assim, nem por homens nem por mulheres. Todos idolatram Astaire, e no máximo admitem que Ginger foi uma boa acompanhante. Claro, não tinhas as pernas de Cyd Charisse… mas quem tinha? Comparar uma mulher com uma deusa é cruel. Ginger era quase comum, a mulher que poderia ser a balconista da loja de sapatos, a florista, a caixa de supermercado. Nunca foi uma vamp, uma conquistadora, mas apenas a moça que gostava de dançar. Sem a beleza de Rita Hayworth, sem a voz de Judy Garland.

Hoje acordei disposto a consertar algumas injustiças desse mundo. Já que não posso lutar contra todas, vou começar por esta: Ginger Rogers dançava bem pra burro! Parem de falar de Fred Astaire! Querem saber? Gene Kelly era muito melhor!

Confesso que escrevi isso pensando em minha mãe, que adorava Fred Astaire. Claro que, no fundo,  ela queria ser… Ginger Rogers!

A história do Grupo Forja

Há um mês reencontrei um velho colega dos anos 80: Tin Urbinatti. Ator, diretor e autor teatral, o cara foi o criador do grupo Forja, formado por metalúrgicos de S. Bernardo no final de 1979. Elétrico como sempre, Tin me deu dois DVDs com registros históricos das peças e alguns depoimentos.

Poucos dias depois, recebi o convite para o lançamento do livro Peões em Cena, contando a história do grupo. O endereço era, no mínimo, curioso: Livraria Marxista, no centro de São Paulo. Pequena, mas bem montada, conta com uma sala-auditório, onde tive o prazer de assistir o monólogo Depois de Tudo. Tin continua afiado. Não por acaso, é professor de interpretação e improvisação na Fundação das Artes, em S. Caetano.

Livro de amigo, sabe como é, muitas vezes a gente compra pra prestigiar. Não é o caso. Tin é um artista consciente, fundou o grupo de teatro da Ciências Sociais da USP, foi premiado pela APCA. Curiosamente, fomos colegas no Banco do Brasil, e nos conhecemos na militância sindical.

Mergulhei na leitura e voltei aos heróicos anos 80. A emoção me pegou. Revi as grandes greves, os movimentos contra a ditadura, o teatro dentro dos sindicatos. Como bancário, tive o prazer de assistir ao Treta na Rua, grupo que agitava o calçadão do Centro Velho com suas interpretações satíricas durante as campanhas salariais. No ABC, o grupo Forja era a grande referência de teatro operário, e suas encenações marcaram época.

   Infelizmente, os dois grupos não existem mais. A relação entre os sindicatos e a cultura ainda é precária, talvez mais do que naquele tempo. Os metalúrgicos ainda promovem o maior festival de música do ABC, um ou outro sindicato lança um concurso de crônicas, de poesias ou de fotografias. O teatro, uma arte mais coletiva e interativa, anda bem abandonado pelos sindicalistas. Que diria Brecht desse descaso? Felizmente o teatro de grupo, de comunidade, continua ativo e múltiplo em São Paulo. O questionamento social através da arte se deslocou para fora dos sindicatos, firmando raízes nos bairros populares, entre as mulheres e os jovens (muitos, aliás, filhos de operários). Há mais de 60 grupos em atividade na cidade, nenhum mantido por sindicatos de trabalhadores…

O livro é bem documentado. Reúne críticas e ensaios de estudiosos como Iná Camargo Costa e Sábato Magaldi, além de várias fotografias e o texto original de quatro peças do repertório. Peões em Cena (Hucitec, 2011), a história do Grupo Forja, deve ser lido e divulgado, não só por quem se interessa por teatro, mas por qualquer um que acredite na capacidade do ser humano de traduzir suas angústias e conflitos através da arte. Em qualquer época, em qualquer classe social. Valeu a pena, Tin!

Phenix é um pássaro

Neste inverno, pode ser uma salvação…