A história do Grupo Forja

Há um mês reencontrei um velho colega dos anos 80: Tin Urbinatti. Ator, diretor e autor teatral, o cara foi o criador do grupo Forja, formado por metalúrgicos de S. Bernardo no final de 1979. Elétrico como sempre, Tin me deu dois DVDs com registros históricos das peças e alguns depoimentos.

Poucos dias depois, recebi o convite para o lançamento do livro Peões em Cena, contando a história do grupo. O endereço era, no mínimo, curioso: Livraria Marxista, no centro de São Paulo. Pequena, mas bem montada, conta com uma sala-auditório, onde tive o prazer de assistir o monólogo Depois de Tudo. Tin continua afiado. Não por acaso, é professor de interpretação e improvisação na Fundação das Artes, em S. Caetano.

Livro de amigo, sabe como é, muitas vezes a gente compra pra prestigiar. Não é o caso. Tin é um artista consciente, fundou o grupo de teatro da Ciências Sociais da USP, foi premiado pela APCA. Curiosamente, fomos colegas no Banco do Brasil, e nos conhecemos na militância sindical.

Mergulhei na leitura e voltei aos heróicos anos 80. A emoção me pegou. Revi as grandes greves, os movimentos contra a ditadura, o teatro dentro dos sindicatos. Como bancário, tive o prazer de assistir ao Treta na Rua, grupo que agitava o calçadão do Centro Velho com suas interpretações satíricas durante as campanhas salariais. No ABC, o grupo Forja era a grande referência de teatro operário, e suas encenações marcaram época.

   Infelizmente, os dois grupos não existem mais. A relação entre os sindicatos e a cultura ainda é precária, talvez mais do que naquele tempo. Os metalúrgicos ainda promovem o maior festival de música do ABC, um ou outro sindicato lança um concurso de crônicas, de poesias ou de fotografias. O teatro, uma arte mais coletiva e interativa, anda bem abandonado pelos sindicalistas. Que diria Brecht desse descaso? Felizmente o teatro de grupo, de comunidade, continua ativo e múltiplo em São Paulo. O questionamento social através da arte se deslocou para fora dos sindicatos, firmando raízes nos bairros populares, entre as mulheres e os jovens (muitos, aliás, filhos de operários). Há mais de 60 grupos em atividade na cidade, nenhum mantido por sindicatos de trabalhadores…

O livro é bem documentado. Reúne críticas e ensaios de estudiosos como Iná Camargo Costa e Sábato Magaldi, além de várias fotografias e o texto original de quatro peças do repertório. Peões em Cena (Hucitec, 2011), a história do Grupo Forja, deve ser lido e divulgado, não só por quem se interessa por teatro, mas por qualquer um que acredite na capacidade do ser humano de traduzir suas angústias e conflitos através da arte. Em qualquer época, em qualquer classe social. Valeu a pena, Tin!

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3 Responses to “A história do Grupo Forja”


  1. 1 dalila teles veras 11/07/2011 às 8:57 pm

    Olá, Daniel,
    Também sou admiradora do Tin e do magnífico trabalho que desenvolveu com o grupo Forja no Sindicato dos Metalúrgicos, fato que, aliás, citei no livro Seduzir para a Poesia – História do Grupo Livrespaço 1983-1994, grupo de poetas de Santo André contemporâneo do Forja. O início dos 80 foi uma época de grande efervescência cultural pelas bandas do ABC, época em que os sindicalistas eram sensíveis a esse tipo de quase (hoje…)
    Já tenho o livro, um admirável registro desse trabalho. Parabéns por registra-lo.
    dalila teles veras

  2. 2 Daniel Brazil 12/07/2011 às 3:16 pm

    Tinha certeza de o Forja não escaparia de tua visão atenta, Dalila! Quando se fala em cultura no ABC, a tua presença é constante e iluminadora.


  1. 1 A história do Grupo Forja « FÓSFORO | iComentários Trackback em 08/07/2011 às 8:20 pm

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