Arquivo de agosto \29\UTC 2011

Os saraus do Butantã

            Sarau é algo que, para muitos, deve parecer anacrônico. “Coisa mais primitiva, pessoas que se juntam para tocar, cantar e falar coisas sem muito lógica. Pitecantropos devem ter feito isso nas noites ancestrais em volta da fogueira, não?”

“Coisa boa e eterna, exemplo de civilidade. Reunir pessoas  para trocar generosamente valores não materiais, como música e poesia. E eu, que moro e circulo no Butantã há quase trinta anos, sinto que ainda nos agrupamos em volta da fogueira, de vez em quando.”

O trecho entre parênteses faz parte de uma mensagem que enviei à minha amiga Artemiza, quando ela me convidou para um sarau em sua casa. Boa cantora, costuma dar canjas no Bar do Cidão e outras rodas de respeito. No Butantã é uma das mais entusiasmadas promotoras de saraus, que reúnem boa parte dos músicos do bairro. Profissionais e amadores se misturam fraternalmente, todos trazem comidinhas e bebidinhas, e a cantoria rola até altas horas, entremeadas por versos e causos.

            De lá pra cá, rolaram vários. Alguns antológicos, que lamento não terem sido gravados. Uns bombados, com mais de cinquenta pessoas. Outros, quase íntimos, quinze pessoas em torno de uma garrafa de vinho, de poesia e de música. “Não precisamos de muita coisa, só uns dos outros”, como dizia Carlito Maia.

            E, neste sábado, rolou aqui no meu chatô. Minimalista, como a casa pede e comporta. Mesmo assim, contou com flauta, clarineta, cavaquinho, violões, vozes e percussão. De Tom Jobim a Hermeto. De Pixinguinha a Cartola. É uma alegria poder compartilhar da intimidade de grandes músicos.


Fui deitar alta madrugada, “feliz como um pitecantropo que viu as estrelas antes de dormir”.

Bethânia e Paulinho

Há algum tempo ganhei de minha filha um DVD com o filme Saravah, do francês Pierre Barouh. Em 1969 o cara chegou ao Brasil disposto a fazer um documentário sobre a música brasileira. Descolado, se enturmou rapidamente e fez imagens preciosas, que se tornaram antológicas. Quem mais filmou Baden Powell tocando com Pixinguinha e João da Baiana?

Os contemporâneos vão se divertir com estas cenas, filmadas em mesa de boteco. Os hoje grisalhos Paulinho da Viola e Maria Bethânia, ainda muito jovens, relembrando sambas do Salgueiro e da Portela, bebendo, fumando e rindo.

 

O francês tinha bom faro, ouvido apurado e uma sorte desse tamanho!

Encontro no Engenho Teatral

Sexta feira passada participei de uma mostra de vídeos sobre teatro, realizados pela VIATV. São três programas ainda inéditos, enfocando os grupos Pombas Urbanas, Engenho Teatral e Folias D’Arte. Os vídeos fazem parte de uma série em formato televisivo, e foram dirigidos respectivamente por Aline Sasahara, Tadeu Knudsen e Daniel Brazil.

São grupos que driblam as fórmulas do teatro comercial, que ousam, que experimentam, e que marcam seu trabalho pela gestão, criação e produção coletiva dos espetáculos. Todos estão na estrada há mais de uma década, e são um capítulo essencial do teatro paulista.

                Só na Capital, existem mais de 40 experiências ativas do que podemos chamar de Teatro de Grupo. Se expandirmos para o litoral e o interior, o número cresce. O que move esses artistas? Não é o dinheiro, certamente. É o engajamento na função social da arte, na relação com a comunidade, na pesquisa estética, no questionamento dos valores do mundo.  A vontade de dizer algo de forma diferente.

                Fiquei feliz por ver ali reunidos representantes dos três grupos e também da Brava Companhia, lá do Campo Limpo. A participação entusiasmada da professora Iná Camargo aqueceu o debate. Gente muito especial, que revela verdadeira paixão pelo que faz. E a hospitalidade do Moreira, da Iraci e do pessoal do Engenho merece ser registrada. As comidinhas e bebidinhas estavam ótimas. Que mais encontros como esse se realizem!

Viajo porque preciso…

Existe filme que almeja ser romance. Épico, dramático, intimista, histórico, de formação. Uns, mais modestos, se contentam em ser crônica. E há outros – poucos –  que são poesia.

Poesia crua, de beira de estrada, com tons secos de agreste. Filme-experiência, uma câmera na mão e nenhuma idéia pré-concebida na cabeça. Resultado do encontro de dois cineastas que juntaram as imagens, as sobras, os restos de seus filmes anteriores (O Céu de Suely; Cinema, Aspirinas e Urubus), e resolveram contar uma história sobre enxurros de viagem, lembranças, vestígios e perdas. Demorei muito pra assistir este filme. Vou demorar muito mais para esquecer.

Revanche da natureza

A Natureza bem que tenta embelezar as feiuras desta cidade… (e o desleixo da Prefeitura!).

Maria Madalena dos Anzóis Pereira

Sempre cismei com um verso, ouvido no milênio passado, eco de alguma marchinha carnavalesca. Creio ter ouvido minha mãe cantarolar. Daquelas coisas brejeiras e inusitadas, que acabam grudando na memória para sempre:

 “Maria Madalena dos Anzóis Pereira/ Teu beijo tem aroma de botões de laranjeira”.

 Claro que fui fisgado por estes “Anzóis” meio surrealistas no sobrenome da mocinha. Como alguém tem um nome desses? Parecia coisa do Lamartine, que gostava dessas maluquices.

Há algum tempo, mano Marcelo me emprestou uma biografia do Pedro Caetano, autor do imortal “É com esse que eu vou”. Parceiro de muita gente, com Claudionor Cruz fez um samba-choro que muito consideram o mais perfeito do gênero, Nova Ilusão, que tem uma gravação definitiva feita por Paulinho da Viola no disco Memórias: Cantando. Ali descobri que a tal dos Anzóis era criação de Pedro Caetano, com direito a causo. Certa vez foi abordado numa festa por uma jovem que lhe pediu uma música. Ele perguntou seu nome, e ela respondeu: “Maria Madalena de Assunção Pereira”. Ele percebeu que o nome tinha uma métrica bem dividida, um alexandrino perfeito, e a melodia saiu com facilidade.

Dias depois, no estúdio de gravação, foi avisado de que a censura getulista impedia a utilização do nome de pessoas em música, sob o pretexto de evitar constrangimentos. Por sugestão de César Ladeira, trocou o Assunção pelos Anzóis, certo de que ninguém teria um nome como esse. Corria o ano de 1942, e foi registrada como samba-choro e não marchinha, como eu pensava.

 

 Passam-se quase 70 anos. Estava eu esta semana passeando pela exposição de artesanato do Piauí, que comentei aqui, e parei no stand de cerâmicas de Poty e da Serra da Capivara. Coisas lindas, de bom gosto e delicado acabamento. De repente, meu coração batucou mais rápido. Bem na minha frente estava ela: Maria Madalena dos Anzóis Pereira.

Só havia uma, inconfundível. Perguntei pra artesã, uma mulata simpática, se ela conhecia a marchinha de Pedro Caetano. Deu risada da minha tentativa canhestra de cantarolar, mas confessou nunca ter ouvido. “Não é do meu tempo!”. Antes que eu fosse reduzido a um macróbio, me apressei em dizer que não era do meu tempo, também.

O que importa é que ela hoje é minha. Está aqui em casa, mora comigo. Olhe bem: Quem mais poderia se chamar Maria Madalena dos Anzóis Pereira?

O ABC de José de Souza Martins

Quando era estudante, na década de 80, tive meu primeiro contato com a obra de um dos mais respeitados mestres de sociologia da USP, o professor José de Souza Martins. Mesmo sem ter sido aluno direto, muitas vezes fui buscar em seus livros o conhecimento e as informações que necessitava para fazer meus documentários.

Na década de 90, trabalhando em Santo André, estivemos juntos algumas vezes. Nos Congressos de História do Grande ABC suas participações sempre foram as mais disputadas pelo público, formado por estudantes, professores e operários. Tive o prazer de ouvi-lo contando histórias, isto é, transmitindo conhecimento de forma prazerosa e cordial.

Quando realizei um vídeo sobre o Rio Tamanduateí (O Rio Que Passa Em Nossa Aldeia, 1993), ele topou participar, com grande entusiasmo. Fez questão de acompanhar a equipe de filmagem e mostrar o local das escavações arqueológicas no bairro Fundação, em São Caetano, onde as primeiras olarias produziram os tijolos que construíram São Paulo de Piratininga. Transportados por batelões, telhas e tijolos eram desembarcados na Ladeira Porto Geral, subindo para o Pateo do Colégio. Uma aula inesquecível!

Pois neste sábado, 13 de agosto, às 11 horas, José de Souza Martins vai lançar dois livros em Santo André, na Livraria Alpharrabio. Um deles, do qual vai ler alguns trechos, é de memórias: Uma Arqueologia da Memória Social (Autobiografia de um Moleque de Fábrica). Como diz Dalila Teles Veras, o livro trata de “memória que é também sociologia, retrato da vida cotidiana na região do ABC, brasileira, universal, mas também e sobretudo, literatura, alta literatura, para o conhecimento e o deleite estético, para o simples prazer de ler”.

            Pra completar, Martins lança também A Política do Brasil Lúmpen e Místico, (Contexto, SP, 2011). O título intrigante prenuncia o que ele sabe fazer de melhor: mergulhar fundo na alma, nos modos e costumes do povo brasileiro e dali tirar lições de refinada sabedoria.

             Nem preciso dizer que estarei lá, na fila dos autógrafos. O endereço da Alpharrabio é Rua Eduardo Monteiro, 151 – Fone 4438-4358 – Santo André. Até lá!