Arquivo para setembro \29\-02:00 2011

De Bach a Jethro Tull

O rock nasceu com a eletricidade, com a mistura do blues, rebeldia juvenil e guitarra plugada. Segunda metade do século XX, daquele jeitinho que todos conhecem: três acordes, um balanço mais pegado, uma franja, um rebolado.

Nos anos 60, explodiu. Psicodelismo, beatlemania, Stones, Hendrix, Janis, Woodstock, Ilha de Wight. Nessa época, o rock flertava com a música de todos os tempos. Gente culta, atrevida, que escutava com atenção os clássicos, e colocava sua energia em fazer música para ser ouvida por milhões de jovens, sem tornar a coisa rasteira e comercial. Queriam o impossível.

Minhas bandas favoritas pós-Beatles eram o Jethro Tull, King Crimson e Led Zeppelin. Claro que isso abria o leque para apreciar atentamente vários experimentos de ELP, Curved Air, Deep Purple, Genesis, Gil, Caetano, Milton, Raul, Rita Lee…

Mas Ian Anderson e sua turma – o Jethro Tull, nome de um personagem inglês do século XVIII – tem lugar especial até hoje no coração deste amante do choro, do samba e das sinfonias. O cara colocou a flauta no cenário roqueiro. Bom compositor, cantor e músico, brincou com a Pavane de  Fauré, subverteu a renascentista Greensleaves, jazzificou Bach.

Jethro Tull toca a Bourée do mestre de Leipzig desde os anos 60. Virou trilha de um filme estranho e belo (Road to Salina/La Route de Salina, 1970), onde um casal de adolescentes tinha uma relação meio incestuosa na praia. Foi o primeiro filme que vi com nus frontais, mostrados com delicadeza.

Até hoje, não consigo esquecer das cenas de estrada (que não encontrei no YouTube, infelizmente), pontuadas pela flauta hipnótica de Mr. Ian Anderson  Por incrível que pareça, este foi também o último filme de Ms. Rita Hayworth (a mãe). Os mitos se tocam no espaço imaginário do cinema…

Ian Anderson hoje é um próspero criador de salmão, mas não consegue largar o palco. Como ele escreveu numa canção, Too Old to Rock’n Roll, Too Young to Die! (aliás, lançada com um dos clipes mais hilários da história do rock, em 1976).

          Existem dezenas de gravações ao vivo da Bourée rolando na rede, inclusive uma bem bacana com a Neue Philharmonie Frankfurt, de 2005.   Escolhi uma versão de 2002, bem próxima da original, do LP Stand Up (1969). Pra matar a saudade…


O outro lado de Floripa

Andei uns dias em Florianópolis, gravando um seminário e fazendo entrevistas. Muito trabalho, num hotel na Pontas das Canas, longe de tudo. Fora de temporada, é um deserto. Não há botecos em torno, nem farmácia ou mercadinho.

Na manhã de quinta feira acordei cedo e caminhei até o mar, antes de tomar café. E mais uma vez me encantei com essa ilha maravilhosa, tão maltratada pelos governantes, cada vez mais congestionada e poluída. Contudo,  ainda podemos topar com cenários como este:

 

Aí é só dar mais alguns passos e virar à esquerda:

E depois, virar novamente à direita:

E isso com uma máquina desse tamaninho, ó….

Uma lembrança da Terra

Se você fosse passar dez anos em Marte, que imagem levaria da Terra?

A pergunta foi feita para 110 fotojornalistas, de todos os cantos do nosso planetinha. Há vários brasileiros na lista. Vale a pena espiar as escolhas, que muitas vezes não tem nada de “artísticas”. Cada imagem vem acompanhada de uma justificativa, e dá pra perceber como funciona a cabeça de um fotógrafo.

A maioria pensa como gente comum, ou seja, levaria uma foto da família, dos filhos, da namorada. Claro, fotógrafo é gente. Mas, como todo ser humano, há uns que fazem escolhas estranhas.

O segundo maior grupo é formado pelos sinceramente preocupados com o planeta (o nosso, não Marte). Levariam fotos que lembram as belezas naturais ou apontam o desequilíbrio ambiental.  Alguns indicam fotos de pessoas comuns, gente, multidões. Pode ser que o inferno sejam os outros, mas quando você está sozinho, sente falta.

Há os exibidos, do tipo “vejam como sou culto”. Há os vaidosos, que levam “a minha melhor fotografia”. Há os modestos, que escolhem fotos de outros, imagens marcantes que os influenciaram. Inclusive, há três fotos que se repetem nas escolhas…

Vale a pena ver. Há imagens para todos os gostos, algumas belíssimas. É só clicar aqui.

(Foto de Harrison Schmitt, feita na missão Apolo 17, em 1972)

Politicamente incorreto

Laerte, fino observador do comportamento humano.

Ouvindo o Youtube

Ando ouvindo muita música de concerto. Tenho uma boa coleção de gravações (vinis e CDs), que em certas fases da vida fica meio esquecida. Outras vezes, ouço com intensidade. Já trabalhei com isso, na TV Cultura, escrevendo roteiros de programa sobre música “erudita” (não gosto dessa palavrinha…).

                Como estou com um computador novo há três meses, investi em boas caixas de som. Gosto de escrever ouvindo música instrumental (vozes cantando me atrapalham, confundem o raciocínio), mas o troca-troca constante  de CDs também cansa.

                Foi aí que descobri o Youtube. Claro que já frequento há anos o endereço, mas nunca tinha notado a quantidade de concertos, sinfonias, quartetos, solos de piano e peças de câmara, de tudo quanto é época, que se esparramam pelo bendito canal.

                Sim, foi inventado para satisfazer a música pop, a necessidade cada vez maior de colar imagens às canções de consumo imediato. Registro de shows é a segunda função, muitas vezes com sofrível qualidade de áudio. Mas o pessoal das salas de concerto descobriu ali um modo de veicular suas interpretações, de divulgar novas obras, de revelar antigas preciosidades. E como tem coisa boa!

                Agora, sento no computador, clico no Youtube e digito “Mozart clarinet“.  Aparece uma lista de peças, desde o maravilhoso Concerto até os quintetos, com vários intérpretes. Escolho um (recomendo o Concerto com Martin Fröst, muito bem captado), abro uma página do Word e começo a escrever, feliz.

                Depois passo para sonatas de Beethoven,  por exemplo. Ou as descobertas barrocas e renascentistas de Jordi Savall. Ou Schubert, Schumann, o eterno Bach. Ás vezes procuro o estímulo da música do século XX, mais tensa, esticando os limites da eufonia. Outras vezes busco intérpretes consagrados: do magistral Nelson Freire até pianistas como Valentina Lisitsa ou a exuberante Atsuko Seta.

Claro que encontramos também gravações clássicas de Arrau, Horowitz, Menuhin, Rostropovich ou Glenn Gould, mas a captação costuma ser mais precária. Interessa mais a estudiosos e musicólogos, pelo registro histórico. Há uma grande quantidade de novos intérpretes, muitos deles asiáticos, que gravam em condições acústicas cada vez mais próximas da perfeição. E a captação dos vídeos em HD é tão boa que às vezes esqueço que a música deveria ser só fundo sonoro, e abandono o que deveria escrever, mergulhado na miragem da tela ampliada, na vertigem da música mais perfeita que a humanidade produziu.

Vai ver é por isso que tenho escrito tão pouco…

Protesto criativo

 

O protesto mais original do 7 de Setembro, em Brasília. Sugiro que estendam à família Sarney esta medida profilática!

Liberdade de Expressão

Tenho alguns amigos que acreditam piamente no mito da imprensa como baluarte da liberdade de expressão. Faz sentido, na teoria. Afinal, só existe liberdade com imprensa livre, certo?

O problema é diferenciar “imprensa livre” de “dono de jornal”. Hoje em dia temos acesso às edições diárias da maioria dos jornais do mundo, via internet, e a leitura comparada é arrasadora. Basta abrir qualquer jornalão da velha imprensa brasileira para ver como faz nesse país falta um grande jornal, independente, crítico e plural, que seja porta-voz de princípios realmente democráticos.

A sessão de cartas do Estadão parece o Tea Party tupiniquim. Sempre os mesmos nomes, malhando o Lula desde que ele foi candidato pela primeira vez. Não há qualquer compromisso com a verdade factual. Basta escrever uma frase engraçadinha e ofensiva ao governo (ou aos petistas) e será publicada. Revela a mentalidade tosca e mesquinha do velho jornal, que deveria ser impresso com as páginas amareladas, pra ser coerente.

A Folha pretende ser mais moderna. Abre espaço para o contraditório, na seção de cartas. Nos editoriais e nas manchetes, beira o patético. Depois de uma grande ascenção, quando surfou nas ondas das Diretas Já, se achou capaz de derrubar governos com a derrocada do Collor, e até hoje pensa que pode. É o jornal mais esquizofrênico do Brasil.

O problema não é ter posição, que fique claro. Jornais-empresas devem ter posição, expressa em editorial, e abrir espaço para o debate. Seria obrigação defender a democracia, a liberdade de expressão, a busca pela verdade.

Mas a Folha, ah, a Folha… Além de publicar ficha falsa da candidata Dilma (um exemplo – entre vários – de malfeito de fundo político), a campeã da liberdade de expressão não admite crítica ou gozação. Acreditam? O mesmo jornal que publica as tiras de Glauco, Laerte & Angeli, que mantém a escrachada coluna do Zé Simão, não admite que se faça piada com a sua sagrada marca.

Dois irmãos, Mário e  Lino Bocchini, criaram uma página na internet – terreno de liberdade de expressão, por princípio – satirizando a Folha. Batizaram, apropriadamente, de Falha de São Paulo, expressão que já era corrente em qualquer boteco. Brincaram com as mancadas, os erros, as mentiras estampadas em manchete pelo jornalão dos Frias. E se estreparam. A “campeã da liberdade de expressão” tascou um processo contra os rapazes, proibindo que utilizassem seu santo nome pra fazer piada. Não podem falar mal da Folha, ironizar, brincar com as contradições do jornalão. “Que beleza!”, como diria aquele comentarista esportivo.

                Participei, no ano passado, de um ato de desagravo aos bravos editores da “Falha de SP”. Gravei entrevista com o Lino, divulgamos na internet. E nesta semana lavei a alma com a notícia de que a Comissão de Legislação Participativa do Congresso Nacional aprovou a realização de uma audiência pública na Câmara dos Deputados sobre a censura da Folha contra o blog.

                Nenhum deputado se posicionou contra (alguns deviam estar distraídos…). Estão convidados a depor os responsáveis pela Falha (os autores do blog) e pela Folha (Otávio Frias, o editor-executivo Sérgio Dávila, Taís Gasparian, advogada da Folha, que entrou com a ação, e Vinícius Mota, secretário de Redação). Convidados também diretores da OAB e da FENAJ, além do CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

                Vai ser divertido. A Folha defendendo a censura a um blog, e exigindo dinheiro a cada vez que citarem o seu nome. Os blogueiros defendendo o direito de fazer gozação com quem quiserem (Alô, Laerte, alô, Angeli, alô Zé Simão!) O jornalão, que posa de defensor da liberdade da expressão, mostrando a verdadeira face por trás da máscara. Se é que terão coragem de aparecer e defender a censura abertamente…

                Convido aqueles amigos que acreditam na “imprensa como baluarte da liberdade de expressão” para acompanhar de perto, com muita atenção. E não porque eu seja contra a imprensa, muito pelo contrário: porque sou contra a censura, qualquer espécie de censura.

Glauber Letrista

Os 30 anos da morte de Glauber Rocha estão sendo lembrados aqui e ali, talvez não com a intensidade que merecia. Esta noite vão exibir Deus e o Diabo na TV, e isso me lembrou um artigo que escrevi há três anos para a Revista Música Brasileira. Divido aqui com vocês, juntamente com a lembrança de um dos discos que mais ouvi na infância, muito antes de conhecer o filme.

É natural que as pessoas tentem se expressar de várias formas. Artista, então, nem se fala. Tem músico que escreve livro, atriz que canta, pintor que toca um instrumento, compositor que filma, dançarina que fotografa, palhaço que faz sonetos, e assim por diante. É só colocar esse tema na roda que logo pintam vários exemplos.

Outro dia falávamos aqui, na mesa do boteco, da atuação do cineasta Ruy Guerra como parceiro de Chico Buarque. Até onde vai a caneta de um e de outro nas canções de Calabar, por exemplo? E a influência do dramaturgo Paulo Pontes nas canções de Gota Dágua?

Íamos nesse papo ameno, pontuado pela lembrançaa de belas canções, quando alguém lembrou Glauber Rocha. Espanto entre os mais jovens. Sorriso espertinho entre os mais velhos. Sim, o mais alucinado dos cineastas brasileiros também faz parte da música popular brasileira, como letrista.

Quem conhece a obra do baiano sabe que a música exerce papel essencial na textura dramática de seus filmes. Em seu segundo longa – Deus e o Diabo na Terra do Sol – convocou para fazer a trilha o jovem Sérgio Ricardo, talentoso compositor e intérprete que despontava no início dos anos 60. Não por acaso, era irmão de Dib Lutfi, diretor de fotografia e operador de câmera que iria fazer vários trabalhos no Cinema Novo, inclusive o filme seguinte de Glauber, Terra em Transe.

O próprio Sérgio já namorava o cinema, como diretor e roteirista. Feito o nobre pacto, criaram juntos uma espécie de ópera popular onde a narrativa e as canções se ligavam de forma orgânica. A música complementa e resolve estados emocionais e dramatúrgicos de forma nunca igualada no cinema brasileiro. Glauber entregou para Sérgio Ricardo trechos do roteiro. Versos tirados do repertório folclórico, misturados de tal forma que não sabemos onde acaba a apropriação e começa a criação. Procedimento moderníssimo, pela cartilha de Ezra Pound. Cantigas de lavadeiras, versos de repentistas, refrões de cantadores de mafuá.

Todos conhecem os versos do diálogo cantado:

“– Se entrega, Corisco!

– Eu não me entrego, não! Eu não sou passarinho, pra viver lá na prisão!”

Ou a conclusão apoteótica do coro:

– “O sertão vai virar mar, e o mar vai virar sertão!”.

Sérgio Ricardo, nascido no interior de São Paulo e criado na bossa nova carioca, não tinha nada de nordestino, mas conhecia bem a música daquelas bandas e era apaixonado por imagens. Gravou a trilha com violão e voz, instigado por Glauber. Foi um encontro de gigantes, que resultou numa obra ímpar, em todos os sentidos. Com uma ajudinha de Villa-Lobos, claro.

Embora não tenham mais trabalhado juntos, a experiência foi fecunda. Glauber escreveu, pouco depois: “Muito mais do que nos livros, é na música popular brasileira que se encontra a verdadeira história e a verdadeira sociologia do Brasil”. Exagero? Bem, Glauber foi exagerado em tudo que fez, e se não fosse não seria Glauber. Como ele dizia, “A arte tem que ter pretensão. Artista modesto não é artista”.

Que grande letrista o mundo perdeu…


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