Glauber Letrista

Os 30 anos da morte de Glauber Rocha estão sendo lembrados aqui e ali, talvez não com a intensidade que merecia. Esta noite vão exibir Deus e o Diabo na TV, e isso me lembrou um artigo que escrevi há três anos para a Revista Música Brasileira. Divido aqui com vocês, juntamente com a lembrança de um dos discos que mais ouvi na infância, muito antes de conhecer o filme.

É natural que as pessoas tentem se expressar de várias formas. Artista, então, nem se fala. Tem músico que escreve livro, atriz que canta, pintor que toca um instrumento, compositor que filma, dançarina que fotografa, palhaço que faz sonetos, e assim por diante. É só colocar esse tema na roda que logo pintam vários exemplos.

Outro dia falávamos aqui, na mesa do boteco, da atuação do cineasta Ruy Guerra como parceiro de Chico Buarque. Até onde vai a caneta de um e de outro nas canções de Calabar, por exemplo? E a influência do dramaturgo Paulo Pontes nas canções de Gota Dágua?

Íamos nesse papo ameno, pontuado pela lembrançaa de belas canções, quando alguém lembrou Glauber Rocha. Espanto entre os mais jovens. Sorriso espertinho entre os mais velhos. Sim, o mais alucinado dos cineastas brasileiros também faz parte da música popular brasileira, como letrista.

Quem conhece a obra do baiano sabe que a música exerce papel essencial na textura dramática de seus filmes. Em seu segundo longa – Deus e o Diabo na Terra do Sol – convocou para fazer a trilha o jovem Sérgio Ricardo, talentoso compositor e intérprete que despontava no início dos anos 60. Não por acaso, era irmão de Dib Lutfi, diretor de fotografia e operador de câmera que iria fazer vários trabalhos no Cinema Novo, inclusive o filme seguinte de Glauber, Terra em Transe.

O próprio Sérgio já namorava o cinema, como diretor e roteirista. Feito o nobre pacto, criaram juntos uma espécie de ópera popular onde a narrativa e as canções se ligavam de forma orgânica. A música complementa e resolve estados emocionais e dramatúrgicos de forma nunca igualada no cinema brasileiro. Glauber entregou para Sérgio Ricardo trechos do roteiro. Versos tirados do repertório folclórico, misturados de tal forma que não sabemos onde acaba a apropriação e começa a criação. Procedimento moderníssimo, pela cartilha de Ezra Pound. Cantigas de lavadeiras, versos de repentistas, refrões de cantadores de mafuá.

Todos conhecem os versos do diálogo cantado:

“– Se entrega, Corisco!

– Eu não me entrego, não! Eu não sou passarinho, pra viver lá na prisão!”

Ou a conclusão apoteótica do coro:

– “O sertão vai virar mar, e o mar vai virar sertão!”.

Sérgio Ricardo, nascido no interior de São Paulo e criado na bossa nova carioca, não tinha nada de nordestino, mas conhecia bem a música daquelas bandas e era apaixonado por imagens. Gravou a trilha com violão e voz, instigado por Glauber. Foi um encontro de gigantes, que resultou numa obra ímpar, em todos os sentidos. Com uma ajudinha de Villa-Lobos, claro.

Embora não tenham mais trabalhado juntos, a experiência foi fecunda. Glauber escreveu, pouco depois: “Muito mais do que nos livros, é na música popular brasileira que se encontra a verdadeira história e a verdadeira sociologia do Brasil”. Exagero? Bem, Glauber foi exagerado em tudo que fez, e se não fosse não seria Glauber. Como ele dizia, “A arte tem que ter pretensão. Artista modesto não é artista”.

Que grande letrista o mundo perdeu…

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