Arquivo para outubro \31\-02:00 2011

Drummond e o saci

Hoje é o dia D, de Drummond. Bacana a idéia de criar um dia D para um de nossos maiores poetas. Uma ocasião para se reunir e ler, declamar, comentar, homenagear o itabirano mais famoso deste mundo, vasto mundo. Talvez daqui a alguns anos vejamos muita gente se reunindo em botecos mineiros no dia 31 de outubro, da mesma forma como se reúnem nos pubs irlandeses para o  Bloomsday, em 16 de junho. Vai ser difícil comparar o tamanho das tribos, mas desconfio que haja mais botecos em Minas que pubs em todo o planeta. E mais mineiros que irlandeses…

                Mas hoje também é o Dia do Saci, criado para combater a influência colonialista do ralouím americano. Introduzido por algumas escolas de inglês, há duas décadas, espalhou-se com praga por escolas particulares, clubes e salões de festa de gente que macaqueia tudo o que o povo americano faz, abandonando as origens. Complexo de vira-lata, como diria o velho Nélson Rodrigues.

                Fico feliz de ver o Dia do Saci se firmando, recebendo adesões, virando lei, sendo adotado em boas escolas. Sou fã do saci desde as primeiras leituras de Lobato. Participei do movimento pró-saci no final dos anos 90, peregrinei até Botucatu (sede da ANCSaci – Associação Nacional dos Criadores de Saci), me solidarizei com São Luiz do Paraitinga (sede da Sosaci – Sociedade dos Criadores de Saci). Fizemos uma histórica Festa do Saci no Bar do Bilu, no Butantã, em 2003, que solidificou o movimento em São Paulo. Participei com orgulho do batismo da Travessa do Saci, em Ilhabela.

Ilustração: Iara Teixeira

Talvez Drummond tenha escrito alguma poesia sobre o saci, mas desconheço. É certo que, numa crônica de 1972, demarcou as diferenças entre o saci-hominídeo e o saci-pássaro, também conhecido como matinta-pereira, ou Matita-Perê, que virou música de tom Jobim. Sei também que era amigo de Ziraldo, outro grande criador de sacis.

De qualquer forma, descobri essa imagem genial, onde o poeta Carlos conversa com um saci, à beira mar. É a prova real de que poetas e sacis existem!

O segredo de Arícia Mess

Quando jovem, me incomodava ouvir que tal canção tinha uma “versão definitiva” na voz do intérprete X. Dava-me a impressão de coisa imutável, petrificada, inalcançável para as gerações seguintes. Um ponto de vista conservador, contra o novo.

 Com o tempo, percebi que isso nada mais era que um baita elogio. Não exclui necessariamente a concorrência, mas estabelece um parâmetro, um degrau difícil de alcançar. Depois, mergulhando mais fundo na música brasileira, me rendi ao chavão.  Há interpretações irrepetíveis. Aquelas versões ditas definitivas que, por diversas circunstâncias, conciliam a explosão e a prece, a luz e a pedra, o momento e o eterno.

Quem ouve Elizeth Cardoso cantando Barracão de Zinco, acompanhada por Jacob do Bandolim, sabe do que estou falando. Ou Milton cantando San Vicente. Tim Maia imortalizando Azul da Cor do Mar. Melodia e sua Magrelinha. Caetano em Terra. Gil em Domingo do Parque, quem ousa competir? “Gal cantando Balancê”, como diz o verso de Caetano. Ou cantando Folhetim, ou Antonico, ou Vaca Profana. E Elis, cortando os pulsos em Atrás da Porta? Dalva de Oliveira, Vassourinha, Orlando Silva, Luiz Gonzaga, Tonico e Tinoco, Roberto Carlos, Cazuza, Jackson do Pandeiro… E as gravações de Maria Bethânia, tantas vezes definitiva, de Chico Buarque a Raul Seixas? Como ouvir “Um Índio”, depois dela? Nem com o autor…

Pequenos cantores tentam imitar, grandes cantores fogem da comparação e procuram caminho próprio. O risco de cantar um sucesso de Clara Nunes é enorme, em qualquer roda de samba. Quando o resultado é muito bom, ainda é aquém, e sempre será.

Mas algumas vezes a regra falha. O holofote se abre, deixa de existir só um mito sob o halo. Alguns intérpretes loucos/divinos se arriscam, ultrapassam o medo do ridículo e das comparações, e se ombreiam ao “original”. Superar é coisa impossível, convenhamos. Mas que alguém chegue junto é um prêmio, um alento, uma sacudida nos valores estabelecidos.

Não é uma revolução, entenda bem. Quem canta Cartola como se fosse um rap ou um rock pratica uma subversão (sonoridade maliciosa: sub versão).  O impacto real é o de quem entra no mesmo terreno sagrado, com as mesmas armas, e duela sem apelações.

Aconteceu comigo algumas vezes, assistir uma “versão definitiva” se esfarelar na minha frente. Gal gravou “Sua Estupidez” para sempre, até que um dia Ná Ozzetti sussurrou de tal forma que transformou a canção. Melodia cantando Cazuza. Ou Célia reconstruindo Adoniran.

Hoje tive outro alumbramento. Arícia Mess ousou se apropriar de Black is Beautiful, canção emblemática de uma época, imortalizada por Elis Regina. A composição dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle estourou na época da ditadura, e tinha uma carga simbólica muito grande. Black Panthers, Black Power, toda uma tomada de consciência da negritude que despontava no final dos anos 60, e seria bastante reprimida na década seguinte.

A branca Elis, de forma emocional. incorporou o papel de porta-voz daquele momento. A rua do Ouvidor estava cheio de brancos horríveis (alguns fardados…), e isso precisava mudar. A interpretação bluesy, cheia de glissandos e portamentos, era rasgada, arrepiante.

Arícia Mess não precisa gritar. Num clipe simples e genial, aparece com maquiagem pesada, carnavalesca, quase surreal. Canta de forma sedutora, de olhos fechados, sentindo a melodia na alma. No bis, vai aos poucos limpando a maquiagem. A pele negra se revela, magnífica, senhora da canção e do direito de querer.

Arícia Mess está com um novo CD (Onde Mora o Segredo). Se tiver a qualidade desta canção/clipe, é imperdível.


Fora da ordem

Alguma coisa está fora da ordem…E meu coração está dentro!

Vídeo da Sofia e do Victor Sá, o cara do Arsenal.

O interesse da mídia

A síntese perfeita de grande parte de nossa imprensa. Principalmente os noticiários na TV…

Voto Distrital

Há muito tempo não leio a (in)Veja, aquela decadente revista semanal que se especializou em deturpar e distorcer a realidade brasileira. Quando esbarro com uma, no consultório da dentista, me surpreendo que ainda exista gente com algum bom senso que leia ou anuncie naquilo.

Esta semana, um amigo me enviou cópia de um artigo da malfadada publicação, fazendo uma defesa do voto distrital. A “reporcagem” elenca, de forma involuntariamente caricata, uma série de prós que mostrariam a enorme vantagem do sistema. Sobre os contras, nenhuma palavra…

Não é, de fato, uma matéria isenta, mas uma defesa de posição. Um panfleto que começa de um jeito estúpido, que me fez ter um ataque de riso. Argumentam, como maior mérito do sistema, que se as últimas eleições fossem pelo voto distrital, o PT teria eleito no mínimo 15 deputados a menos. Claro, a revista sabidamente assume posição contra o PT (enquanto recebe milhões em assinaturas do governo tucano de SP. Coincidência, né?).

 Não sou filiado ao PT, não participo de suas discussões. Mas não passa pela minha cabeça que, se as regras do jogo fossem outras nas últimas eleições, o PT – ou qualquer outro partido – não teria se preparado, refeito estratégias, indicado nomes nos “distritos”, feito campanha direcionada ao novo formato. Ninguém entra em campo pra disputar uma partida de rúgbi tendo estudado apenas as regras do futebol, certo?

Mas a revista passa candidamente essa “informação”. Usando cálculos confusos, diz que o time do PT confundiria cesta com rede, trave de futebol com o H do rúgbi. É por causa de chutes como esse que o hebdomanário da Abril vêm perdendo influência, respeitabilidade e leitores. Não é, definitivamente, uma revista confiável. Nem sequer inteligente, ao soltar uma batatada como essa em chamada de capa.

Quer saber quais os outros itens da “defesa do voto distrital”? Leia aqui, com prós e contras, como deve ser feito em jornalismo sério, e tire suas conclusões.

O carro dos meus sonhos

Ontem eu praguejava contra as carroças importadas de luxo, estrupícios poluidores feitos de borracha, ferro e vidro, que entopem as ruas de São Paulo. Um sujeito no bar me perguntou:
– Se você tivesse dinheiro, não teria um?
Respondi:
Se tivesse dinheiro, compraria um carro elétrico!
Ele não se deu por satisfeito:
– E se você tivesse muuuito dinheiro?
Resposta, na lata:
– Eu fabricaria carros elétricos!

A Ocupação de Wall Street

É bem reveladora a timidez com que as notícias sobre a ocupação de Wall Street  chegaram aos nossos jornais e TVs. Enquanto a ‘primavera árabe” foi motivo de manchetes e fotos de primeira página, a rebelião popular surgida no coração do capitalismo internacional foi abafada até o limite. Felizmente a internet está aí para disseminar informação sem censura.

Sintomático, o evento deixa esfarrapadas algumas bandeiras do imperialismo americano. Na casa dos outros, divulguem; na nossa, ocultem. O mesmo procedimento da grande imprensa em relação aos escândalos da Assembléia legislativa paulista ou mineira (com as raras exceções de praxe, claro).

Enfim, é isso aí. Dono de jornal tem lado, e não se preocupa muito com isenção e fidelidade aos fatos. Me parece, pelo pouco que li, que o movimento em Wa(r)ll Street é um dos fatos políticos mais importantes do ano. Muita coisa vai mudar, a partir deste movimento não-partidário (mas altamente político, no sentido grego – e nobre – da palavra).

Gostei muito deste texto entusiasmado da ativista canadense Naomi Klein. Boa leitura!


O Ó do Nuno Ramos

Sempre achei besteira essa coisa de discriminar artista plástico que escreve, dançarina que pinta, músico que faz poesia, arquiteto que canta. As pessoas têm à disposição todos os canais possíveis para expressar sua sensibilidade, sua busca estética, sua maneira de interferir no mundo. Já briguei com amigo por ouvir que “Caetano não pode dar opinião sobre tudo”. Ah, então é assim: você pode, eu posso, mas Caetano não?

Ou Gil. Ou o porteiro do prédio, o motorista do ônibus, o juiz de futebol, o deputado. Sim, até os deputados podem! Num mundo onde a generalização do gosto é cada vez mais rasa (e intencional), há uma perigosa tendência a respeitar somente a opinião dos especialistas, os donos de um só discurso, os monotemáticos. E o mundo acadêmico tem uma parcela de culpa nisso aí, há séculos.

Artes plásticas, no Brasil (no terceiro mundo? No segundo? No primeiro? Hoje qual é o segundo, afinal?) ainda é um campo de atuação artística visto de forma romântica. Um iluminado coloca num espaço físico – uma tela, um mural, um ambiente – sua visão sobre certo aspecto do mundo, da vida, da alma. É como se o sujeito não falasse, não soubesse escrever, cantar, dançar, degustar, interpretar, transcodificar. Certa vez, me encantei ouvindo uma velha artesã contar a sua vida. Nenhum escritor teria realizado tal feito, com aquela graça e originalidade. Ela escrevia de forma oral, e sua cerâmica refletia seu saber.

Nuno Ramos é artista plástico consagrado, mas não acomodado. Suas instalações são provocativas, até mesmo inquietantes. Jamais vou esquecer o impacto de “111”, obra que tive a oportunidade de (… sentir? Penetrar? Vivenciar?) nos anos 90. Cera, tubos de vidro, fumaça, fotografia, areia, parafina, óleo queimado, cinzas, urubus, qualquer inutensílio pode integrar o universo criativo de Nuno Ramos. Ele problematiza a arte, em cada gesto.

E expande isso para a música popular, para a poesia, para o texto denso. Fã de Paulinho da Viola, parceiro de Rômulo Fróes, pratica na música a mistura da tradição com a inovação. Se não é tão impactante quanto suas obras mais, digamos, palpáveis, ainda assim são dignas de atenção.

Demorei pra encarar os seus escritos. O cara também é um escritor compulsivo, tem alguns títulos publicados. Seu livro Balaço era perfurado por uma bala… Nestes dias, encarei o Ó, 280 páginas premiadas com o Portugal Telecom de 2009, o que não é pouca coisa.

De cara, é impossível definir um gênero. Parece o diário de um louco, cheio de impressões e devaneios. À medida que nos aprofundamos, temos a impressão de que há um sentido maior, complexo, altamente sofisticado, que amarra todas as intenções.  Como ocorre com  suas obras plásticas, enfim, se quisermos uma comparação simplista.

Mas há pormenores, pedregulhos, faíscas, desvios, larvas fascinantes de linguagem. Achados semânticos, imagens que nos fazem parar a leitura, fechar os olhos e imaginar estranhos universos. Prosa poética, de alto calibre, que parte dos limites inaugurados por Clarice Lispector na literatura brasileira e vai muito além (perdão, fãs da bruxa ucrano-pernambucana!).

Gente que gosta de ler com lápis na mão vai sublinhar várias frases em cada página. Gente que gosta de história com começo-meio-e-fim vai odiar. E quem gosta de ver o salto dos outros sobre o abismo, mesmo sem ter a coragem de fazer o mesmo, vai se admirar. Começo a desconfiar de que Nuno Ramos é um escritor que, às vezes, tenta reconstruir seus textos de forma concreta, tateável, sensorial. Um escritor do tempo, das coisas perecíveis, das sensações mundanas, porém imortais. Experimente!

PS: Ah, a resposta do post anterior é A, B e C (Nuno Ramos) e D (Clarice).

Um plástico enigma literário

Vou propor a você um pequeno desafio. Faça de conta que está no vestibular, e tem de escolher a alternativa certa (pode ser múltipla escolha). Qual dessas opções saiu da pena de Clarice Lispector, uma das mais inconfundíveis escritoras brasileiras, e qual nasceu do cinzel de Nuno Ramos, um dos mais inconfundíveis artistas plásticos brasileiros?

1 ) A vida inteira, rascunho de uma outra, iria se espalhando, sonsa e bêbada, em avenidas tão estreitas que nem sempre um passo nosso caberia, e toda linha de contorno seria interrompida e torta, descontínua.

2) Deixo para trás a mancha vermelha, deixo para os corvos o armário espatifado e a mulher sonora, cujos dentes agora rangem, e feito um boneco de cera volto à minha mesa, fechando o livro como quem encerra a cena.

3) Não há pele que me prenda, nem voz que me convenha – não caibo em meus pés, nem nos passos. Se olharem meus olhos verão que nunca dormi, se examinarem minha boca verão que nunca bebi, em meus intestinos que nunca comi, tudo que fiz foi querer, querer…

4) Meus defeitos, eu vos adoro, minhas qualidades são tão pequenas, iguais às dos outros homens, meus defeitos, meu lado negativo é belo e côncavo como um abismo. O que não sou deixaria um buraco enorme na terra.

Na próxima postagem dou a resposta, com as devidas explicações. Sossegue, não há pegadinha. São trechos dos livros Perto do Coração Selvagem e Ó, que acabo de ler. E aqui não há reprovação nem recuperação. Você só tem a ganhar!

Três coisas sobre Melancolia

Saímos pensativos do cinema, neste sábado. Trocamos poucas palavras no metrô até o Butantã. Ao chegar em casa, Carmen fez uma observação inusitada:

1 – “A festa de casamento é puro teatro. Todos já sabem o que vai acontecer.”

Boa. Não vi nenhum crítico fazer essa observação. Isso explica a amargura da mãe, o laissez-faire do pai, o comportamento imbecil do patrão, o abandono da foto da futura casa, a partida conformada do noivo rejeitado? Talvez… E remete à crítica das aparências do primeiro filme do Dogma 95, Festa de Família.

Abrimos um vinho e conversamos sobre o tema do fim do planeta, explorado em várias obras de ficção científica. Ela lembrou de Encontro com Rama, de Arthur Clarke. Eu pensei em On The Beach, de Nevil Shute (pelo clima psicológico, não pelo motivo da extinção). E claro, me ocorreram filmes como O Sacrifício, de Tarkovski, influência reconhecida por Lars Von Trier. E então…

2 – Justine (Kirsten Dunst, magnífica) é Melancolia, Claire (Charlotte Gainsboug, tocante) é Terra. Essa observação não é original, conferi na rede que outros intuíram isso. Mas o choque das irmãs é bastante metafórico, e tenta ser anulado, no final, de forma delicada. Na sequência final, as mãos se tocam, não se chocam. Será Von Trier um nazista gentil?

Mais uma taça de vinho, e comecei a sonhar. E descobri que Justine está errada quando diz “só existe vida na Terra, e por pouco tempo”. Prepare-se para a terceira revelação:

3 – Melancolia é habitada. Maior é o drama de quem vive naquele planeta errante, tão azul e belo quanto o nosso, sabendo que um dia vai se chocar com algum obstáculo mortal. Eles criaram uma sociedade perfeita, equilibrada, justa e ambientalmente correta. Só não contavam conosco no meio do caminho…


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