Três coisas sobre Melancolia

Saímos pensativos do cinema, neste sábado. Trocamos poucas palavras no metrô até o Butantã. Ao chegar em casa, Carmen fez uma observação inusitada:

1 – “A festa de casamento é puro teatro. Todos já sabem o que vai acontecer.”

Boa. Não vi nenhum crítico fazer essa observação. Isso explica a amargura da mãe, o laissez-faire do pai, o comportamento imbecil do patrão, o abandono da foto da futura casa, a partida conformada do noivo rejeitado? Talvez… E remete à crítica das aparências do primeiro filme do Dogma 95, Festa de Família.

Abrimos um vinho e conversamos sobre o tema do fim do planeta, explorado em várias obras de ficção científica. Ela lembrou de Encontro com Rama, de Arthur Clarke. Eu pensei em On The Beach, de Nevil Shute (pelo clima psicológico, não pelo motivo da extinção). E claro, me ocorreram filmes como O Sacrifício, de Tarkovski, influência reconhecida por Lars Von Trier. E então…

2 – Justine (Kirsten Dunst, magnífica) é Melancolia, Claire (Charlotte Gainsboug, tocante) é Terra. Essa observação não é original, conferi na rede que outros intuíram isso. Mas o choque das irmãs é bastante metafórico, e tenta ser anulado, no final, de forma delicada. Na sequência final, as mãos se tocam, não se chocam. Será Von Trier um nazista gentil?

Mais uma taça de vinho, e comecei a sonhar. E descobri que Justine está errada quando diz “só existe vida na Terra, e por pouco tempo”. Prepare-se para a terceira revelação:

3 – Melancolia é habitada. Maior é o drama de quem vive naquele planeta errante, tão azul e belo quanto o nosso, sabendo que um dia vai se chocar com algum obstáculo mortal. Eles criaram uma sociedade perfeita, equilibrada, justa e ambientalmente correta. Só não contavam conosco no meio do caminho…

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6 Responses to “Três coisas sobre Melancolia”


  1. 1 Carmen 02/10/2011 às 12:47 am

    E, na sequência, me lembrei de um conto seu, que gosto muito: mecânica celeste, é isso?

  2. 2 Daniel Brazil 02/10/2011 às 12:44 pm

    Mecânica Celeste, isso. Só que não fala de desastres interplanetários, mas do desencontro entre pessoas. Conjunções astrais, no máximo…

  3. 3 dalila teles veras 03/10/2011 às 2:53 pm

    Pois é, Daniel, por duas vezes hesitamos à porta do cinema e… não entramos para ver este último Von Trier. Sempre fico indecisa diante de desasters filmes, ainda que realizados por grandes diretores, como este. Vou, não vou… agora acho que vou. Obrigada pelo jornalismo e dicas preciosas de sempre. abraço da leitora
    dalila

  4. 4 Daniel Brazil 03/10/2011 às 4:15 pm

    Ah, vale a pena, Dalila! O filme é muito mais uma investigação sobre o comportamento das pessoas numa situação-limite. Poderia ser uma epidemia, contaminação, fome, doença… como lidar com o inexorável? Imagens belíssimas, interpretações inesquecíveis.


  1. 1 Três coisas sobre Melancolia « FÓSFORO | iComentários Trackback em 02/10/2011 às 5:59 am

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