O Ó do Nuno Ramos

Sempre achei besteira essa coisa de discriminar artista plástico que escreve, dançarina que pinta, músico que faz poesia, arquiteto que canta. As pessoas têm à disposição todos os canais possíveis para expressar sua sensibilidade, sua busca estética, sua maneira de interferir no mundo. Já briguei com amigo por ouvir que “Caetano não pode dar opinião sobre tudo”. Ah, então é assim: você pode, eu posso, mas Caetano não?

Ou Gil. Ou o porteiro do prédio, o motorista do ônibus, o juiz de futebol, o deputado. Sim, até os deputados podem! Num mundo onde a generalização do gosto é cada vez mais rasa (e intencional), há uma perigosa tendência a respeitar somente a opinião dos especialistas, os donos de um só discurso, os monotemáticos. E o mundo acadêmico tem uma parcela de culpa nisso aí, há séculos.

Artes plásticas, no Brasil (no terceiro mundo? No segundo? No primeiro? Hoje qual é o segundo, afinal?) ainda é um campo de atuação artística visto de forma romântica. Um iluminado coloca num espaço físico – uma tela, um mural, um ambiente – sua visão sobre certo aspecto do mundo, da vida, da alma. É como se o sujeito não falasse, não soubesse escrever, cantar, dançar, degustar, interpretar, transcodificar. Certa vez, me encantei ouvindo uma velha artesã contar a sua vida. Nenhum escritor teria realizado tal feito, com aquela graça e originalidade. Ela escrevia de forma oral, e sua cerâmica refletia seu saber.

Nuno Ramos é artista plástico consagrado, mas não acomodado. Suas instalações são provocativas, até mesmo inquietantes. Jamais vou esquecer o impacto de “111”, obra que tive a oportunidade de (… sentir? Penetrar? Vivenciar?) nos anos 90. Cera, tubos de vidro, fumaça, fotografia, areia, parafina, óleo queimado, cinzas, urubus, qualquer inutensílio pode integrar o universo criativo de Nuno Ramos. Ele problematiza a arte, em cada gesto.

E expande isso para a música popular, para a poesia, para o texto denso. Fã de Paulinho da Viola, parceiro de Rômulo Fróes, pratica na música a mistura da tradição com a inovação. Se não é tão impactante quanto suas obras mais, digamos, palpáveis, ainda assim são dignas de atenção.

Demorei pra encarar os seus escritos. O cara também é um escritor compulsivo, tem alguns títulos publicados. Seu livro Balaço era perfurado por uma bala… Nestes dias, encarei o Ó, 280 páginas premiadas com o Portugal Telecom de 2009, o que não é pouca coisa.

De cara, é impossível definir um gênero. Parece o diário de um louco, cheio de impressões e devaneios. À medida que nos aprofundamos, temos a impressão de que há um sentido maior, complexo, altamente sofisticado, que amarra todas as intenções.  Como ocorre com  suas obras plásticas, enfim, se quisermos uma comparação simplista.

Mas há pormenores, pedregulhos, faíscas, desvios, larvas fascinantes de linguagem. Achados semânticos, imagens que nos fazem parar a leitura, fechar os olhos e imaginar estranhos universos. Prosa poética, de alto calibre, que parte dos limites inaugurados por Clarice Lispector na literatura brasileira e vai muito além (perdão, fãs da bruxa ucrano-pernambucana!).

Gente que gosta de ler com lápis na mão vai sublinhar várias frases em cada página. Gente que gosta de história com começo-meio-e-fim vai odiar. E quem gosta de ver o salto dos outros sobre o abismo, mesmo sem ter a coragem de fazer o mesmo, vai se admirar. Começo a desconfiar de que Nuno Ramos é um escritor que, às vezes, tenta reconstruir seus textos de forma concreta, tateável, sensorial. Um escritor do tempo, das coisas perecíveis, das sensações mundanas, porém imortais. Experimente!

PS: Ah, a resposta do post anterior é A, B e C (Nuno Ramos) e D (Clarice).

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4 Responses to “O Ó do Nuno Ramos”


  1. 1 Maria 06/10/2011 às 12:58 pm

    Que maravilha! Vou procurar este Ó. Excelente o texto, obrigada!

  2. 3 dalila teles veras 08/10/2011 às 8:34 pm

    Daniel,
    sou fã incondicional do Nuno artista plástico e não tenho dúvida nenhuma de que a sua resenha aponta para um grande escritor. Experimentarei, munida desta segura dica. Deliciosos estes dois últimos posts.
    da leitora
    dalila


  1. 1 O Ó do Nuno Ramos « FÓSFORO | iComentários Trackback em 06/10/2011 às 4:51 am

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