Arquivo para novembro \27\UTC 2011

Gota de Sangue

Um dos gêneros literários mais consagrados pelos leitores em todo o mundo é o policial. Até por isso, é visto com desconfiança pela crítica. Poucos são os romances escritos para serem policiais (ou seja, onde há um crime, um criminoso, e um detetive para descobrir ou apanhar o culpado) que acabam ganhando o status de obra-prima.

Na (sempre discutível) galeria de autores universais, Conan Doyle ou Agatha Christie são considerados autores menores, em termos de estilo, escola ou profundidade. Mas o engenho com que construíram suas tramas desafiam milhões de leitores em todo o mundo. E, cá entre nós, ninguém passou pela vida estudando apenas obras “sérias”, os chamados clássicos que compõem o cânone ocidental. Alguém que só leia isso corre alto risco de ser classificado na prateleira dos chatos, pedantes ou meramente acadêmicos.

Há leitura de lazer, leitura de férias, leitura de juventude, leitura de curiosidade. Há leitura de sacanagem, leitura de humor, leitura de estudo, leitura de descontração. E isso é parte da grande riqueza que a literatura nos proporciona: tem de tudo! Nos meus anos de formação li uma pesquisa americana meio besta que resolveu classificar o que seria alta, média e baixa cultura. Rotularam compositores, escritores, artistas plásticos, cineastas, atores, etc. Lendo a lista, cheguei à conclusão que o ideal, para ser feliz e com mais capacidade de transitar pelo mundo contemporâneo, seria ter um terço de cada: highbrow, middlebrow e lowbrow. Se ficasse em apenas uma das categorias, já pensou o que iria perder?

Mesmo enfrentando o preconceito highbrow, alguns policiais acabam virando obras incontestes, consagradas como “grandes”. Convenhamos, é difícil encontrar um romance de reconhecida envergadura onde não haja um crime, uma morte, ou um mistério a resolver. De Dostoievski a Camus, de Guimarães Rosa a Shakespeare, dos clássicos gregos a Bolaño. Poucos autores passaram longe da tentação de matar alguém (literariamente) pelo menos uma vez na vida.

Esta semana foi lançado o romance policial, com P maiúsculo, Gota de Sangue, de Fábio Brazil. Depois do excelente Bola da Vez (Digitexto, 2009) onde o paulistano bairro do Bexiga era palco de uma trama multifacetada e entremeada com a Copa do Mundo de 94, eu apostei que o autor (meu primo, aviso logo) voltaria para a poesia, praia que habita e onde surfa há anos.

Pois não é que o cara subverte tudo e parte da poesia para voltar à cena do crime? Gota de Sangue tem como mote um célebre poema de Mário de Andrade:

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

Este poema, da maturidade do modernista, foi publicado no volume Lira Paulistana. O nome do romance, no entanto, foi retirado do primeiro livro de Mário, Há uma Gota de Sangue em Cada Poema. Uma pista falsa? Bem, há várias delas espalhadas pelas 190 páginas do livro, e muitas extraídas da obra do autor de Macunaíma.

Você já deve ter desconfiado da trama. Pedaços de um mesmo corpo são encontrados em vários pontos da cidade, tal como no poema. Lúcio, um investigador em crise na vida privada e na profissional, tenta juntar as peças e resolver o quebra-cabeça. O cenário, nesse caso, é principalmente o Centro de São Paulo, nas três semanas que antecedem as eleições municipais de 1985. Claro, há ações em ruas de bairro, como a Lopes Chaves, na Barra Funda, (onde morou Mário de Andrade) e a Carlos Petit, na Vila Mariana (onde morou boa parte da família Brazil…).

Lúcio cruza com passeatas de apoio a Fernando Henrique, e presencia a volta do fantasma Jânio Quadros ao poder.  Na galeria de personagens secundários se destaca Pereirão, investigador aposentado, uma espécie de conselheiro de Lúcio, cínico e desiludido, que se orgulha de “nunca ter lavado as mãos na latrina dos generais”.

Um policial descaradamente paulistano, como o anterior, escrito de uma forma tão entranhada como só um Marcos Rey ou um Alcântara Machado pós-modernos se permitiriam. Fábio Brazil nos recoloca novamente nos anos 80, e a acurada pesquisa de época se revela em todos os detalhes. Quem morou na cidade vai reconhecer esquinas, bares e cinemas. Quem morou no Brasil vai relembrar a transição política da época, com a morte de Tancredo e a ascensão de Sarney, o Eterno. E quem habita o planeta “literatura” vai sentir o gênero policial renovado, inquieto, trocando figurinhas com outros gêneros sem pudor.

Faça o seguinte: imprima o poema e use como marca-página, quando for ler o livro. Você vai relê-lo muitas vezes, como fez Fábio Brazil. Talvez até descubra o criminoso que, confesso, para mim foi uma engenhosa surpresa.

Esperanza

Desculpem-me, baixistas! Nunca vi um homem tocar esse trambolho  e cantar desse jeito. Elas venceram… Ou melhor, ela venceu!

Bimbalham os sinos

Na minha infância, o dia primeiro  de dezembro era o marco para que surgissem de dentro dos baús, sótãos e maleiros os enfeites de Natal.  Se algum comerciante pensasse em pendurar guirlandas e papais-noéis na fachada no mês de novembro, seria considerado maluco.

Os tempos mudaram (se é que o tempo muda… Mudaram as coisas!), e em 2011 os shopping centers(que não existiam em minha infância soteropolitana), desde final de outubro, ostentam jingoubéis de todas as cores.

Certamente não movidos por espírito natalino, mas pecuniário. Transformaram o Dia das Mães em um grande negócio. Os pais, as crianças, a Páscoa, o Carnaval e o nascimento de Cristo não iam escapar dessa. Pra bom entendedor, tá lá escrito nas cédulas de 1 dólar: In gold we trust.

Trocar presentes do dia 25 de dezembro é uma coisa esquisita. O certo seria dia 6 de janeiro, lembrando a data em que os Reis Magos entregaram os seus presentes – ouro, incenso e mirra – naquela gruta de Jerusalém.  Mas, sabe como é, em janeiro as crianças estão de férias, muitos estão viajando, que tal puxar a data para os últimos dias de trabalho do ano? “Genial, caro Fernandinho! Você será promovido a gerente de vendas.”

Não, não vou me deter na figura caricata de Santa Klaus, com seu gorro de arminho anti-ecológico, passeando pelos trópicos com seu trenó movido a renas. Como é que São Nicolau, um bispo nascido na Turquia em 280 dC,  virou aquela figura de bochechas rosadas e olhos azuis é mais que sabido. Até o semita Jesus passa por essa transformação, em muitas ilustrações eurocentristas. Se alguém nascesse loiro e com olhos da cor do céu no Oriente Médio, naquele tempo, esse fato certamente seria apontado em todos os registros, até na Bíblia.

Enfim, estou falando de mistificações, mas o que me incomoda mesmo é o comércio despudorado. O consumismo redutor do ser humano, que transforma qualquer coisa em produto vendável. Religião é comércio, sexo é comércio, arte é comércio, morte é comércio. Tornamo-nos menos humanos e mais consumidores.

Os animais escapam desse círculo odioso simplesmente porque não compram. Mas consomem, e aí o alvo da propaganda é o dono do bichinho. Já acho estranha a ideia de ser “dono” de um bicho, mas enfim… Há muita gente boa, que realmente cuida bem de seus animais. O justo seria   fazer um pacto com o vira-lata: Você vigia minha cabana (ou ajuda a cuidar do rebanho) e, em troca, dorme num lugar coberto, ganha um osso de vez em quando, até um agrado. Cães são boa gente, costumam aceitar essa negociação.

Um dos aspectos mais ridículos do Natal é quando a dona/o dono resolve dar um presente pro lulu (ou pro bichano). “Coitadinho, vai ficar sentido se não ganhar nada!” E no dia das Mães, nada? E dos Pais? E das Crianças? Estamos caminhando para isso, aguardem. A inteligência humana tem limites, já a estupidez…

Domingo fui comprar comida pros passarinhos. “Ah, ele ironiza mas tem gaiolas com pássaros!” Errado. Meus beija-flores, sanhaços e cambacicas vivem soltos, e frequentam meu jardim apenas porque negociei com eles: néctar especial renovado diariamente, e em troca basta existir. E frequentar minha casa, claro.

Na fila do caixa vejo uma dondoca com um pacote de 2,5 kg de ração especial para yorkshire. Madame pagou sem vacilar: R$ 59,90. Filé mignon seria mais barato, não? E tenho certeza de que coxão duro ou acém iria deixar o bicho muito feliz. O que será que a gororoba tem de tão especial, a ponto de não servir para um lulu da Pomerânia ou um pequinês, só para yorkshires?

Ainda teve mais, para meu sacrílego espanto. Ao meu lado, uma gôndola anunciava, de forma convidativa, um panetone para cães. Com fibras de carne e passas. Cachorro come passa? Se o alimento tiver formato de panetone, de suástica  ou de cocô, faz diferença pra ele?

Não interessa, para o comércio. Estou fazendo muitas perguntas. É novembro, é Natal, os sinos bimbalham, a neve está caindo, e vou procurar comidinha de renas, quem sabe elas passam pela minha casa esse ano. É isto que indústria do consumismo inútil (é redundância, eu sei) quer me fazer crer.

O Palhaço de Selton Mello

O circo é um tema caro à vida da maioria das pessoas. Todos guardamos na memória deslumbramentos da infância.  Lembranças da música, das cores, de acrobacias, de bichos, de mágicas, de malabarismos e palhaçadas.

Quando falamos do circo no cinema, é fácil lembrar-se de Fellini (tantas vezes!) ou Ettore Scola (A Viagem do Capitão Tornado). Os mais velhos vão recordar de Carlitos. Alguns vão apontar que Bergman esteve mais de uma vez filmando sob a lona. Muita gente suspirou com o triângulo vivido por Burt Lancaster, Tony Curtis e Gina Lollobrigida em Trapézio (1956). Danny Kaye viveu um aplaudido palhaço nos idos de 1958. Elia Kazan contou a história de um grupo de saltimbancos, na mesma década, num filme de tons mais políticos.

Os nacionalistas vão recordar a Caravana Rolidei de Bye, bye, Brasil, ou até mesmo de Janete, de Chico Botelho (que não era uma comédia). O grande Oscarito veio do circo, e levou muito de sua vivência para as chanchadas que fez com Grande Otelo. E, claro, não é preciso ser velho pra lembrar da trupe de Didi Mocó, nos Saltimbancos Trapalhões, de 1981.

Ontem assisti O Palhaço, de Selton Mello, e lembrei de tudo isso. Mas não foi só. O filme é de uma delicadeza, de uma sensibilidade acima da média. São brasileiros (quase) comuns, tentando sobreviver daquilo que sabem fazer. E muitas vezes rimos quando eles estão sem maquiagem, apenas tentando contornar os problemas do dia a dia. Mas é sério, é rico, é profundo. E é também muito engraçado.

O Brasil rural serve como pano de fundo. Não só geográfico – norte de Minas Gerais – como também histórico. O filme se passa nos anos 70, e a televisão ainda não é o problema detectado no filme de Cacá Diegues. Há um certa inocência, misturada com ceticismo. A decadência do Circo Esperança é inexorável, e o velho palhaço Puro Sangue sabe que está transmitindo uma herança esquálida para seu filho Pangaré.

                O filme é uma aula de direção de atores. E se houvesse um prêmio para casting, esse ganharia qualquer Oscar do mundo. O elenco de apoio é fenomenal, extremamente adequado, fisicamente perfeito. Alguns nomes famosos (Jorge Loredo, Tonico Bastos, Moacyr Franco, Ferrugem) desempenham pequenos papéis faiscantes, entre caras menos conhecidas que mantém o alto nível de interpretação.

                Mas isso não é uma crítica de cinema, e sim um relato sentimental. Adorei o filme, me fez desenterrar as lembranças de outros cirquinhos mambembes. Um circo de cavalinhos em Itaparica, uma noite no interior de Minas, com direito a palhaços tocando modas de viola, uma tenda montada na periferia de São Paulo para exibir… filmes.

                O Palhaço de Selton Mello é um dos melhores filmes do ano, da década. Pra não dizer que é perfeito, eu teria desenhado o personagem principal um pouquinho estourado, brigão, menos calado. Soaria mais engraçado, sem mudar um milímetro da história original. Selton Mello – que também é co-roteirista do filme – optou por um palhaço ensimesmado, sorumbático fora do picadeiro. Aposta na melancolia existencial dos palhaços, um imagem histórica que é quase um lugar comum. Serão mesmo tristes longe dos holofotes? Duvido…


Aline Sasahara

 

Poucas coisas nos deixam mais felizes que o reconhecimento. Quando vemos alguém ser aplaudido por ter feito coisas boas, justas e generosas, ficamos com a impressão de que o mundo pode ser melhor, basta querer.

Esta semana, tive a alegria de ter uma grande amiga premiada. Aline Sasahara, colega de faculdade e companheira de várias jornadas, recebeu o Prêmio João Canuto 2011 de Direitos Humanos.

O trabalho pelo qual foi distinguida é dos mais doloridos: O vídeo Salve Santo Antônio! relata o sofrimento das vítimas de uma explosão numa fábrica de fogos clandestina, em Santo Antonio de Jesus, na Bahia. Um trabalho editado com lágrimas nos olhos, e que virou um instrumento político de defesa das famílias atingidas, obrigando o governo a negociar indenizações.

Aline milita em vários movimentos sociais, mas acima de tudo é uma pessoa íntegra, que não se conforma com a injustiça e a desigualdade. Multimídia de formação, escreve, dirige, roteiriza e filma, muitas vezes sozinha (mas nunca solitária). Seu tema são as pessoas. Já marchou com as mulheres, plantou com os sem-terra, ocupou com os sem-teto, trabalhou com os operários, brincou com as crianças da periferia.

Aliás, é mãe de dois filhos. Como arruma tempo pra cuidar disso tudo, não sei. Nunca a vi parada, sem fazer nada. Quando o trabalho escasseia, está fazendo projetos. É daquelas pessoas que motivam, que nos impelem a seguir em frente, sem recorrer a discursos ou manuais. Basta viver com causa.

Essa foto foi feita em Belém, durante o Fórum Social Mundial, onde trabalhamos. Estivemos várias vezes juntos, depois disso, em 2011. No meu aniversário, em agosto, ela esteve em casa com o companheiro Marcelo, curtindo o sarau do Duo Violeta. Vamos armar outra festa, só pra comemorar o prêmio. E como pretexto para juntar os amigos, claro!

A universidade invadida

A tragicomédia de erros em que se transformou a invasão da Reitoria da USP está sendo convenientemente manipulada pela grande imprensa para criminalizar os estudantes. Ignorantes de História defendem de forma simplista a ação policial, sem saber que a instituição “universidade”, desde a Idade Média, não obedece aos príncipes e barões de ocasião, mas estabelece regras próprias de convívio entre seus pares para criar um ambiente propício à ciência e ao saber.

O erro inicial dos grupelhos extremistas – e não passam mesmo disso – foi imaginar que “as massas” invadiriam a reitoria atrás deles. Com a desastrada invasão, deram corda para os argumentos mais conservadores, além de demonstrarem desapreço à decisão da maioria, tomada em assembléia.

Fui aluno da USP, no final dos anos 70, início dos 80. Ditadura ainda renitente, com perseguições e embates com estudantes… fora da USP! Minha única detenção na vida foi por pixar um muro da Av. Paulista (naquele tempo ainda havia terrenos murados por ali) com a frase “A UNE vem aí”. Não durou mais de 4 horas.

Fizemos greves por mais de 40 dias em 1979, com funcionários, professores e alunos fazendo atividades alternativas, reuniões, coletas públicas e festas, transitando livremente pela universidade. Não vi tropas dentro do campus, nem estudantes presos nessa ocasião.

Dito assim, parece claro que a USP (ou qualquer universidade) é território à parte, por acordo tácito entre os vários poderes civis e militares. Mas os tempos são outros.

A USP, por tradição e circunstância, é aberta à cidade. Carros e pessoas cruzam seu espaço físico sem ter a mínima relação com ela.  A violência civil – o tráfico, o roubo, os assaltos à mão armada – se alastrou, passou a fazer parte do cotidiano universitário. Há alguns anos, depois de invasões e roubos que destruíram o resultado de anos de pesquisas, o espaço foi fechado nos fins de semana. Foi-se mais uma área de lazer da região Oeste. Os crimes continuaram acontecendo, nos dias de semana. O assassinato de um aluno, em maio de 2011, foi a gota dágua. Mais segurança, pedem os uspianos. Mas qual segurança?

Aí faltou o diálogo. A segurança privada atual não é suficiente? Falta iluminação nas ruas? O metrô deve ter estação ali dentro? Os administradores do campus nunca propuseram um seminário sobre segurança, com a participação de todos. Não colheram sugestões e opiniões da coletividade. Não pesquisaram exemplos internacionais, procurando saber como outros centros lidam com a questão. Em vez disso, optaram pela solução mais simples, imediatista e burra: chamar a PM.

Não é preciso muita pesquisa para saber que a Polícia Militar nem sequer devia existir, resquício que é da ditadura. A substituta da Força Pública do Estado de SP (esta sim, respeitada e reconhecida pela população pré-1964) foi criada pela ditadura militar, e nunca aprendeu a lidar com estudantes. Despreparada, truculenta, corrupta e achacadora, como vemos diariamente nas páginas policiais dos diários que defendem sua ação na USP. Festa de playboy nos Jardins ou Morumbi, com um cogumelo atômico de fumaça e droga pra todo lado, eles nem chegam perto…

O que vimos foi a ação de dois grupos despreparados para o diálogo, um de cada lado. Extremistas sem voto contra fardados sem respaldo histórico da sociedade. Tanto os três idiotas que fumavam maconha no pátio (para mim, quem dá dinheiro pra traficante é idiota, e conivente com a violência), quanto os cretinos fardados que fizeram a desastrada abordagem, estopim de toda a confusão, são um detalhe dentro do problema maior, que é o espaço real da universidade e o papel da PM em nossas vidas.

Ironicamente, a USP é a única universidade do mundo com guarita: uma Academia de Polícia na porta, com um gigantesco letreiro desafiando a Lei Cidade Limpa do Kassab. Quando vai ter coragem de abrir um amplo debate sobre a segurança dentro de seu território?

PS: Enquanto todas as atenções estão voltadas para a universidade paulista, na Federal de Rondônia (em greve) policiais à paisana apreendem máquinas fotográficas e  prendem um professor à vista de todos. Um preocupante retrocesso aos tempos mais cruéis de ditadura…

A lenda de Dafne

Diz a mitologia grega que Apolo, após ser atingido por uma flecha de Cupido, se apaixonou por Dafne, uma náiade do rio Peneios. Ela,porém, atingida por uma flecha de chumbo, não correspondeu ao amor. Apolo passa a persegui-la, louco de paixão. Desesperada,  a ninfa pediu ao pai-deus do rio (ou a Gea, a mãe-terra), que a transformasse em árvore. Foi atendida, e quando Apolo a tocou, seus pés se transformaram em raízes, os braços viraram galhos e seus cabelos, folhagem.

Dafne transformou-se num loureiro, que passou a ser a planta consagrada a Apolo. Suas folhas são usadas para coroar os heróis, além de possuir propriedades medicinais. No Brasil, é mais conhecida por temperar o feijão…

Vários artistas retrataram o episódio mitológico de Apolo e Dafne, como o anônimo autor do mosaico bizantino do séc. III dC que abre este post. Entre os mais célebres estão Pollaiuolo (1432/1498)…

ou Waterhouse (1849/1917).

Muito admirada é a estátua de Bernini (1598/1680), que fica na Galleria Borghese, em Roma.

Essa pequena viagem pela história da arte me foi causada por uma foto natural, sem truques (acho), enviada por um amigo. Só de pensar que as águas de Belo Monte podem encobrir árvores como esta, me arrepio!