A universidade invadida

A tragicomédia de erros em que se transformou a invasão da Reitoria da USP está sendo convenientemente manipulada pela grande imprensa para criminalizar os estudantes. Ignorantes de História defendem de forma simplista a ação policial, sem saber que a instituição “universidade”, desde a Idade Média, não obedece aos príncipes e barões de ocasião, mas estabelece regras próprias de convívio entre seus pares para criar um ambiente propício à ciência e ao saber.

O erro inicial dos grupelhos extremistas – e não passam mesmo disso – foi imaginar que “as massas” invadiriam a reitoria atrás deles. Com a desastrada invasão, deram corda para os argumentos mais conservadores, além de demonstrarem desapreço à decisão da maioria, tomada em assembléia.

Fui aluno da USP, no final dos anos 70, início dos 80. Ditadura ainda renitente, com perseguições e embates com estudantes… fora da USP! Minha única detenção na vida foi por pixar um muro da Av. Paulista (naquele tempo ainda havia terrenos murados por ali) com a frase “A UNE vem aí”. Não durou mais de 4 horas.

Fizemos greves por mais de 40 dias em 1979, com funcionários, professores e alunos fazendo atividades alternativas, reuniões, coletas públicas e festas, transitando livremente pela universidade. Não vi tropas dentro do campus, nem estudantes presos nessa ocasião.

Dito assim, parece claro que a USP (ou qualquer universidade) é território à parte, por acordo tácito entre os vários poderes civis e militares. Mas os tempos são outros.

A USP, por tradição e circunstância, é aberta à cidade. Carros e pessoas cruzam seu espaço físico sem ter a mínima relação com ela.  A violência civil – o tráfico, o roubo, os assaltos à mão armada – se alastrou, passou a fazer parte do cotidiano universitário. Há alguns anos, depois de invasões e roubos que destruíram o resultado de anos de pesquisas, o espaço foi fechado nos fins de semana. Foi-se mais uma área de lazer da região Oeste. Os crimes continuaram acontecendo, nos dias de semana. O assassinato de um aluno, em maio de 2011, foi a gota dágua. Mais segurança, pedem os uspianos. Mas qual segurança?

Aí faltou o diálogo. A segurança privada atual não é suficiente? Falta iluminação nas ruas? O metrô deve ter estação ali dentro? Os administradores do campus nunca propuseram um seminário sobre segurança, com a participação de todos. Não colheram sugestões e opiniões da coletividade. Não pesquisaram exemplos internacionais, procurando saber como outros centros lidam com a questão. Em vez disso, optaram pela solução mais simples, imediatista e burra: chamar a PM.

Não é preciso muita pesquisa para saber que a Polícia Militar nem sequer devia existir, resquício que é da ditadura. A substituta da Força Pública do Estado de SP (esta sim, respeitada e reconhecida pela população pré-1964) foi criada pela ditadura militar, e nunca aprendeu a lidar com estudantes. Despreparada, truculenta, corrupta e achacadora, como vemos diariamente nas páginas policiais dos diários que defendem sua ação na USP. Festa de playboy nos Jardins ou Morumbi, com um cogumelo atômico de fumaça e droga pra todo lado, eles nem chegam perto…

O que vimos foi a ação de dois grupos despreparados para o diálogo, um de cada lado. Extremistas sem voto contra fardados sem respaldo histórico da sociedade. Tanto os três idiotas que fumavam maconha no pátio (para mim, quem dá dinheiro pra traficante é idiota, e conivente com a violência), quanto os cretinos fardados que fizeram a desastrada abordagem, estopim de toda a confusão, são um detalhe dentro do problema maior, que é o espaço real da universidade e o papel da PM em nossas vidas.

Ironicamente, a USP é a única universidade do mundo com guarita: uma Academia de Polícia na porta, com um gigantesco letreiro desafiando a Lei Cidade Limpa do Kassab. Quando vai ter coragem de abrir um amplo debate sobre a segurança dentro de seu território?

PS: Enquanto todas as atenções estão voltadas para a universidade paulista, na Federal de Rondônia (em greve) policiais à paisana apreendem máquinas fotográficas e  prendem um professor à vista de todos. Um preocupante retrocesso aos tempos mais cruéis de ditadura…

8 Responses to “A universidade invadida”


  1. 1 Victor Sá 09/11/2011 às 6:47 pm

    Sempre coerente, disparando pra tudo que é lado. muito bom, camarada!!

  2. 2 Carmen 10/11/2011 às 9:08 am

    Daniel, belo texto, com o qual concordo.

    Hoje ouvi um colega comentar que não entendia como estudantes que há pouco mais de 24 horas atrás eram contra a invasão da Reitoria – e até certo ponto se rendiam à necessidade da “reintegração de posse”, hoje engrossavam o coro de “fora a PM”.

    Pra mim é simples: a grande maioria dos alunos, docentes e funcionários da USP, acuados pelos crescentes índices de violência (é fato) e cansados de se sentirem reféns de uma minoria que insiste em atrapalhar a vida universitária impondo a todos a sua vontade (ninguém agüenta mais essas invasões), “comprou” a idéia da Reitoria de que seria possível controlar a atuação da PM através de um convênio. Os fatos – e principalmente o inexplicável silêncio do Reitor Rodas – mostrou que a coisa não é tão simples. Com o comandante da PM bradando pelos jornais que só sai da USP quando quiser e com iniciativas como a de tentar enquadrar os estudantes no crime de “formação de quadrilha”, o medo de que se perca o controle de vez acaba ficando mais forte do que o medo da violência. Enquanto a Reitoria se omite de dizer claramente qual é o limite de atuação da PM e não cria canais efetivos de debate com a comunidade, cresce a sensação de que alguém tem que fazê-lo. E cada vez mais gente percebe que não há saídas mágicas, e que é necessário buscar alternativas, talvez mais trabalhosas e menos eficientes no curto prazo, mas mais duradouras e eficientes. Para resolver ambos os problemas: o da violência urbana dentro da USP e o de impor limites a essas invasões.

  3. 4 Paulo Weidebach 10/11/2011 às 5:52 pm

    Não concordo com a frase: Dito assim, parece claro que a USP (ou qualquer universidade) é território à parte, por acordo tácito entre os vários poderes civis e militares.

    Não tem que ter território a parte. Para ninguém. Sinceramente acho que a USP e os estudantes “se acham”, independente de defenderem uma posição correta ou incorreta, uma casta superior, a fina flor do talento e do futuro. Não são. Ao contrário cada vez mais a universidade fica descolada da realidade. E todos são cidadãos: pagam imposto, tem direitos e deveres. Não concordo que ninguém seja tratado de maneira diferente… FIm das castas, já! bjs, saudades!!!!

    • 5 Daniel Brazil 10/11/2011 às 7:32 pm

      Paulo, é uma questão histórica. Assim como as igrejas, conventos e templos são espaços diferenciados (concorda?), a Universidade surgiu na Idade Média, (Itália e França) como centro de aprendizado e saber, onde havia – desde o início! – regras próprias de convívio e disciplina. Isso evitava que reis, príncipes e barões assinalados passeassem lá dentro a bel prazer. Ali é lugar de estudo, de preparação da “fina flor do talento”, como você diz. No mundo socrático que herdamos (não havia universidades na Grécia, mas grandes pensadores), a escola era um lugar de preparação das pessoas que deveriam governar, com sabedoria.
      A outra opção de formação é a força, o Exército. Infelizmente, tivemos mais generais que filósofos governando a humanidade…
      Enfim, em qualquer lugar civilizado do mundo, não se invadem templos ou universidades. Ali não é lugar de polícia, a instituição cria regras próprias de convívio. E costuma ser rígida, afastando os que não se enquadram! Você acha que algum professor cabeludo e maconheiro chega a ser reitor? Nunca!!!!
      Professores, funcionários e alunos nunca estão descolados da realidade, uma vez que vivem, moram, amam, pagam impostos, etc., fora da universidade. Na mesma cidade onde vivemos. A idéia de “ilha” isolada é furada, até mesmo pelo trânsito.
      Você topa invadir o Vaticano? Eu não. As mesquitas, os templos, os terreiros de umbanda, as tendas espíritas? Eu não. Ali há regras milenares de convívio, e eles sabem muito bem o que fazem. Sou um ateu respeitador. E para mim, a educação é o maior dos valores, mola principal do avanço da humanidade. Ou estaríamos de tanga até hoje, caçando calangos pra comer…
      Saudades também, meu caro! Vamos conversar, ao vivo?

  4. 6 Medina 18/11/2011 às 1:15 pm

    Fantástico, muito bem escrito e abordado.


  1. 1 A universidade invadida « FÓSFORO | iComentários Trackback em 09/11/2011 às 8:04 pm

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