O Palhaço de Selton Mello

O circo é um tema caro à vida da maioria das pessoas. Todos guardamos na memória deslumbramentos da infância.  Lembranças da música, das cores, de acrobacias, de bichos, de mágicas, de malabarismos e palhaçadas.

Quando falamos do circo no cinema, é fácil lembrar-se de Fellini (tantas vezes!) ou Ettore Scola (A Viagem do Capitão Tornado). Os mais velhos vão recordar de Carlitos. Alguns vão apontar que Bergman esteve mais de uma vez filmando sob a lona. Muita gente suspirou com o triângulo vivido por Burt Lancaster, Tony Curtis e Gina Lollobrigida em Trapézio (1956). Danny Kaye viveu um aplaudido palhaço nos idos de 1958. Elia Kazan contou a história de um grupo de saltimbancos, na mesma década, num filme de tons mais políticos.

Os nacionalistas vão recordar a Caravana Rolidei de Bye, bye, Brasil, ou até mesmo de Janete, de Chico Botelho (que não era uma comédia). O grande Oscarito veio do circo, e levou muito de sua vivência para as chanchadas que fez com Grande Otelo. E, claro, não é preciso ser velho pra lembrar da trupe de Didi Mocó, nos Saltimbancos Trapalhões, de 1981.

Ontem assisti O Palhaço, de Selton Mello, e lembrei de tudo isso. Mas não foi só. O filme é de uma delicadeza, de uma sensibilidade acima da média. São brasileiros (quase) comuns, tentando sobreviver daquilo que sabem fazer. E muitas vezes rimos quando eles estão sem maquiagem, apenas tentando contornar os problemas do dia a dia. Mas é sério, é rico, é profundo. E é também muito engraçado.

O Brasil rural serve como pano de fundo. Não só geográfico – norte de Minas Gerais – como também histórico. O filme se passa nos anos 70, e a televisão ainda não é o problema detectado no filme de Cacá Diegues. Há um certa inocência, misturada com ceticismo. A decadência do Circo Esperança é inexorável, e o velho palhaço Puro Sangue sabe que está transmitindo uma herança esquálida para seu filho Pangaré.

                O filme é uma aula de direção de atores. E se houvesse um prêmio para casting, esse ganharia qualquer Oscar do mundo. O elenco de apoio é fenomenal, extremamente adequado, fisicamente perfeito. Alguns nomes famosos (Jorge Loredo, Tonico Bastos, Moacyr Franco, Ferrugem) desempenham pequenos papéis faiscantes, entre caras menos conhecidas que mantém o alto nível de interpretação.

                Mas isso não é uma crítica de cinema, e sim um relato sentimental. Adorei o filme, me fez desenterrar as lembranças de outros cirquinhos mambembes. Um circo de cavalinhos em Itaparica, uma noite no interior de Minas, com direito a palhaços tocando modas de viola, uma tenda montada na periferia de São Paulo para exibir… filmes.

                O Palhaço de Selton Mello é um dos melhores filmes do ano, da década. Pra não dizer que é perfeito, eu teria desenhado o personagem principal um pouquinho estourado, brigão, menos calado. Soaria mais engraçado, sem mudar um milímetro da história original. Selton Mello – que também é co-roteirista do filme – optou por um palhaço ensimesmado, sorumbático fora do picadeiro. Aposta na melancolia existencial dos palhaços, um imagem histórica que é quase um lugar comum. Serão mesmo tristes longe dos holofotes? Duvido…


4 Responses to “O Palhaço de Selton Mello”


  1. 1 Charô 14/11/2011 às 5:26 pm

    Ando tão absorta em meio a fraldas que esqueci de convidar minha mãe para ver … Agoa fiquei intrigada para ver. Abs!

  2. 3 nilton de souza moraes 26/12/2011 às 10:47 am

    ITAPEBa

  3. 4 nilton de souza moraes 26/12/2011 às 10:47 am

    sergio moraes sampaio


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